Mulheres, velhas, a luta continua!

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O que as mulheres de hoje estão fazendo para as mulheres que serão amanhã? Que tal colocar na pauta do feminismo o processo de envelhecimento para que a velhice não se torne um assunto de velhos nem muito menos de mulheres?


O Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta segunda-feira (8), será mais um dia em que mulheres do mundo afora mais uma vez refletem sobre conquistas e lutas, como também reivindicam igualdade de tratamento, oportunidades, direitos, respeito, e um basta ao feminicídio. 

Poucos movimentos vão além dessas bandeiras, e não são poucas, esquecendo de suas velhices. Não sabem que elas vivem mais do que os homens e que na idade avançada a maior proporção é de mulheres, no mundo todo. Em média, as mulheres vivem 7 anos mais do que os homens. E por isso há mais viúvas do que viúvos, pois elas, ao contrário dos homens, raramente voltam a se casar na velhice.

Já é corriqueiro o termo “feminização da velhice” ou a “velhice feminilizou”. Ou seja, na velhice avançada há mais mulheres do que homens e ao invés de se falar do processo de envelhecimento que envolve todos nós – homens, crianças, adultos, políticas públicas, universidades, escolas, sociedade civil, mercado -, tornamos o assunto como uma questão de mulher. Muitas vezes, em uma mesma família, encontramos a existência de mais de uma geração de velhos(as). Quem acompanha as redes sociais pode ver isso claramente, velhas postando fotos de suas mães – centenárias, nonagenárias e octogenárias – tomando vacina contra a Covi-19. Reparou?

O que isso quer dizer? Que velhas estão cuidando de outros entes queridos, velhos, normalmente mães, avós, sogras, tias… Mas a pergunta que faço é o que as mulheres de hoje, no Dia Internacional da Mulher, estão fazendo para as velhas que serão amanhã?

Desde já elas precisam saber que na velhice somam-se outras questões, que além de continuarem sendo discriminadas, sofrem muitos preconceitos sexistas e de idade, como o ageísmo ou idadismo. Sofrem por serem desvalorizadas, consideradas menos atrativas. Sofrem preconceitos por serem mulheres e velhas, se são pretas e pobres o preconceito é ainda maior. E muitas vezes as mulheres podem ser agentes de seus próprios preconceitos em relação à idade.

Os preconceitos sofridos ao longo da vida, somados aos da velhice, afetam as mulheres, levando-as muitas vezes à uma maior pobreza e solidão. A uma invisibilidade. A uma fragilidade maior e vulnerabilidade social. Para muitas delas, mais jovens, a mulher velha é vista como um fardo a ser carregado. Como neste Dia Internacional se pode reverter este quadro?

Que tal neste dia, em que as celebrações ocorrem em meio ao confinamento e à distância física, possamos colocar na pauta do feminismo o processo de envelhecimento para que a velhice não se torne um assunto de velhos nem muito menos de mulheres?

Ilustração destaque de Dhara Lucena. Ilustração interna por pikisuperstar



Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. Estudiosa do Envelhecimento e Longevidade desde 2000. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação, e é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), ambos da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Latinoamericana de Psicogerontologia (REDIP). E-mail: [email protected]

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