A feminização da velhice e o apoio social

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Uma forma de suporte a estas mulheres são as suas redes de apoio, que em muitos casos é composta pela família, que supre as necessidades que os programas de governo não atendem.

Raquel da Silva Pavin (*)


Abordar sobre a feminização da velhice, nos provoca à discussão realizada por Simone de Beauvoir em sua obra A Velhice (1970), aonde destaca de forma concreta e enfática, os desafios que essa fase da vida impõe à sociedade, especificamente às mulheres. A autora, filósofa e feminista, morreu aos 78 anos, em Paris. Mas, durante sua vida e carreira de escritora, se tornou uma das pensadoras fundamentais para a luta das mulheres em todo o mundo. Para ela, a velhice é inerente a todo ser humano, cujo organismo sofre alterações, acarretando diminuição das atividades, autonomia e atitudes em relação à vida individual e até mesmo coletiva.

Envelhecer significa passar por um processo natural intrínseco ao ser humano. A partir do século XX, acirra-se o crescimento expressivo da população envelhecida mundialmente, o que pode ser explicado pelas taxas de fecundidade serem minimizadas a partir da década de 1960. Nesse período histórico, as mulheres fortalecem sua autonomia, advinda da inserção no mercado de trabalho, passando a ter outras perspectivas sobre o papel imposto à mulher na sociedade.

Para Debert, “sendo a mulher em quase todas as sociedades valorizada exclusivamente por seu papel reprodutivo e pelo cuidado das crianças, desprezo e desdém marcariam sua passagem prematura à velhice” (1999, p. 8).  A mulher, sendo considerada um objeto de reprodução, conforme aponta Salgado (2002), tem sua vivência marcada por uma realidade submissa e passiva, tendo como centralidade o lar, servindo aos cuidados dos seus membros.

Quando falamos sobre mulheres idosas, estas questões de representação podem se tornar mais agudas, pois a mulher envelhecida na sociedade capitalista é identificada como “inútil” ao capital, manifestando com isso preconceitos, estigmas, negligência e abandono, além da inexistência de políticas públicas efetivas que atendam essas mulheres.  Reitera-se a importância da discussão sobre o gênero, sendo necessário ressaltar o protagonismo feminino que vem sendo construído ao longo dos anos por meio de lutas e resistências.

Mesmo com as lutas históricas das mulheres por direitos, percebe-se o quanto ainda é presente o estigma de ser mulher na sociedade capitalista e a batalha travada para garantir espaço de fala e protagonismo, e ainda neste século é evidenciado o quanto as mulheres sofrem em detrimento de uma construção histórica da sociedade patriarcal. Para Salgado (2002) envelhecer, nessa realidade, torna-se um fator de resistência ainda mais forte.

A problemática trazida por Beauvoir nos anos 70 mostra-se atual no contexto brasileiro, em que as mulheres, na sua maioria, continuam invisíveis. Não só, suas preocupações emocionais, econômicas e físicas permanecem, em grande parte, negligenciadas. Esta situação clama por políticas sociais efetivas e voltadas à garantia de renda mínima para a subsistência econômica, especialmente para aquelas que vivem a velhice. As políticas públicas devem dar garantia de serviços de proteção social, de forma universal, independentemente dos rendimentos.

Uma forma de suporte a estas mulheres são as suas redes de apoio, que em muitos casos é composta pela família, que supre as necessidades que os programas de governo não atendem. Em contrapartida, também realizam o apoio a seus membros, por serem muitas vezes as provedoras por meio da aposentadoria, das pensões e de outros benefícios. Elas exercem um importante papel social como avós, cuidadoras e mantenedoras dos serviços domésticos, prestando auxílio a amigos ou vizinhos doentes, recebendo diversas responsabilidades que lhes são demandadas ao longo da velhice, de forma cada vez mais representativa, como destaca Motta (2011).

escultura
Escultura de Luciano Almeida

Almeida, Mafra, Silva e Kanso (2015), analisam os aspectos de maior vulnerabilidade e risco social, e ao mesmo tempo a importante recomposição do espaço relacional, por ser a mulher idosa relevante elo para a rede de apoio social. Segundo elas, as mulheres idosas vivem mais do que os homens idosos, em geral, o que ocasiona, muitas vezes, viverem sozinhas, ou a necessidade de morarem com os filhos, demais familiares e/ou de tornarem-se institucionalizadas. Conforme apontam Agostinho e Máximo (2006), devido à inexistência de reformas que acompanhem as alterações na composição etária da população no Brasil, as pessoas idosas no país representam um grupo com variadas vulnerabilidades, que podem ocorrer pela perspectiva de renda, quando da inexistência de aposentadoria ou pensão.

Para Soares (2012) o envelhecimento populacional tem gerado mudanças na estrutura familiar e nas características dos rendimentos das famílias. Vivenciamos uma realidade aonde idosos estão em situação de vulnerabilidade e são responsáveis pela manutenção das famílias. São urgentes as ações de cunho político de garantia aos direitos sociais da população, um olhar mais atento às pessoas idosas que executam importante papel social, como apoio na sociedade contemporânea.

Referências
AGOSTINHO, Cíntia. S.; MÁXIMO, Geovana. C. Idosos num Brasil que envelhece: uma análise multidimensional da pobreza. Caxambu: ABEP, 18-22 set. 2006.

ALMEIDA, Alessandra. V; MAFRA, Simone. C.; SILVA; Emília. da Silva; KANSO, Solange. A Feminização da Velhice: em foco as características socioeconômicas, pessoais e familiares das idosas e o risco social. Revista Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 14, n. 1, jan./jun. 2015. p. 115-131.

BEAUVOIR, Simone. A Velhice: A realidade incomoda. Trad. de Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Editorial Difusão Europeia do Livro, 1970

DEBERT, Guita Grin. A Reinvenção da Velhice:Socialização e processo de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: Edusp, 1999.

MOTTA, Alda da B. As velhas também. Revista Ex aequo, Vila Franca de Xira, n. 23, 2011. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/aeq/n23/n23a03.pdf. Acesso em: 19 fev. 2020.

SALGADO, Carmen Delia Sánchez. Mulher idosa: a feminização da velhice. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, Porto Alegre, v. 4, 2002. p. 7-19. Quadrimestral. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/RevEnvelhecer/article/view/4716. Acesso em: 19 mar. 2020.

SOARES, Cristiane. Envelhecimento populacional e as condições de rendimento das idosas no Brasil. Revista Gênero, Niterói, v. 12, n. 2,1. sem., 2012. p. 167-185. Disponível em: http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/view/420/313. Acesso em: 28 jan. 2019.

(*) Raquel da Silva Pavin é Assistente Social. Mestra em Políticas Sociais e Serviço Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Memória Social e Bens Culturais pela Universidade La Salle e bolsista PROSUC/CAPES. E-mail: raquelpavin@yahoo.com.br

Ilustração: Dhara Lucena (instagram: dhara.corte)


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