Nós, velhos e velhas, sempre teremos Desejos!

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A escrita deste texto foi inspirada quando fui interpelada por uma jovem, dentro de uma farmácia, a razão de eu, velha, estar na rua, lembrando-me inconscientemente que lugar de velho é em casa, que velho não tem que ter desejos, o que foi acentuado pelo isolamento social por causa do coronavírus.

Suely Tonarque (*)


Quem não se lembra do doce de abóbora com coco, que a avó fazia quando a visitava?, doce que não podia faltar na nossa infância e juventude. Quem não se lembra do jeito de descascar a laranja lima que seu carinhoso avó  avolumava ao seu lado para você chupar?; a lata de leite condensado que uma tia lhe dava para que você sugasse (tinha um furo na tampa), enquanto você curtia o resguardo do sarampo? O sarampo você não lembra mais, mas o leite condensado oferecido por aquela tia sim, não?

Que saudades desses velhos que cobriam de histórias e de canções o nosso crescimento! Ficávamos atentos às suas “histórias de vida”, assim como as músicas que ouvíamos de olhos bem abertos e com os ouvidos afinados para não perder nenhuma palavra da canção.

As brincadeiras inventadas e a forma de brincar tinha um jeito especial…  Naquela época ainda não existia a super lotação e oferta de tantos brinquedos. A era digital ainda estava bem longe de acontecer.

À medida que envelhecemos, começamos a observar que o modo de vida que levamos pode desaparecer caso não façamos o seu registro; no exemplo do doce de abóbora foi registrado no caderno de receitas, naquela época, escrito a mão. A receita e o modo de fazer foram sendo trilhados de bisavó, avó, mãe até à filha… de geração a geração.

Acredito em nossos ancestrais como guias que norteiam o futuro das gerações mais novas. De nossos inconscientes respingam emoções para nutrir nossas almas.

Que dizer hoje, em meados do surto da quarentema do Covid-19 (vírus altamente contagioso), de privilegiar nos hospitais cuidados com os moços em detrimento dos idosos? Atualmente o homem de mais de sessenta anos é considerado “velho”, uma pessoa de risco de ser contagiado e vir a óbito. As escolhas a serem feitas nos leitos dos hospitais, entre um velho e um jovem: o jovem será salvo, e a justificativa é que ele tem muito a contribuir. Já o velho, em uma visão econômica, “não consome, nem produz mais”. E nessa perspectiva, as escolhas vão sendo processadas, no caso de serem portadores do coronavírus.

Neste momento atual o “Fique em casa”… “Use máscara”… “Cuide de si”… Cuide dos velhos… é atroz e amedrontador. Em especial uma ênfase muito grande para que tenhamos muita atenção para com os velhos!  

A Covid-19 apresenta para os velhos o principal objeto de ataque do vírus, exigindo isolamento e distância social; enquanto os jovens, adultos (menos de 60 anos), retomam as suas atividades e as escolas voltam a serem abertas em breve.

Atualmente com o desenvolvimento das pesquisas geriátricas, é certo que o ser humano terá maior longevidade. A alimentação, os exercícios físicos, o desenvolvimento de uma espiritualidade, o consumo orientado de vitaminas, a busca de sonhos e projetos de vida ainda a realizar, prometem muito mais tempo de vida a todos nós.

Daí porque nesse tempo de pandemia mundial é importante que lutemos contra os preconceitos aos velhos. A discriminação só favorece o crescimento de um medo de sair de casa, principalmente daqueles que estão vivendo sozinhos em suas casas, necessitando sair para suprir suas necessidades de alimentos, remédios, dinheiro, cuidados médicos, etc…

Nesta quarentena estamos e estaremos refletindo os nossos valores e prioridades, isto exigirá de nós profundas transformações. Já os desejos, ah, estes continuam.

Desejos

Uma senhora de 70 anos pode ter desejo de aprender, trocar ideias, viver e colaborar com uma sociedade cuja ética das relações é de respeito, favorecendo a realização dos sonhos que muitas vezes não dão conta de serem colocados em prática no seu percurso de vida, como relatam duas pessoas.

Uma senhora que sempre me visita diz: “Tenho vários esboços dos meus sonhos (são diversos), a minha angústia é decidir por onde começar”. Uma outra relata: “O meu projeto de vida teve início agora, com minha aposentadoria e com maior liberdade para fazer minhas escolhas”.

Recentemente, tive que sair para comprar um medicamento e na farmácia fui abordada por uma jovem que interpelou: “Como você não está em casa?!”. Fiquei boquiaberta… e ela então me tranquilizou: “Sou médica e aqui está o meu cartão com celular, e se tiver com dificuldades me chame!”. A solidariedade começa a se multiplicar e quem sabe esse mundo – utopia pós quarentena tenha a colaboração como prioridade em nossas vidas.

Mas também “essa solidariedade” quanto a se preocupar por eu, velha, estar na farmácia, isto é, fora de casa, pode ser interpretada como o agravamento de um lugar em que a sociedade insiste em nos colocar: lugar de velho é em casa. Afinal, com a pandemia o discurso da vez é: “os velhos não podem sair de casa”.

Mas mesmo ficando em casa, o velho tem discernimento para fazer suas escolhas. O que pode lhe faltar é informação (não se tem paciência de explicar-lhe). Falta um olhar amoroso do outro, que exclua o medo, fruto da pandemia.

Neste momento difícil para todos, independente de idade, classe social, raça, etc… é preciso ficar em casa, sim, mas não catalogar por causa do coronavírus que lugar de velho é em casa. Mesmo quando está doente, ele continua tendo desejos. Desejo de tomar um sorvete, um vinho da sua terra de origem, visitar um amigo, materializar um projeto antigo…

Nós, velhos e velhas, sempre teremos Desejos!!!

No dia 18 de abril o evento mundial One world: Together at home (Um Mundo: Juntos em casa com astros famosos) transmitido online, reuniu todos nós em casa, para orarmos por essa vida que neste momento se apresenta tão frágil, mas que é vida!

(*) Suely Tonarque é psicóloga, mestre em Gerontologia Social pela PUCSP, autora do livro “Vestir com os Desafios do Envelhecimento: Modos de vestir e moda: incursões históricas e conjunturais” (Portal Edições, 2019). Junto com sua irmã criou a marca dudabyduda, cheia de estilo, para pessoas mais maduras cheias de desejos de vida.


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