Não há “receita pronta” de moradia para pessoas idosas

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Somos todos únicos, com cores próprias, por isso não há “receita pronta” em alternativas de moradia para pessoas idosas. Se deficiências potencializam dificuldades, cabe aos profissionais pensar em soluções que atendam o mais variado espectro de usuários.

Maria Luisa Trindade Bestetti (*)


Quando são abordadas questões sobre esse tema, há quem imediatamente afirme que idosos são frágeis, caem com facilidade, não enxergam ou ouvem bem e precisam de cuidados diários. Enfim, descreve uma imagem muito negativa da velhice, desconsiderando as diferenças que todas as pessoas apresentam, em qualquer fase da vida. É como se fossemos indivíduos com desejos e necessidades únicos até fazer 60 anos e, depois, passamos a ser todos iguais.

Tuca Munhoz, ativista de causas relacionadas aos limites impostos pelo meio sociocultural a pessoas com deficiência, afirma que a acessibilidade é fundamental para garantir alguns direitos, mas não basta o cumprimento da norma, onde apenas um padrão de referência aponta recomendações. Faltam posturas mais empáticas dos planejadores, considerando o perfil do usuário e composições que o acolham. Como gestor público tem impulsionado transformações urbanas que aumentam as condições de segurança nas vias públicas da cidade de São Paulo, mesmo reconhecendo que os sistemas de embarque e desembarque no transporte público não garantam essa situação.

E o que dizer sobre as transformações que ocorrem ao longo da vida? Durante todo o ciclo, as pessoas recebem influências do meio em que vivem, sejam culturais ou impostas pela necessidade. O declínio de funcionalidade vai depender das condições em que haja prevenção, especialmente adotando bons hábitos relacionados à alimentação, a atividades físicas e aos hábitos diários de higiene. Assim, sexagenários podem desenvolver limitações que octogenários não têm, demonstrando que velhice não significa somente perdas e, a depender da dedicação em manter a mente aberta para aprender, desenvolver habilidades e exercitar a fé, assim como manter relacionamentos sociais positivos, a longevidade poderá ser proveitosa e feliz.

Não bastam recomendações básicas tais como retirar tapetes e colocar barras de apoio em banheiros. Há profissionais que se apresentam como especialistas em projetos para idosos, utilizando até termos inventados e que confundem as pessoas que necessitam de orientação efetivamente pautada em conhecimento científico. Denominar os projetos arquitetônicos como produtos de “geroarquitetura” é uma jogada de mercado, correndo o risco de pagar por um serviço ineficiente. Assim como não se consultam médicos sem pesquisar seus atributos e experiência profissional, é preciso consultar arquitetos que estudem o tema com profundidade e possam apresentar soluções adequadas.

Somos todos únicos, com cores próprias, por isso não há “receita pronta” em alternativas de moradia para pessoas idosas. Se deficiências potencializam dificuldades, cabe aos profissionais responsáveis pensar em soluções arquitetônicas e urbanísticas que atendam o mais variado espectro de usuários, seja qual for sua idade, gênero ou forma física. É preciso considerar que bons projetos atendem todos para garantir conforto e segurança, garantindo inclusão social e senso de pertencimento em comunidade.

(*) Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta e pesquisa sobre as alternativas de moradia para idosos no Brasil, especialmente sobre a habitação, mas, também, o bairro e a cidade que a envolvem. É professora doutora no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo desde 2009, com disciplinas de Gestão de Projetos e Empreendedorismo na graduação e Habitação e Cidade para o Envelhecimento Digno no mestrado. Texto reproduzido de seu blog “Ser Modular – Harmonizar todas as etapas da vida, atendendo desejos e necessidades de moradia na velhice”.

Foto destaque de MART PRODUCTION no Pexels


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