O impacto da pandemia da covid-19 na dinâmica demográfica brasileira

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A pandemia vai afetar a esperança de vida no curto prazo, mas não vai afetar a tendência geral de envelhecimento populacional no longo prazo.


No dia 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou que a doença da covid-19 tinha se tornado uma pandemia. Naquele momento os registros mundiais indicavam 150 mil pessoas infectadas e 4,6 mil vidas perdidas para o SARS-CoV-2. Um ano depois os montantes globais estão na casa de 120 milhões de casos e 2,6 milhões de mortes. No Brasil já são mais de 11 milhões de casos e mais de 270 mil mortes. Nos primeiros 10 dias de março o Brasil teve mais de uma morte por minuto e se transformou no epicentro da pandemia global.

Assim, a propagação do novo coronavírus já está impactando as estatísticas vitais do Brasil, pois os dados preliminares indicam um aumento da mortalidade e uma redução da natalidade. O gráfico abaixo, com informações do Portal da Transparência (ainda sujeitos a alguma modificação em função de registros tardios que ainda não foram contabilizados), mostra que o número de nascimentos caiu de 2,77 milhões de bebês em 2019 para 2,6 milhões em 2020 e o número de óbitos subiu de 1,26 milhão para 1,45 milhão no mesmo período.

Menor número de nascimentos e maior número de mortes significa menor crescimento vegetativo da população, que, pelos dados do gráfico, foi de 1,5 milhões em 2019 e caiu para 1,2 milhões em 2020 (sendo que o saldo da migração internacional é bem pequeno). Ou seja, a população brasileira continua crescendo, só que em ritmo um pouco mais lento.

Os idosos são as principais vítimas fatais da pandemia. O gráfico abaixo, também do Portal da Transparência, mostra que a maior parte das mortes pela covid-19 no Brasil está concentrada nas idades acima de 60 anos, sendo que os homens são maioria entre as vítimas fatais em todas as faixas etárias, com exceção de 90 anos e mais.

No acumulado das mais de 260 mil vidas perdidas do país, cerca de 76% são de idosos com 60 anos e mais de idade. No recorte de gênero, os homens representam 57% do total de mortes e as mulheres 43%.  Portanto, as principais vítimas da covid-19 são os homens idosos.

Em consequência, o Brasil deve apresentar, a primeira redução da esperança de vida ao nascer em mais de um século. O valor exato será divulgado assim que saírem os dados definitivos de 2020. Ambos os sexos vão pagar um alto preço, mas o diferencial de gênero, em termos de anos esperados de vida, que já era elevado, irá aumentar ainda mais com a sobremortalidade masculina.

O gráfico abaixo, do site Our World in Data, mostra a esperança de vida ao nascer para o mundo, o Brasil, Japão, Costa Rica e Índia. Nota-se que, tanto no mundo, quanto em todos os países a esperança de vida mais do que dobrou no período entre 1900 e 2019. O Japão tinha uma esperança de vida 38,6 anos em 1900, apresentou uma queda temporária em decorrência da Segunda Guerra, mas teve um grande aumento nas décadas seguintes e chegou a 85,6 anos em 2019 (a maior esperança de vida do mundo, junto com Hong Kong).

A Costa Rica e o mundo tinham uma esperança de vida de 32 anos em 1900 e deram um salto até 2019, com o mundo chegando a 72,6 anos e a Costa Rica a 80,3 anos (a maior esperança de vida da América Latina). A Índia tinha a menor esperança de vida entre os países selecionados, com apenas 23,5 anos em 1900, mas também apresentou grande avanço para 69,7 em 2019 (um aumento de quase 3 vezes). O Brasil passou de 29 anos em 1900 para 75,9 anos em 2019, ultrapassando a esperança de vida média mundial, embora ficando abaixo dos avanços da Costa Rica. No século XX, o Brasil apresentou ganhos na esperança de vida de 0,4 ao ano e no século XXI ganhos de 0,3 ao ano.

Cabe destacar, contudo, que os avanços na esperança de vida serão revertidos em boa parte do mundo e deverão apresentar retrocesso gerais em 2020, sendo que o Brasil deve ter uma das maiores quedas nos anos médios de vida, devido à alta proporção de mortes ocorridas no ano passado no país. Ainda não existem dados definitivos, mas a queda pode ficar em torno de 1 ano ou 1,5 ano em 2020. Ou seja, com a pandemia, o Brasil pode voltar aos valores de 3 anos a 5 anos atrás, pois se perdeu os ganhos constantes que vinham acontecendo na esperança de vida. O mesmo vale para 2021 que, igualmente, tem registrado grande número de vidas perdidas para a pandemia. Caindo a esperança de vida deve cair também o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o Brasil terá dificuldade de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), aprovados pela ONU em 2015.

A esperança de vida é uma medida de período aplicada a uma coorte hipotética. O importante é acompanhar as mudanças nas condições iniciais. Desta forma, os valores poderão voltar ao patamar de 2019 e voltar a subir novamente quando o país controlar a pandemia e evitar o excesso de mortalidade que já marcou o ano de 2020 e deverá marcar o ano de 2021. Algo semelhante aconteceu após o tsunami de Fukushima, em 2011. Naquele ano, a expectativa de vida caiu um pouquinho, cerca de 0,3 ano. No ano seguinte, voltou ao patamar anterior. 

Por conseguinte, o aumento da mortalidade e a diminuição da natalidade mostrada no primeiro gráfico pode ser uma tendência conjuntural, sendo que as tendências anteriores voltem a prevalecer. Mas é preciso deixar claro que as tendências demográficas estruturais são de redução do ritmo de crescimento populacional e de aumento do envelhecimento populacional.

O gráfico abaixo, com base nas projeções populacionais do IBGE (revisão 2018), mostra que a população brasileira era de 195 milhões de habitantes em 2010, deve crescer até 233 milhões em 2047 e decrescer até 228 milhões em 2060. Mas a dinâmica dos grupos etários é diferenciada. A população de 0-14 anos já está diminuindo, pois era de 48,1 milhões em 2010, caiu para 44 milhões em 2020 e deve ficar em 33,6 milhões em 2060. A população em idade ativa (15-59 anos) era de 126 milhões em 2010, deve crescer até 140,4 milhões em 2034 e cair para 121,2 milhões em 2060. Ao mesmo tempo, a população de 60 anos e mais deve crescer continuamente, passando de 21 milhões em 2010, para 30,2 milhões em 2020, chegando a 43 milhões em 2031 e saltando para 73,5 milhões de idosos em 2060.

No ano de 2031 o número absoluto de idosos irá ultrapassar o número absoluto de jovens de 0 a 14 anos. Isto quer dizer que o Índice de Envelhecimento (IE) será maior do que 100, indicando que o Brasil será considerado um país idoso. E o IE vai continuar aumentando ao longo do século XXI, com aumento contínuo da proporção de idosos na população.

O gráfico abaixo, também com base nas projeções populacionais do IBGE (revisão 2018), mostra os valores relativos. A população em idade ativa (15-59 anos) representava 64,6% da população total em 2010, subiu até 65,4% em 2017 e vai cair até 53,1% em 2060. A população jovem (0-14 anos) era de 24,7% em 2010, de 20,9% em 2020 e deve cair para 14,7% em 2060. Já a população idosa (60 anos e mais) que era de 10,7% em 2010, subiu para 14,3% em 2020 e deve alcançar 32,2% da população total em 2060. Nesta data, haverá 2 vezes mais idosos do que jovens no Brasil daqui 40 anos.

Estas tendências demográficas gerais não serão grandemente modificadas pela pandemia da covid-19. Ou seja, o Brasil vai continuar reduzindo o ritmo de crescimento vegetativo, com redução absoluta e relativa dos jovens e com aumento consistente da população idosa. Mas é claro que a pandemia terá um impacto imediato de aumentar o número de óbitos e reduzir o número de nascimentos em 2020 e 2021. O impacto econômico e social também é muito grande.

Neste sentido, os montantes indicados pelas projeções do IBGE devem ser antecipados em alguns anos. Por exemplo, o crescimento anual da população previsto em 1,05 milhão de pessoas para 2030 pode ser atingido 3 ou 5 anos antes. O pico da população que estava previsto para 2047 também pode ser atingido 3 ou 5 anos antes. Ou seja, as projeções populacionais do IBGE precisarão ser refeitas e atualizadas em 2022.

Os novos números, com certeza, não serão os mesmos. Mas, indubitavelmente, não haverá grandes mudanças nas tendências estruturais, pois, pelo menos até 2040, a população brasileira vai continuar crescendo com redução da população jovem e aumento da população idosa.



José Eustáquio Diniz Alves

Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE. Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: [email protected] Link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382E-mail: [email protected]

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