Quando a boca cala, o corpo fala…

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Para mim foi importante entender o lugar da saúde mental dentro de grupos não necessariamente psicoterapêuticos, porém, mais ainda, compreender uma interdisciplinaridade de constituição de saberes necessários para o cuidado eficiente.

Lorena Ribeiro Novais Silva (*)


Nesse semestre, tive a oportunidade de realizar durante três meses, estágio no Projeto de Envelhecimento Criativo, mediado por um serviço público na cidade de São Paulo. Em geral, o projeto é proposto à idosos e tem como principal diretriz a promoção de um espaço cuidadoso para discussão de temas e assuntos que interessem a todos. Ainda, a dinâmica do projeto é dividida em: uma terça-feira a reunião dos coordenadores (equipe multiprofissional) que guia o grupo, e uma terça-feira o encontro com os idosos. Em especial na pandemia, esse encontro estava sendo feito por meio de subgrupos, aos quais uma dupla ou trio de coordenadores se reunia para “tocar” as conversas.

Durante a minha estadia como estagiária observadora, acredito que a pergunta em voga, que permeou todas as discussões, decisões e mudanças, foi: Qual a proposta do Envelhecimento Criativo? Esta questão foi iniciada pelo advento da pandemia, que alterou todos os mecanismos institucionais e possibilidades de relação e encontro presencial entre pessoas. É claro que, de cara, esse foi o principal alvo para as confusões e desentendimentos sobre o rumo do Projeto. Compreendia-se que seria impossível agrupar todos os idosos, pois para isso seria necessário utilizar outras ferramentas tecnológicas, dificultando o processo; e que então a subdivisão deles em grupos menores seria viável, já que esta pode ser realizada pelo WhatsApp – a qual todos têm acesso.

Compreendia-se também, que esse mecanismo de subdivisão não era, exatamente, o ideal, já que abria espaço para uma série de comprometimentos possíveis, aos quais tive a experiência de vivenciar. Destes, pode-se elencar alguns pontos que centralizaram os debates das reuniões: encontros demasiadamente “solto” com os idosos, encontros que se assemelhavam mais a teleatendimentos, encontros que não unificaram o grupo e por fim, encontros que não tinham nenhuma troca entre os participantes.

O mais interessante nessa experiência foi presenciar o processo do grupo – tanto dos idosos quanto dos coordenadores – como cada problemática era abordada, discutida, e o posicionamento e opiniões de cada um. Os movimentos de busca a um ideal de Projeto anterior a pandemia que reiterou esse espaço aberto com bastante participantes e a adequação deste ao online, que se contrapunha a opiniões guiadas por instituir algo diferente, e de certa maneira, novo. Além de um debate especial com foco na saúde mental, a fim de entender seu papel e manejo por profissionais multidisciplinares.

Digo “em especial”, porque para mim, sendo uma graduanda em psicologia, foi importante entender o lugar da saúde mental dentro de grupos não necessariamente psicoterapêuticos, porém, mais ainda, compreender uma interdisciplinaridade de constituição de saberes necessários para o cuidado eficiente.

Devo admitir que realizar um estágio em um Projeto não voltado exclusivamente para a saúde mental foi, de início, desestimulante. Talvez por não ter apreendido totalmente a proposta do grupo, ou talvez por não atribuir uma importância considerada ao trabalho multiprofissional. De fato, dúvidas que permearam meu tempo no Envelhecimento Criativo, e promoveram um ensinamento importante para mim. As quais também se relacionaram às outras problemáticas que o Projeto, em geral, enfrentou nesse período.

Como disse anteriormente, o mais interessante foi presenciar o processo do grupo em geral, mas atrevo-me a dizer, que contou também com o meu processo de abertura, conhecimento e aprendizado. Principalmente, de ter uma posição privilegiada de poder conhecer – apesar de todas as incertezas e questionamentos – esse espaço que tem tanto a oferecer pelos participantes, equipe aplicada e cuidadosa, e por todas as trocas proveitosas.

(*) Lorena Ribeiro Novais Silva – Depoimento do estágio de 5º ano – 1º Sem 2021, do Curso de Psicologia, Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde – FACHS-PUC-SP, sob a supervisão da Profa. Dra. Ruth Gelehrter da Costa Lopes na disciplina Estágio Básico I, composta por atividade prática voltada para o exercício de competências e habilidades psicológicas que favoreçam a compreensão e posterior atuação em realidades específicas. O Estágio foi realizado na Unidade de Referência da Saúde do Idoso – URSI Paula Souza (SP) e os nomes das pessoas são fictícios para preservar seus participantes. E-mail: [email protected]

Foto destaque de Şahin Sezer Dinçer/Pexels


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