Cursos grátis para Idosos na USP: matrículas abertas

Confira os cursos e as datas de matricula no site da pró-reitoria de cultura e extensão universitária da USP. Alguns exigem a presença do candidato, outros aceitam inscrições por e-mail.

Por Manuel de Barro

 

Inscrição – parte 6

Na USP Butantã as datas são variadas, mas a maioria abre a partir de 29 de janeiro e fecha num piscar de olho. Outros levam semanas para preencher todas as vagas. Quase todos aceitam inscrições por e-mail.

Os cursos da EACH (USP-Leste) são os mais concorridos. Para o primeiro semestre de 2018 as matrículas estão programadas para começar às 14h do dia 05 de fevereiro e se encerram às 17h do dia 06.

O idoso não precisa dormir na fila para garantir uma vaga, mas deve procurar chegar antes das duas para pegar uma senha baixa. Falo isso por experiência própria, pois no dia da matrícula saí para caminhar e esqueci completamente. Só lembrei porque o sogro do meu filho, Saboia, passou na minha casa.

Maurício, preocupado com minha memória, convenceu o sogro a fazer os cursos junto comigo. Por volta da uma hora ele apareceu na minha casa. Demorei um pouco para sair e achei que íamos chegar muito mais tarde, mas em menos de uma hora estávamos na USP-Leste.

Não é o fim do mundo como eu imaginava. Fomos de Metrô e trem. O trem sai do Brás. Linha 12. Destino Calmon Viana. É incrivelmente rápido. Terceira parada. Passa Tatuapé, Engenheiro Goulart e já estamos na USP-Leste. É exatamente este o nome da estação, USP-Leste. E você desce do trem dentro da universidade.

Chegamos entre três e quatro horas. O local estava literalmente tomado por idosos. Até brinquei: esqueceram a porta do asilo aberta. Saboia me repreendeu. Estava feliz e ao mesmo tempo sério.

O local de inscrição, o Auditório Vermelho, estava lotado. Os retardatários tinham que aguardar a vez no Auditório Verde. Tudo organizado por senha de acordo com a ordem de chegada. Quando as voluntárias começaram a nos encaminhar para fazer a matrícula, minha bexiga apertou e corri para o banheiro.

Os banheiros que servem os auditórios da EACH (USP-Leste) são amplos e confortáveis. E, o mais importante, são limpos e tem papel.

Meu coração estava acelerado. Minhas pernas tremiam. O xixi que deveria fluir com urgência, empacou.

Demoro cada vez mais no banheiro. A vontade, presente, mas alguma barreira contém tudo lá por dentro. Torço para não ser a próstata. Só torço, pois morro de medo de fazer exame.

Nunca mais esvaziei a bexiga de verdade. É um sacrifício. O xixi começa quando quer e é difícil saber quando termina. Só sei que preciso esvaziar bem a torneirinha e secá-la com bastante cuidado antes de guardá-la. Mesmo assim vaza. Não chega a molhar a calça, mas umedece e marca a cueca. Resumindo, fazer xixi se tornou um drama.

Ao deixar o banheiro, dei de cara com um mulherão. Mais de 100 quilos de boa vontade e mais alguns de simpatia e boa educação. Uma mulher espirituosa e bonita.

– Já realizou sua matrícula?

– Ainda não chegou minha vez – mostrei a senha como se ela fosse uma antiga fiscal do Sarney.

– Estou ansiosa porque no primeiro semestre não pude vir no primeiro dia e, no segundo, não havia muito o que escolher…

– A senhora me deixou otimista.

– Não seria pessimista? Estou começando a achar que não falamos a mesma língua.

– A língua é a mesma, só muda o sotaque. Sou Manuel de Barro, da Madeira, conhece?

– Já ouvi falar, claro. Quem nasce na Madeira é o quê?

– Caruncho, cupim…

– O senhor é muito engraçado…

– E a senhora é o anjo da anunciação.

– Portuga, está chegando nossa vez – gritou Saboia.

– Meu amigo Zé Palito – fiz as apresentações.

– Saboia, muito prazer.

– Gorete, prazer. É a primeira vez de vocês?

– Sempre há uma primeira vez para tudo – disse Saboia do seu jeito peculiar.

– Minha primeira vez foi na Madeira, atrás de um pé de bananeira, com uma moça chamada Tereza, que morava na Ribeira…

– Para de falar besteira, Manuel – Saboia me recriminou.

– Já me acostumei – disse Gorete gargalhando como se estivesse diante da dupla o Gordo e o Magro.

Uma voluntária conferia as senhas e organizava a fila de acordo com a numeração. Gorete foi para o fim da fila e uma senhora tomou seu lugar.

– Cheguei tarde porque precisei ir ao médico, vocês tiveram problemas para chegar?

– Era para estarmos aqui cedo, mas o Manuel é pior do que mulher para sair de casa – disse Saboia, quebrou a cara.

– O senhor precisa medir as palavras. Esta é uma frase machista e sem graça…

Quase soltei rojões ao ouvir o sermão. Saboia se defendia, ela dizia entender mas seguia com a ladainha.

– Fala alguma coisa, Portuga.

– Falar o quê? Que estou aqui porque o geriatra acha que preciso de atividades intelectuais para manter a sanidade?

– Sério? Nunca havia pensado nos cursos por esta perspectiva…

– Um cérebro preguiçoso atrai doenças…

– Concordo plenamente. Preciso do nome do seu médico…

Doença entre velhos costuma render conversas infindáveis. Salvei Saboia, mas por pouco tempo, pois ele mesmo voltou ao tema.

– Eu sou é machista – disse depois de reunir evidências para provar sua tese.

– Eu sou, mas estou me policiando – admiti e a colega me aplaudiu.

– O machismo é cultural. Se não for debatido abertamente nunca será superado, Está impregnado nos costumes. Quando escolhemos o enxoval do bebê, azul para o menino e rosa para a menina, já estamos aplicando o machismo…

– Porra, como essa mulher fala – disse Saboia baixinho.

– O que foi que seu amigo disse?

– Que mulher fala demais.

– Postura machista, percebe. O homem só fala isso porque se acha o dono da palavra…

Saboia não aguentou o tranco e pediu licença para ir ao banheiro. Quando retornou já estávamos confortavelmente sentados aguardando nossa vez. O ambiente fervilhava vida. Transbordava saúde, agitação e alegria.

Aquela gente saiu de casa para batalhar uma vaga em um ou mais cursos oferecido pela EACH (USP-Leste), porém, um torcia pelo outro para que no final todos se dessem bem.

– Saboia, tenho a impressão que todo mundo aqui se conhece.

– É porque as pessoas estão abertas ao diálogo. Na verdade, desejam se conhecer. Aqui, Manuel, você deixará de ser você. No seu caso, vai perder essa casca grossa, vai aprender a conviver com pessoas interessantes, vai desenvolver novos hábitos – Saboia disse aquilo para parecer inteligente e reverter a primeira impressão que passara para a colega que era, no frigir dos ovos, uma mulher interessante.

– Qual curso vocês vão fazer?

– Recordando os Anos 70 e Oficina de Turismo – respondeu Saboia.

– No semestre passado fiz Oficina de Turismo. Vou me inscrever novamente, pois gostei da turma e dos passeios.

– A turma agora é outra, não?

– A maioria continua, Manuel, você vai ver. Ah, também pretendo fazer Inglês e Recordando os Anos 70. Vamos ser colegas de turma.

– Se houver vaga…

– Por que não teria? – perguntou Saboia.

– O Manuel tem razão. São só 50 vagas e o curso é muito concorrido. Vocês têm que pensar em outras alternativas caso as vagas já estejam preenchidas.

Saboia imediatamente passou a consultar a lista de cursos oferecidos pela EACH. Ignorei a recomendação.

– Não tem interesses em outros cursos, Manuel?

– Se não houver vaga nos que quero, paciência – disse, torcendo para nunca mais botar os pés na Escola de Artes e Ciências Humanas, a USP-Leste.

Uma monitora conferiu nossas senhas e nos mandou levantar e seguir para a fila da matrícula.

– Formulário preenchido e assinado e RG nas mãos.

Recolheram o formulário e conferiram o RG. Tudo muito ágil. Havia por volta de oito voluntários atendendo simultaneamente os candidatos.

– O senhor é o sexto da lista de espera – disse a mocinha.

– Não entendi?

– As vagas para o curso Recordando os Anos 70 foram todas preenchidas. Se houver desistências, ligaremos.

– Qual a chance de haver seis desistências?

A garota balançou a cabeça negativamente. Senti um grande alívio. USP-Leste nunca mais. Aquilo não era mesmo para mim.

– O outro curso que o senhor escolheu, Oficina de Turismo, não tem limites de vagas.

– Então não preciso fazer inscrição.

– Teoricamente, sim, mas se fizer a inscrição…

– Não precisa. Obrigado.

– O senhor não quer ver outros cursos?

– Obrigado.

Deixei o prédio feliz da vida. Liberdade. Deus ouviu minhas preces. Sentia-me como um passarinho que acaba de descobrir que esqueceram a porta da gaiola aberta. Olhava a vastidão do campus. O verde pipocado por montículos de cupins. As flores selvagens. O canto dos pássaros. Abri os braços e imitei um grande e atrapalhado Garibaldo. Caminhava a passos largos e me divertia sacudindo os braços, fingindo me exercitar, mas no fundo batendo asas imaginárias querendo voar para longe do campus da USP-Leste.

– Manuel, o que houve, enlouqueceu? – perguntou Saboia.

– Estou apenas secando minhas axilas no vento.

– Se inscreveu em quê?

– Recordando os Anos 70.

– Mas as vagas estavam todas preenchidas…

– Sou o sexto da lista de espera.

– E o turismo?

– Para os passeios turísticos basta se apresentar no dia. Não há limites de vagas. Ninguém precisa se inscrever para participar. É um curso sem lista de presença, sem lista de espera, sem certificado, sem curso, sem nada. É só passeio. E você?

– Consegui uma vaga neste aqui – Saboia apontou para um curso no folheto.

– Sério? – desatei a rir. – Dormir Nunca é Perda de Tempo. Chama isso de curso?

– O sono é uma coisa muito séria… pelo menos para mim.

– Dormir… – não conseguia parar de rir.

– Também me inscrevi neste…

– Origami para a Terceira Idade… – ri mais ainda.

– É tudo na segunda-feira. Termina um começa o outro. A mocinha me deu a dica. Quer voltar lá e se inscrever? Tem vagas.

– Na segunda-feira temos o curso de leitura e escrita no Largo de São Francisco.

– Dá tempo de sobra. Lá é à tarde e em menos de 40 minutos estamos na Sé.

– Mais algum curso? – perguntei ainda rindo.

– Não é da sua conta – disse Saboia, chateado.

– Desculpa. Prometo não rir. Qual?

– Este aqui. É de sexta…

– “Foi na UnATI que Aprendi a Batucar”… – tentei me segurar, mas só de imaginar meu amigo quase cego batendo em um surdo gargalhei como nunca.

– Sabe o que você é, Manuel? Um grande estraga prazeres – disse Saboia, afastando-se em direção ao banheiro e dando de cara com a amiga da fila.

– Que bom que deu certo, rapazes, vamos estudar juntos.

– Também vai fazer Origami ou vão Dormir juntos depois da batucada?

A amiga não entendeu nada e fez cara de brava. Saboia explicou sobre os cursos que faria em substituição ao que estava esgotado.

– Voltem lá agora, pois abriram mais nove vagas no curso Recordando os Anos 70. Eu me inscrevi e vocês têm prioridade.

– Se abriram mais nove vagas estou dentro, pois sou o sexto na lista de espera – disse sem sair do lugar.

– Não é assim que funciona, Manuel, estamos no Brasil. Voltem lá e garantam suas vagas.

– Vamos, Manuel – disse Saboia me puxando.

– O sistema não é burro, Saboia.

– Manuel, volte lá com seu amigo, aprenda a lutar pelos seus direitos.

Retornamos ao auditório sob a escolta da amiga. Podia imaginá-la de chicote em punho.

– Saboia, não podemos furar a fila, vamos esperar de qualquer jeito…

– De jeito nenhum.

A mulher pediu licença e saiu atropelando quem estava na frente. As nove vagas estavam quase todas preenchidas e meu nome seguia firme como o sexto da lista de espera.

– Não tem nada de automático, viram?

Incluíram meu nome e acrescentaram o de Saboia. Para completar, formalizei minha inscrição no curso Oficina de Turismo porque, de acordo com a amiga, era o certo a fazer. O pior é que minha admiração por ela só aumentava.

– Vamos comemorar? – sugeriu Saboia.

– Rapazes, estou com pressa, mas podemos fazer uma boa farra no dia da aula inaugural.

– Que história é essa de aula inaugural – perguntei depois que ela se foi.

– Está escrito na capa do folheto. É para todos os alunos da terceira idade. De todos os cursos.

Fizemos xixi e seguimos para a estação. A amiga correu à toa. Continuava plantada na plataforma, rodeada por admiradores. Havia mais de oito velhos babões em torno dela. Fomos admitidos no grupo e logo percebi, com uma pontinha de ciúmes, que a amiga tinha seu preferido, um aluno veterano e exibicionista.

– Das Graças, nenhum curso é perda de tempo – disse o veterano.

– Qual curso você gostou mais? – perguntou Saboia.

– Elétrica. Foi muito proveitoso. Hoje, faço tudo na minha casa…

– E o que gostou menos? – arrisquei.

– Turismo.

– Por quê? – perguntou Das Graças.

– É um curso sem conteúdo didático – disse o veterano sabichão.

– Fiz esse curso no semestre passado e vou repetir – Das Graças bateu de frente com o veterano.

– Não é um curso. Pensam que velho não tem o que fazer e se contenta com qualquer coisa. Quero um curso que ensine de verdade. Se for só para passear, não é curso, é turismo.

– Falou sobre isso com o professor? – perguntei.

– O problema são os monitores. Não nos tratam como alunos, mas como velhinhos em excursão pela cidade de São Paulo.

– E o inglês? Acabei de me matricular… – disse Das Graças, incomodada com o rumo da conversa.

– Se você se matriculou é porque já conhece.

– Acabei de me matricular, não ouviu, Garcia? – Das Graças engrossou o caldo.

– Para se matricular no Módulo II o pré-requisito era ter feito o Módulo I, está aqui no papel.

– Quer dizer que me matriculei no II? Tem certeza que não foi no I?

– Sorte sua. O Módulo I ninguém aguenta. São jogos com imagens para fixar palavras tipo apple, orange, egg, umbrela etc. My name is só vai aparecer no Módulo II. The book is on the table, por exemplo, só fui ver no Módulo III. É um curso muito fraco para quem quer aprender de verdade. Acho mesmo que é só para exercitar a mente. Estudar uma nova língua é bom para espantar o Alzheimer.

– É este que você devia fazer, Manuel – disse Saboia para me provocar.

– The train is arriving – exibi meu inglês avançado, mas se tivesse cuspido e escarrado o efeito teria sido o mesmo, pois ninguém entendeu.

Entramos todos no mesmo vagão e fiquei bem ao lado do veterano.

– Vocês se conhecem há muito tempo? – perguntei para puxar assunto.

– Você não a conhece? Olhe bem para ela. Foi chacrete.

– Ah! – fingi reconhecê-la e me voltei para Saboia. – O que é uma chacrete?

– Bailarina do Chacrinha. Eu sabia que conhecia essa mulher. Pelo que sei, nunca fez plástica. Tudo original de fábrica.

– O que achou dela? – perguntou o veterano.

– Fresh Meat. Meu amigo ficou interessado.

– Ela e o marido são liberais. Com certeza topam ménage.

– Manuel, vamos descer – disse Saboia.

Paramos em uma barraca para comprar água.

– O veterano disse que Das Graças topa ménage.

– Você teve coragem de perguntar isso a ele?

– Não perguntei porra nenhuma. Disse fresh meat e ele entendeu France meet. Só pode ter sido isso. O inglês dele é limitado.

– Será que ela topa mesmo?

– Saboia, toma juízo, esse tipo de coisa a gente faz na época da faculdade.

– Acabei de entrar em uma!

Depois continuo.

Leia as partes 1, 2, 3, 4 e 5 desta história

Parte I: Atividade intelectual previne Alzheimer

Parte II: USP: vagas abertas à terceira idade

Parte III: USP: cursos gratuitos para idosos

Parte IV: USP convoca idosos para cursos gratuitos

Parte V: USP oferece cursos gratuitos para idosos

Serviço: Confira os cursos oferecidos pela Universidade Aberta à Terceira Idade (UnATI- USP) para o primeiro semestre de 2018 no link: https://prceu.usp.br/3idade/sao-paulo/


Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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