Você não estava aqui – Filme denúncia sobre as novas relações de trabalho na economia neoliberal

Tempo de Leitura: 4 minutos

Filme denúncia tem narrativa focada nas relações da família Turner, entre o casal e os filhos e entre o casal e suas relações de trabalho. Histórias singelas e comoventes da cuidadora Abbie com alguns de seus clientes idosos. E histórias tensas e às vezes brutais do mundo do trabalho de Turner. Toda a tensão de uma sociedade onde predomina o trabalho precarizado e o desmonte da saúde pública.


Gostaria de ser lembrado como alguém que não se rendeu. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.” (Ken Loach)

Ken Loach é um cineasta inglês de 83 anos. E continua no seu trabalho, com excelência. Acaba de ser lançado no Brasil, o seu novo filme, Você não estava aqui. Em 2017, Ken Loach ganhou a segunda Palma de Ouro como melhor filme no festival de Cannes, Eu, Daniel Blake. O filme conta a saga de um idoso que sofre um ataque cardíaco e precisa parar de trabalhar. Sem aposentadoria, Daniel Blake percorre os labirintos da humilhação e desesperança do fraturado sistema de saúde inglês, como bem demonstrado em artigo publicado recentemente aqui no Portal.

Você não estava aqui, continua a denúncia sobre a devastação causada pelas novas relações de trabalho, em uma família inglesa com dois filhos adolescentes. O casal está engajado no trabalho contemporâneo. O marido, interpretado por Kris Hitchen, é motorista de uma empresa de entregas das grandes companhias de vendas online. A mulher, interpretada por Debbie Honeywood, é cuidadora de idosos, vinculada à uma agência.

Ricky Turner, desiste de trabalhar na dura vida de operário faz-tudo da construção civil, para ingressar no mundo do trabalho controlado por plataformas digitais e aplicativos. A cena em que ele faz a entrevista de emprego com o personagem Maloney, o ator Ross Brewster, que é o RH, o capataz e o gerente de produção da empresa, é a síntese das novas relações de trabalho “uberizadas”. O motorista Turner, só tem despesas e duras metas a cumprir. O mito do trabalhador como empreendedor de si é desmascarado quando Maloney lhe apresenta as metas de produtividade e se redime de pagar seguro e direitos. Imediatamente o trabalhador assume dívidas ao assinar o contrato. Se ele não puder cumprir sua jornada, tem que pagar por um motorista substituto. Tem que pagar pelo mini computador com todas as informações da rota e dos produtos que tem que entregar. Algumas entregas, com hora marcada. Turner opta por se endividar mais e impor sacrifícios à esposa ao vender o carro dela para dar entrada em uma van e assumir uma pesada dívida. Para pagar tudo, tem que trabalhar 14 horas por dia, 6 dias na semana.

A esposa Abbie Turner, é uma dedicada cuidadora de idosos, vinculada à uma agência. Cuida dos “seus idosos como se cuidasse de sua mãe”. Tem que cumprir horários rígidos controlados pela agência. Cuidar de idosos não é um trabalho mecânico e envolve sentimentos e preocupação. Os idosos apresentam sintomas próprios da velhice como o Alzheimer e mobilidade reduzida. Vivem sozinhos, separados das famílias e dependem do trabalho do cuidador. Pequena amostra de como vive a população idosa em um país como a Inglaterra. Muitas vezes Abbie faz horas-extra pois estabelece uma relação de carinho recíproco com seus clientes, que tem demandas inesperadas. A agência não paga as horas-extra. Abbie trabalha muito, com muito sacrifício pois tem que usar o ônibus e andar a pé para chegar à casa dos clientes. E como toda mãe e dona de casa, faz a tripla jornada de trabalho, cuidando da casa e dos filhos.

As longas e extenuantes jornadas de trabalho do casal refletem na convivência com os filhos adolescentes e a família caminha para a desagregação. Os filhos adolescentes explodem em conflitos próprios da idade.

O diretor Ken Loach e seu parceiro, o roteirista Paul Laverty, constroem uma narrativa sem rodeios, focada nas relações da família Turner, entre o casal e os filhos e entre o casal e suas relações de trabalho. Histórias singelas e comoventes da cuidadora Abbie com alguns de seus clientes idosos. E histórias tensas e às vezes brutais do mundo do trabalho de Turner.

O roteiro constrói uma tensão na narrativa com a expectativa de um final de desastres. Toda a tensão de uma sociedade onde predomina o trabalho precarizado e o desmonte da saúde pública e do “welfare state”, orgulho dos ingleses.   

Você não estava aqui, é mais um importante filme denúncia das relações de trabalho reguladas pela tecnologia, onde se evidencia o Privilégio da servidão, muito bem analisado no livro do sociólogo Ricardo Antunes.

E já está sendo exibido em sindicatos e associações de trabalhadores, seguido de sessões de debates.

Ficha técnica do filme Você não estava aqui
Título original: Sorry, we missed you
Ano de produção: 2019
Diretor: Ken Loach
Roteirista: Paul Laverty
Gênero: Drama
Atores principais: Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhis Stone, Katie Proctor, Ross Brewster
Em exibição nas principais salas de cinema   

Referências
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão. São Paulo: Editora Boitempo, 2018.


O curso sobre Indicadores Sociais será ministrado a partir de exercícios diversos, questionamentos e contatos com os conceitos e conteúdos, por Viviane Canecchio Ferreirinho e Pierre Rinco (Coordenação do Observatório da Vigilância Socioassistencial, da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – SMADS). Visa possibilitar saberes sobre o que são indicadores e quais estão disponíveis para pessoas idosas. Inscrições em: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/indicadores/

Maria do Carmo Guido Di Lascio

Maria do Carmo Guido Di Lascio

Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo/SP. Pesquisadora autônoma sobre temas do envelhecimento. E-mail: mariaguidodl@gmail.com

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