Projeto ‘Café com Memória’, a concretização de uma ideia

O Café com Memória surgiu para proporcionar encontros agradáveis, fora dos espaços assistenciais e terapêuticos tradicionais, entre idosos com Doença de Alzheimer, familiares, cuidadores e interessados em geral, para troca de experiências, atividades lúdicas e estimulantes.


Como um projeto surge? Quando ele sai do papel e se concretiza? E como sobrevive? Na cidade de São Paulo está crescendo o número de pessoas que estão empreendendo no mercado do envelhecimento. São familiares que sensibilizados por uma situação concreta na família, sistematizam suas práticas domésticas, transformando-as em práticas profissionais. Ou são profissionais que, atentos, conseguem perceber demandas e de forma alternativa criam projetos/empresas que preenchem lacunas existentes.

É o caso do Café com Memória. Já falamos aqui de um evento promovido por ele, mas agora queremos apresentá-lo como um negócio social que surgiu da inquietação de duas profissionais da saúde (Mariana e Iabel) em relação ao acompanhamento dos idosos após a alta do serviço público que atendiam. A proposta do Café com Memória teve início justamente nesse serviço, contemplando os idosos da instituição, mas elas resolveram ampliar há cerca de três anos, para idosos com problemas de memória e/ ou demências. No final de 2018, elas decidiram colocar em prática a ideia e já estão no terceiro encontro do Café com Memória, sempre circulando com diferentes cafés da cidade. 

Para conhecermos melhor o que vem a ser o Café com Memória, e até inspirar muita gente a colocar seu projeto em ação, entrevistamos a terapeuta ocupacional Mariana Pietra e a psicóloga Isabel Alonso Leite, as idealizadoras do projeto.

Como, por que e quando surgiu o Café com Memória? Qual é seu histórico? 

O Café com Memória surgiu a partir de uma conversa em meio ao congresso de Acompanhamento Terapêutico no Uruguai em 2014. Isabel teve acesso ao relato de experiência do psicólogo Robert Perez junto à sua equipe de alunos e pós-graduandos, os quais promoviam o projeto “Café Alzheimer”. A proposta era criar um espaço diferenciado e acolhedor para idosos com Doença de Alzheimer e seus familiares/ acompanhantes. Nestes encontros, compostos também por uma pausa para o café e a socialização, os participantes trocariam informações sobre os cuidados, desafios do dia-a-dia etc, com o apoio de profissionais envolvidos no projeto. Em 2015, em São Paulo, adaptamos o projeto de acordo com as características e demandas do público idoso e seus acompanhantes que atendíamos no serviço de saúde. No ano seguinte, em 2016, Isabel teve a oportunidade de fazer um estágio no Hospital Universitário de Coimbra e aproveitar os dias restantes da viagem para circular pelos Café Memória de Portugal, mais precisamente dois encontros que ocorriam em Lisboa. A experiência foi incrível, pois em Portugal, o projeto estava cada vez mais consolidado por diversas regiões do país com o apoio e patrocínio do governo e do Hospital da Santa Casa de Lisboa.  

Em que consiste o Café com Memória? Onde atua? 

O Café com Memória é uma iniciativa que beneficia idosos com perda de memória ou demências e consiste em encontros mensais em cafés de São Paulo como um incentivo a socialização desses idosos, acompanhantes e comunidade em geral. Os locais de encontro são definidos mensalmente conforme surgem convites e parcerias em cafés interessados em ampliar e diversificar o público frequentador. Os idosos e seus acompanhantes são acolhidos fora dos espaços assistenciais e terapêuticos tradicionais, evitando que o foco seja somente a doença. Dessa forma, o idoso sai do lugar de paciente e retoma seu lugar de cidadão participativo, que vai a um café, conversar e interagir. A nossa ideia é proporcionar um encontro agradável, com troca de experiências, sempre com atividades lúdicas e estimulantes, contando com a participação de familiares, cuidadores e interessados em geral. Como consequência, há a possibilidade de quebra de estigma em relação aos idosos com perda de memória, e redução do isolamento social, tanto dos idosos quanto de seus acompanhantes. 

Qual é o conceito de envelhecimento que fundamenta o Café com Memória? 

O Café com Memória é fundamentado pelo conceito do envelhecimento ativo que tem um olhar sobre a autonomia, a ampliação da voz do idoso e de seu protagonismo de acordo com as suas capacidades. Compreendemos também que o conceito do envelhecimento não está vinculado necessariamente só a faixa etária, mas a autopercepção da entrada na velhice de acordo com as experiências prévias. Sabemos que a entrada na velhice pode gerar uma crise existencial para algumas pessoas, o que os recolhem para seus lares, diminuindo as trocas sociais e aumentando o risco de sintomas ansiosos, depressivos, sentimentos de solidão etc, ou seja, um intenso sofrimento de diferentes ordens. De certa forma, nosso Café primeiramente convoca um público ainda mais estigmatizado pela doença sem possibilidade de reversão do quadro, mas com chances de melhora da qualidade de vida e ampliação das trocas sociais. Entretanto, até o último encontro do Café com Memória, temos notado o interesse espontâneo de idosos que, apesar de não apresentarem problemas de memória, querem se aproximar da iniciativa sendo voluntários ou mesmo querendo aproveitar um espaço de encontro para tomar um café e participar de uma atividade. Também seria um recurso para se prepararem para futuras etapas de vida e para o próprio processo de envelhecimento.

Em que o Café com Memória se diferencia de outras iniciativas semelhantes existentes no mundo, e especialmente no país? 

O Café com Memória envolve tanto a participação do idoso e de seu acompanhante quanto também da comunidade em geral. A proposta se diferencia uma vez que proporciona a horizontalização das relações onde não há o foco na doença do idoso e sim na possibilidade de troca entre todos os participantes. Por essa razão os encontros acontecem em locais públicos onde há circulação da população em geral, diferente de ambientes terapêuticos onde os encontros são mais protegidos. Sabemos que a comunidade ainda não está preparada para compreender e acolher a forma de existir dos idosos com problemas de memória. Portanto, nosso Café com Memória propõe uma intervenção no social e nos territórios, uma vez que dá voz aos idosos geralmente restritos a suas casas e suas rotinas de cuidado ao mesmo tempo que promove uma reflexão da comunidade sobre as possibilidades das trocas que ainda existem com estes idosos. 

Como vocês veem o mercado do envelhecimento hoje no Brasil? Especialmente aquele focado nas demências 

Desde o Estatuto do Idoso (2003), o mercado do envelhecimento vem refletindo sobre o idoso enquanto sujeito de direitos. Percebe-se um aumento de projetos e ações voltadas ao protagonismo do idoso o qual passa a ganhar voz e autonomia em suas ações. Isto o faz se distanciar da imagem de um sujeito que vive somente perdas e doenças, não sendo mais produtivo para a sociedade. Especialmente sobre as demências, ainda percebemos as famílias e a comunidade pouco amparadas, preparadas e compreensivas na relação com o idoso portador de demência. Porém, já temos observado algumas ações envolvendo os idosos com demência principalmente focado na questão da socialização em espaços públicos, como visitas a museus, exposições, estádios de futebol etc. Nossa terceira edição do Café com Memória ocorreu a partir de um convite de um café sofisticado em SP o qual tem como premissa abrir espaço para as chamadas “minorias” buscando diversificar o público frequentador. Ficamos muito satisfeitas com o convite, pois sentimos que há grupos e pessoas que podem dialogar com nossa proposta. 

Qual foi a maior dificuldade encontrada quando iniciaram? E hoje? 

Até o momento, percebemos que a participação do idoso com demência no Café com Memória fica comprometida diante principalmente da visão dos familiares e profissionais sobre a possibilidade de trocas dos idosos com a comunidade. Por diversas vezes ouvimos “nem vou fazer o convite porque ele (a) não sai de casa”, “tenho certeza que ele (a) não vai”, “ah ele (a) não gosta de nada”. Porém, para aqueles familiares que apesar desse pensamento, se arriscaram e levaram os idosos, tiveram uma grande surpresa: puderam presenciar que apesar da doença ainda há inúmeras capacidades preservadas que podem ser exploradas e estimuladas. Muitos familiares no início resistentes, já aguardam os próximos encontros. 

Quais são os projetos para o futuro? 

Para o futuro desejamos ampliar os locais de circulação do Café com Memória aumentando o alcance e o acesso desses idosos à nossa proposta. As parcerias com projetos que também tenham essas iniciativas para os idosos com demências também estão em nossos planos. Temos recebido convites para falar sobre o projeto assim como promover reflexões sobre o envelhecimento e seus desafios, em especial no contexto das demências. Se conseguirmos aos poucos mobilizar a família e comunidade, já ficamos muito satisfeitas de que nossa missão tem sido cumprida. 

Como as pessoas podem entrar em contato com vocês?

Pode ser via o e-mail: cafecommemoriasp@gmail.com ou pelo whatsapp (11) 98302-1450 (Mariana). Ou ainda pelo nosso site: www.cafecommemoria.com.br e instagram: @cafecommemoria.


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Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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