USP: cursos gratuitos para idosos

São dezenas, centenas de cursos para todos os gostos. Cursos regulares em todas as áreas do conhecimento e cursos idealizados exclusivamente para a terceira idade, atividades culturais e esportivas.

Por Manuel de Barro

 

Inscrição – parte 3.

Meu filho me ajudou a escolher seis cursos: dois na EACH (USP-Leste); um na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e os demais na USP Butantã. No dia da inscrição na USP-Leste, dia dez de julho, meu filho levantou mais cedo do que de costume. Estava mais ansioso do que eu.

– Pai, ainda está de pijama?

– Filho, é cedo, a matrícula na USP-Leste é só na parte da tarde, a partir das 14h.

– Pai, não é USP-Leste, é EACH.

– Que diabos é EACH?

– Escola de Artes, Ciências e Humanidades, EACH, entendeu? USP é a do Butantã. EACH é a USP da Zona Leste. E o senhor vai se matricular nos cursos da UnATI, Universidade Aberta à Terceira Idade.

– Agora já contei pra todo mundo que vou estudar na USP, vou ser uspiano…

– Tudo bem, pai, é USP do mesmo jeito. Sabe como chegar lá?

– Vou de Metrô até a Estação Tatuapé e pego o trem da CPTM, Linha 12, Paralelepípedo, no sentido Calmon de Sá, e desço na estação EACH.

– Pai, o trem vai para Calmon Viana, a Linha é 12 e se chama Safira. Não tem nada de Paralelepípedo. E a estação é USP Leste.

– Você acabou de dizer que é EACH.

– Já sei, é uma piada – disse Maurício, sério. – O Saboia vai junto com o senhor.

– Já sei, é uma piada – disse mais sério ainda.

– Contei para ele sobre os cursos e ele se interessou, só isso…

– Explicou que são cursos para velhos? Para maiores de 60 anos? Seu sogro não se acha velho, por isso não frequenta o clube. Diz que o Centro Comunitário é para velho que não tem o que fazer.

– Expliquei que são cursos para pessoas maiores de 60 anos e ele entendeu.

– Você tinha que enfiar seu sogro nessa história, não? Não confia no próprio pai, é isso? Que merda de filho você se saiu… pois agora não quero mais saber dessa merda de USP-Leste, merda de EACH, merda de UnATI ou o raio que o parta.

– Pai, o senhor é português. Francês é que vive com “merde” na boca – disse com sotaque e desandamos a rir da merda toda.

– Por que diabos enfiou o Saboia nessa história, posso saber?

– Porque ele é seu melhor amigo e também precisa fazer alguma coisa, pois está aposentado e intelectualmente é um zero à esquerda como a maioria dos velhos.

– Respeito é bom e eu gosto! E pare com essa mania de generalizar tudo.

– Falei maioria…

– Mas seu sogro não diz que é escritor? Que ele aposentou, eu sei, mas continua no trabalho, não continua?

– Não continua mais… infelizmente. Foi dispensado. Está pior do que barata tonta. Sai de casa cedo dizendo que vai procurar trabalho e só volta no fim do dia. Fica rodando pela cidade. Deixa a Márcia preocupadíssima.

– Sério? Tomou um pé na bunda? Anda feito barata tonta? Conta mais? – dei uma boa gargalhada e Maurício fechou a cara.

– É segredo, pai. Saboia não quer que ninguém saiba. Ele precisa desse curso mais do que o senhor imagina.

– Por que diabos ele não aproveita a aposentadoria como todo mundo? Tem tanta atividade no clube…

– Dominó, damas, baralho, bocha… por favor, pai. Foi difícil para Saboia aceitar a ideia de estudar na USP, veja se colabora, ele só tem o senhor como amigo.

– Não acredito em nada disso. Você convidou seu sogro para ter alguém de olho em mim. Acha que vou me perder ou gazetear aulas, é isso?

– Pai, o senhor sabe a importância de frequentar esses cursos, não é nenhuma criança, gazetear aulas seria o fim da picada.

– Fim da picada… parece um velho falando… e deve ser mesmo, pois me trata como criança… pensa ser meu pai…

– Chega, pai, não quero discutir. O senhor sabe muito bem o que deve fazer. E veja lá que roupa vai usar. Nada de bermuda e tênis surrado.

– Vou pensar no assunto…

– Não tem o que pensar. O geriatra deixou claro, ou o senhor começa uma atividade intelectual ou a chance de desenvolver uma demência antes dos 80 anos será de 100%. Quer se tornar um velho dependente?

– Sem terrorismo. E a conta é outra. De acordo com a psicóloga, entre 75 e 80 anos temos 16% de chance de desenvolver uma demência, não 100%.

– A psicóloga dispensou o senhor da terapia para que faça os cursos, do contrário retornará a terapia e passará a ser duas vezes por semana.

– De jeito nenhum. Essa mulher não sabe conversar, só aprendeu a fazer perguntas.

– Ela é psicóloga. É o trabalho dela.

– Bom dia, seu Manuel, como foi a semana? O senhor aceita um café? Uma água? Já escolheu os cursos que vai frequentar na UnATI? Imagine viver com uma mulher que transforma toda conversa em um interrogatório? Amor, como foi seu dia? Tudo bem no trabalho? Resolveu o problema do carro? Sabe quem esteve aqui hoje? Quando vamos fazer sexo? Já pensou em parar de usar camisinha para fazermos um filho? – disse isso para provocar Maurício, pois nunca me conformei com essa história dele casar e continuar morando comigo.

– Chega, pai. Imprimi cópias do seu RG. Deixei junto com sua carteira para o senhor não esquecer. Os cursos nos quais o senhor vai se inscrever hoje são dois: Recordando os Anos 70 e Oficina de Turismo Social – Viver São Paulo.

– Mas você mesmo disse que os dois são no mesmo dia e horário.

– São cursos quinzenais, intercalados. Em uma semana o senhor frequenta “Recordando os Anos 70”; na outra, “Oficina de Turismo”. Vai se inscrever nos dois, não esqueça.

– Por que está falando assim?

– Porque o senhor anda muito esquecido ultimamente. E esquecimento é sinal de demência, cuidado.

– O demente aqui é você. Quando vai assumir seu casamento?

– Tchau, pai, boa sorte. Procure chegar cedo para garantir a vaga. Pode abrir e fechar o portão, por favor?

– Algum dia deixei de fazer isso, aleijado?

– Pai, reveja seu vocabulário, ninguém mais usa a palavra “aleijado”, o certo é deficiente.

– Tá bom, deficiente, vou abrir o portão…

Maurício é incapaz de descer do carro para fechar o portão da garagem. Também é incapaz de tirar o prato da mesa e larga copos pela casa inteira. Não ligo. Como estou aposentado, sem fazer nada, abro e fecho o portão, administro a casa, faço compras, pago as contas etc. Quero ver como vai ser quando eu começar a estudar na USP. Se me inscrever em todos os cursos, estudarei de segunda a quinta-feira. Vai acabar a moleza. A minha e a dele. Confesso que estou com uma expectativa boa. A USP que me espere, pois não sou um Manuel qualquer, sou um Manuel de Barro. Depois continuo.

Leia as partes I e II desta história

Parte I: Atividade intelectual previne Alzheimer

Parte II: USP: vagas abertas à terceira idade

Serviço: Confira os cursos oferecidos pela Universidade Aberta à Terceira Idade (UnATI- USP) para o primeiro semestre de 2018 no link: http://prceu.usp.br/3idade/sao-paulo/

Foto: reprodução


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Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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