Os significados dados ao lugar em que na velhice chamamos de lar

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O apego demasiado ao lugar de moradia e aos seus objetos demonstra claramente o quanto alguns indivíduos temem o novo, ficando desorientados e infelizes especialmente na velhice.


Há pessoas que mudam de residência com muita facilidade, enquanto para outras a mudança representa a ruptura de um vínculo que traz sofrimento e resistência em viver novas experiências. O apego demasiado ao lugar de moradia e aos seus objetos demonstra claramente o quanto alguns indivíduos temem o novo, ficando desorientados e infelizes especialmente na velhice. Isso pode acontecer com aqueles que passam a necessitar auxílio até no cuidado pessoal, mudando para moradias institucionais ou para junto de familiares, o que reduz seu território pessoal.

Essa redução por si só representa perda, principalmente material, mas também de privacidade, independência e muito da individualidade, que pode ser mantida se objetos importantes da sua história estiverem sob seu controle e acesso.

E o que falar de profissionais que viajam por muito tempo em função de compromissos assumidos e os tornam passageiros até em suas próprias casas? Além do distanciamento temporário dos seus lugares de referência, há a ausência de familiares e amigos, fragilizando as relações e dificultando os vínculos com o lugar que representa sua própria moradia.

No filme “A Última Nota” (EUA, 2019), um pianista recém-viúvo tem dificuldade em retornar aos palcos e a amizade com uma jornalista que o segue e admira torna-se uma relação apaixonada pelo talento e pela capacidade de fortalecê-lo pelo apoio constante.

O ator Patrick Stewart representa um personagem idoso solitário, introspectivo e que tem atitudes que o mantém isolado na maior parte do tempo.

… prioriza olhares distantes, um trabalho físico que emana o incômodo por estar na pele de uma figura inspiradora para muitos e a desorientação quanto a como aproveitar a vida dando mais atenção a si mesmo. 

O que chama a atenção no filme é que, a partir do apoio da jornalista, admiradora do seu trabalho e companheira nos momentos de redenção, ele reencontra o prazer de conviver com alguns poucos amigos e compartilha uma conclusão relacionada à velhice.

Afirma que é nesta fase que são percebidos pequenos detalhes que passam a ser importantes, pois a história de cada um, com altos e baixos, alegrias e tristezas, oferece experiências que ensinam sobre o valor das coisas, incluindo “uma gaveta aberta” e outros fatos corriqueiros que são vivenciados em casa. 

A pandemia pela Covid-19 tem provocado uma observação mais atenta sobre o lugar a que chamamos de lar, tornando importantes pequenos detalhes e enfatizando a importância de cuidarmos do território que é abrigo do corpo, mas também da alma, onde as histórias de vida são escritas na intimidade dos espaços de vida.

Os significados que podem ser atribuídos ao lugar em que na velhice chamamos de lar dependem da forma como se escrevem essas histórias, sejam compartilhados ou em reclusão, mas que definem a importância de ser modular, flexível e capaz de captar os pequenos detalhes que ficarão na memória e no coração


Narrativas
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Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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