Coletânea de prosas breves sobre a velhice

Tempo de Leitura: 5 minutos

Iniciamos com esta coletânea uma série de textos em prosa sobre a velhice, dando continuidade ao projeto sobre poemas do tempo de nossa existência.

i) A velhice é o Ser quando iluminado pela luz crepuscular.
ii) Minha pressa se deve à hora em que escrevo: é crepúsculo.
 Rubem Alves


Colhemos – e seguimos colhendo – muitos poemas sobre a velhice[1]. Agora, damos início à reunião de textos em prosa. Ou seja, textos organizados em parágrafos e escritos de forma corrida. São jornais, cartas, livros de ficção, de contos de fadas e até texto de e-mails… A prosa tem como objetivo expor uma ideia, fatos ou uma história.

Com a palavra, escritores brasileiros contemporâneos e velhos autores internacionais recentemente falecidos:

Como Teodora, minha avó
Marilene Dias dos Santos Grandisoli

Minha vó, já bem velha, sentada numa cadeira, ao sol, penteava seus cabelos até que eles secassem. Cega, não havia nada que pudesse ver externamente. Então, ela penteava seus cabelos e seu semblante era ou de alguém que se lembrava de muitas coisas do seu passado. Cada longa passada do pente parecia acompanhar um pensamento. Em que pensava minha avó?

Quando eu ficar bem velha vou me sentar ao sol e pentear os meus cabelos até que eles sequem. vou lembrar de tantas coisas, como Teodora, minha avó, mas acho que nas lembranças tudo vai ser diferente do que hoje é para mim.

Elas envelheceram
J. B. Pontalis em À Margem das Noites

Recebi outro dia, na Gallimard, um homem de seus 60 anos que me havia enviado um manuscrito. Ele me conta que sua mãe, a Martha que reencontrei no Egito (de quem falo no capítulo “Castos amores” do meu livro Elles), ainda vive. E diz que ela não me esqueceu. Eu gostaria de revê-la? Ela está com 89 anos e anda com dificuldade.

Ontem cruzei na rua com S., por quem fui loucamente apaixonado quando jovem (…). Mudei rapidamente de calçada. Talvez ela também tenha a virado o rosto e atravessando a rua, com medo de não reconhecer o jovem do tempo dos nossos amores.

Pont Neuf
J. B. Pontalis em Elas

“Olhem só, os namorados!” Eles atravessavam a ponte. Um pedestre cruzar com eles. Então era óbvio que estavam apaixonados, a ponto de saltar aos olhos daquele senhor idoso de ar simpático. Ele lhe havia dirigido um sorriso cúmplice. Talvez estivesse sorrindo para a sua própria Juventude distante. (…)

Aquele momento ele não o esqueceu, nunca o esquecerá. Agora ele o senhor idoso e, quando lhe acontecia de atravessar aquela ponte, voltava-lhe a lembrança daquele dia longínquo, e ele dizia assim mesmo: “Olhem só, os namorados!”

Sua canção preferida: “Que reste-t-il de nos amours?

Lentidão
Norberto Bobbio em O Tempo da Memória

Enquanto o ritmo da vida do velho fica cada vez mais lento, o tempo que tem pela frente fica dia a dia mais curto. Quem chegou à idade avançada vive o contraste, ora mais ora menos ansiosamente, entre a lente dão com a qual é obrigado a proceder no cumprimento do próprio trabalho, que requer prazos mais longos para a sua execução, e a inevitável aproximação do fim. (…)

Enquanto o ritmo da vida do velho fica cada vez mais lento, o tempo que tem pela frente fica dia a dia mais curto. Quem chegou à idade avançada vive o contraste, ora mais ora menos ansiosamente, entre a lente dão com a qual é obrigado a proceder no cumprimento do próprio trabalho, que requer prazos mais longos para a sua execução, e a inevitável aproximação do fim. (…)

O tempo urge. Eu deveria acelerar os movimentos para chegar a tempo e, em vez disso, vejo-me obrigado, dia após dia, a mover me cada vez mais devagar. Emprego mais tempo e disponho de menos tempo. Pergunto a mim mesmo, preocupado: – Será que vou conseguir? Sinto-me compelido pela necessidade de terminar pois sei que o pouco tempo que me resta para viver não me permite parar de vez em quando para descansar. E contudo, sou obrigado a marcar o passo, embaraçado nos movimentos, desmemoriado e portanto obrigado a deter-me para anotar tudo o que preciso em folhas que, no momento oportuno, não encontrarei.

Um velho rock and roll
Mário Bortolotto em Souvernis da Guerra

Quando eu estiver velhinho, quero ficar no fundo do bar bebendo o meu uísque devagar. E vai ter uma banda tocando um velho rock and roll (na minha vida sempre vai ter uma banda tocando um velho rock and roll). E lá pelo meio da madrugada, vou sair do fundo do bar e subir no palco com meus amigos e vou cantar com eles uma dessas velhas canções com minha voz estragada pelo tempo e pelo uísque, mas ainda assim, com alguma técnica e muito coração, alma e bagos. É um bom jeito de envelhecer.

Filhos c(uida)/(astra)dores
Hemerson Ari Mendes

Dona Santinha é uma viúva faceira de 74 anos, foi eleita miss terceira idade da sua comunidade. Gosta de bailes. Há poucos meses perdeu seu segundo marido, ele tinha 8 anos menos do que ela. Seu Generoso é o taxista que leva ela e as amigas para os bailes. Ele já teve rápidos relacionamentos com duas conhecidas de dona Santinha. Mas agora tem olhado e mostrado interesses por ela, que, animada, contou para a filha. A filha ficou muito preocupada, começou a aconselhar dona Santinha, ponderou que seu Generoso não é uma pessoa confiável, que talvez não seja uma relação com futuro, que ela pode sofrer e que deve preocupar-se com o que as outras pessoas podem comentar.
(…)
Maria está com 72 anos, há 5 com sintomas de Alzheimer. Sempre foi uma mulher vaidosa, mas com a doença passou a querer usar sempre as mesmas roupas, insiste em fazer combinações pouco ortodoxas. Nos últimos 3 anos, em todas as visitas, a sua filha fez a mãe trocar de roupa, além de seguidamente demitir cuidadoras por não atentarem à inadequação das combinações que mãe quer fazer.

Felipe está com 60 anos, em fase terminal de um câncer com metástase óssea. As dores estão acentuando-se. Além de potentes analgésicos, os médicos começaram a prescrever morfina. Há 20 anos seu Felipe não bebe, pois teve dificuldades com álcool. Nas últimas semanas, seu Felipe começou a pedir uma taça de vinho no almoço e na janta. Carlos seu filho acha que isso está acontecendo porque a morfina “acendeu” sua dependência. Acha que ele não deve mais usá-la para dor, além de não permitirem que ela beba seu vinho.

Todos os filhos, além da neta, são pessoas bem-intencionadas. Querem o melhor para seus familiares. Mas todos estão com dificuldade de pensar a finitude da vida, ao não poderem pensar na morte, eliminam ou dificultam o pouco de vida/prazer que resta aos seus familiares. “Do que me adianta a imortalidade, se não tenho a vida.” A frase está em minha memória como uma fala do Drácula, em uma montagem argentina que assisti há 20 anos. Se a imortalidade sem a vida não adianta, imaginem para os que sabem que não são imortais.

Notas
[1] https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/?s=coletanea+de+poemas
[2] O que sobrou de nossos amores? Na voz de João Gilberto.

Foro destaque de Alexavier Rylee Cimafranca/Pexels


Paula Akkari

Paula Akkari é psicóloga (CRP 06/178290) formada pela PUC-SP, mestranda em Psicologia Social na mesma instituição e pós-graduanda no Instituto Dasein. E-mail: [email protected] Instagram: @akkari.psi "

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