Diversidade e a era do profissional descartável

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Assim como ocorre com os produtos de consumo, nosso tempo de “vida útil” profissional é cada vez mais reduzido, o que trará sérias consequências não só para as empresas, mas para a economia e a sociedade.

Silvio Tanabe (*)


Obsolescência programada, ou dinâmica, é um termo utilizado para designar uma prática industrial que consiste na redução deliberada da vida útil de um produto para incentivar a compra de um novo. Celulares que ficam lentos e com bateria fraca após pouco mais de um ano de uso são os exemplos mais recentes, mas o conceito teve início no século passado, com a aceleração da industrialização e do crescimento do mercado de bens de consumo. Em 1911, as lâmpadas elétricas tinham vida útil de 2,5 mil horas. Depois da formação de um cartel reunindo os principais fabricantes dos EUA e Europa, a vida útil passou a se limitar a mil horas.

Além da diminuição do tempo de vida, a indústria passou a incentivar a substituição dos produtos “ultrapassados” por versões mais modernas, lançadas com periodicidade cada vez maior e com grande apelo de publicidade e propaganda. Comprar o último lançamento virou símbolo de status e obsessão de muitos consumidores. Nos últimos anos, a obsolescência programada tem vivido o seu auge. Na indústria eletrônica, o lançamento anual de uma nova versão do celular iPhone da Apple provocava comoção mundial e corrida para as lojas com filas de centenas de metros. Na moda, a rede espanhola Zara criou o conceito de fast fashion, com coleções renovadas a cada semana.

Nas últimas décadas, um processo semelhante à obsolescência programada vem ocorrendo no mercado de trabalho. O tempo de “vida útil” dos trabalhadores, principalmente os profissionais do conhecimento, vem sendo reduzido ao longo dos anos. Se até o início da década de 90 era possível trabalhar por 30 a 35 anos no mercado formal, hoje essa média fica em torno de 20 a 25 anos.

Mesmo no auge de sua capacidade e produtividade aos 50 anos, o profissional passa a ser visto como obsoleto por ser “lento” em reagir às mudanças, ter dificuldade em se adaptar às novas tecnologias, ser pouco criativo e ter “custo de manutenção” cara. Ao invés de fazer em um upgrade na carreira do funcionário sênior, mais vale investir em “novos modelos” mais jovens.

Esse processo ameaça se acelerar ainda mais com a crescente automação de atividades e adoção da inteligência artificial (IA). Segundo pesquisa realizada pela consultoria McKinsey, 57% das empresas no mundo planejam ou já utilizam alguma tecnologia de automação que vai substituir direta ou indiretamente a mão-de-obra humana. As opiniões em relação ao impacto nos empregos ainda divergem, mas apontam que o saldo será negativo. Estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP) e Microsoft em seis setores da economia (agricultura e pecuária, óleo e gás, mineração e extração, transporte, comércio e setor público) revelou que automação e IA deverão provocar aumento de quatro pontos percentuais no índice de desemprego no Brasil.

Ainda não é possível analisar com mais detalhes, mas a tecnologia trará impactos diferentes em relação à idade e os seniores deverão ser os mais prejudicados.

Os resultados desastrosos da obsolescência dinâmica para a economia e meio ambiente também tem paralelo no mundo profissional. Restringir o mercado de trabalho em uma estreita faixa etária e discriminar profissionais a partir dos 40 anos, tratando-os como descartáveis, ameaça trazer graves consequências sociais e econômicas que já podem ser identificadas.

Envelhecimento populacional

Como seu nome já sugere, Índice de Envelhecimento (IE) é um indicador utilizado para medir o grau de envelhecimento de uma população. Segundo projeções mais recentes do IBGE, até 2031 pela primeira vez o número de pessoas com mais de 60 anos no país irá ultrapassar o número de jovens até 14 anos (103 idosos para cada 100 jovens). Em 2055, estima-se que essa proporção aumente em 100% (202 idosos para cada 100 jovens). Em 2030 o país será o 5º mais velho do mundo e em 2040, 57% da população em idade economicamente ativa terá mais de 45 anos.

Em termos práticos, esses números significam que a população total e a população em idade ativa envelhecerá em um ritmo mais intenso no Brasil. Se o mercado formal continuar com a política de discriminação etária, a força de trabalho madura na faixa dos 50 a 65 anos, que cresce a cada ano, será não só subutilizada como aumentará a razão de dependência em relação aos trabalhadores ativos na renda familiar. Ou seja, daqui para frente, um número decrescente de pessoas empregadas terá de sustentar um número aceleradamente crescente de pessoas mais velhas em idade ativa, mas que não conseguem trabalho devido ao etarismo institucional.

A exclusão dos trabalhadores seniores trará reflexos para a economia, com a queda da renda, aumento do endividamento familiar, queda no consumo, sobrecarga do sistema de saúde pública e da contribuição para a previdência social. Ironicamente, a recente reforma previdenciária que estendeu o tempo de aposentaria mais prejudicou do que beneficiou os trabalhadores. Afinal, se não se consegue emprego já aos 50 anos, como as mulheres poderão se aposentar aos 62 e os homens aos 65 anos?

Saúde mental

A importância do trabalho para o indivíduo vai muito além do aspecto econômico. Está profundamente relacionada ao propósito de vida, realização pessoal, status e sentimento de utilidade para a sociedade. A profissão é tão associada ao indivíduo que se confunde com nossa própria identidade como pessoas. Tanto que, após o nome, citamos nossa profissão para nos descrever. “Como o trabalho é considerado parte essencial da vida, quando se está desempregado há o sentimento de exclusão social do indivíduo de parte da sociedade. A tendência é a pessoa acreditar que ela é a responsável pela perda do emprego, algo nem sempre verdadeiro”, analisa o professor Marcelo Afonso Ribeiro, do Departamento de Psicologia Social e Trabalho do Instituto de Psicologia da USP e coordenador do Centro de Psicologia Aplicada no Trabalho.

Ao privar as pessoas com plenas condições de trabalho, o desemprego pode gerar sérias perturbações psicológicas. O desempregado é impedido de se realizar como profissional e cidadão, o que afeta diretamente sua autoestima e dignidade. A perda do emprego ou aposentadoria é tão dolorosa para certas pessoas que chega a ser comparada ao luto. Segundo depoimento de aposentados, a saída do mercado de trabalho é a segunda maior perda sentida ao longo da vida, abaixo apenas da perda das condições físicas.

Realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), a pesquisa Impacto do Desemprego: Saúde, Relacionamentos e Estado Emocional, ilustra as consequências do desemprego para a saúde. Do total de entrevistados, 70% revelaram ansiedade, 68% insegurança em relação ao futuro, 63% estresse, 62% angústia e 59% depressão. A situação reduziu a autoestima (55%), sendo que 37% se sentiam envergonhados perante os amigos.

A situação de desemprego prolongada agrava ainda mais o estado mental de quem passa pela situação. De fato, ao analisar os dados de 63 países da Organização Mundial de Saúde (OMS), a Universidade de Zurique (Suíça) revelou que o desemprego é a causa de 1 a cada 5 suicídios (20%) no mundo.

Considerando que a população brasileira está envelhecendo e o etarismo institucional antecipa a saída dos profissionais seniores do mercado de trabalho, é possível concluir que o número de pessoas com mais de 50 anos sofrendo com problemas de saúde irá aumentar em proporções elevadas. O tamanho do problema pode ser medido pelo Relatório Global de Sistemas Previdenciários de 2020, feito pela seguradora Allianz. De acordo com o estudo, a taxa de idosos fora do mercado de trabalho pode chegar a 40% em 2050 no Brasil. Atualmente o percentual está entre 10% e 15%.

(*) Silvio Tanabe é jornalista com formação em gerontologia social pela PUC-SP e editor do blog Mundo50e+

Foto destaque de Maarten van den Heuvel de Pexels


políticas públicas

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