A pandemia da covid-19 e o envelhecimento populacional no Brasil

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É incorreto considerar que populações mais envelhecidas são automaticamente mais vulneráveis que as populações com estruturas etárias rejuvenescidas. O mais importante a ser considerado neste momento é o respeito aos direitos humanos de todas as pessoas (independentemente da idade) e o respeito fundamental aos princípios da equidade e da solidariedade intergeracional.


A pandemia da covid-19 está impactando o mundo de maneira dramática e está provocando uma crise, guardadas as devidas proporções, equivalente àquela da Gripe Espanhola de 1818 e do crash da Bolsa de Nova Iorque de 1929, que gerou a grande depressão dos anos 1930. No dia 20 de fevereiro, o mundo tinha 77 mil pessoas infectadas e 2.250 mortes, enquanto o Brasil não tinha nenhum caso e nenhuma morte registrada. No dia 02 de abril o número de casos ultrapassou a cifra de 1 milhão e o número de fatalidades chegou a 53 mil óbitos. No dia 15 de abril já eram mais 2 milhões de casos e 139 mil mortes. Antes do final de abril o número de casos deve ultrapassar 3 milhões e o número de mortes deve superar 250 mil mortes.

Portanto, a ameaça é real para toda a população mundial. Mas é especialmente séria para a população idosa que é mais vulnerável, uma vez que o novo coronavírus é um patógeno que aumenta muito o risco de morte para quem tem 60 anos ou mais de idade. Assim, os idosos continuarão correndo o maior risco de ficar gravemente doente e morrer.

Este diferencial etário na morbidade e mortalidade pela covid-19 levou muitos analistas a considerar que as Unidades da Federação (UF) que possuem uma estrutura etária mais rejuvenescida teriam menor risco de contagio e morte, enquanto as maiores vítimas estariam localizadas naquelas UFs com maior proporção de idosos. Desta forma, a demografia forneceria indicadores de vulnerabilidade e risco.

Contudo, a realidade é mais complexa e a demografia não é destino. Sem dúvida, o envelhecimento populacional é um fator importante a ser considerado. Mas os efeitos da estrutura etária não ocorrem de maneira determinística. Uma análise regional do avanço da pandemia de covid-19 no Brasil mostra alguns resultados que podem parecer contraintuitivo.

A tabela abaixo apresenta a população brasileira, com recorte regional, mostrando a relação entre o Índice de Envelhecimento (IE = pessoas de 60 anos e mais sobre pessoas de 0 a 14 anos, em percentagem) e o coeficiente de incidência de óbitos (por milhão de habitantes). Chama a atenção que a região Norte, com 8,8% da população nacional e o índice de envelhecimento (IE) de 33,5 idosos em relação a 100 crianças e jovens, apresentou 9% dos óbitos da covid-19 e um coeficiente de incidência dos óbitos de 10,3 por milhão, no dia 18 de abril de 2020. Enquanto isto, a região Sul, com 14,3% da população total, e IE mais envelhecido de 86,8, apresentou 4,4% dos óbitos nacionais e um coeficiente de incidência de 3,1 por milhão.

Ou seja, a região Sul – a mais envelhecida do país – tem apresentado menor proporção de óbitos pela covid-19 e menor coeficiente de incidência dos óbitos, indicando que a relação entre o envelhecimento populacional e a vulnerabilidade à pandemia não é simples e direta.

Evidentemente, a região Sudeste que tem 42% da população brasileira concentra 62% dos óbitos e apresentou um coeficiente de incidência de óbitos de 14,9 por milhão (a maior do país). Contudo, a região Norte – a mais rejuvenescida – também tem um coeficiente de incidência de óbitos superior ao coeficiente da região Centro-Oeste que é mais envelhecida.

Os casos do Amapá e Rio Grande do Sul são exemplares. Segundo as projeções do IBGE, a população amapaense, em 2020, está estimada em 861,8 mil habitantes, sendo 59,9 mil pessoas de 60 anos e mais (representando 7% do total). O Índice de Envelhecimento (IE) está em 24,8 idosos para cada 100 jovens de 0-14 anos. Já a população do Rio Grande do Sul, de 11,4 milhões de habitantes, possuía 2,14 milhões de idosos (representando 18,2% do total) e um IE de 103,4 idosos para cada 100 jovens de 0-14 anos.

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Mas, a despeito das estruturas etárias tão diferentes, o “jovem” Amapá apresentou um coeficiente de incidência de 428 pessoas infectadas (por milhão), enquanto o envelhecido Rio Grande do Sul apresentou coeficiente de 69 pessoas infectadas (por milhão), conforme dados do Ministério da Saúde. Isto mostra que mesmo populações pouco envelhecidas podem sofrer muito com o novo coronavírus.

Neste sentido, é incorreto considerar que populações mais envelhecidas são automaticamente mais vulneráveis que as populações com estruturas etárias rejuvenescidas. Diversas variáveis intervenientes contam nesta equação. Por conseguinte, o mais importante a ser considerado neste momento em que existe uma ameaça global à humanidade é o respeito aos direitos humanos de todas as pessoas (independentemente da idade) e o respeito fundamental aos princípios da equidade e da solidariedade intergeracional.


José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves

Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE. Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br. Link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

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