Coletânea de poemas sobre a velhice – Parte I

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A poesia na forma de poema é uma das formas literárias mais dispersáveis, o que a permite habitar um espaço de errância, inclusive sobre a velhice.


Merleau-Ponty, filósofo dos entrecruzamentos, debruçou-se sobre as artes e seu poder de descortinamento, ultrapassando os limites do que poderia ser tido estritamente como filosófico. “Enquanto a ciência e a filosofia das ciências abriam as portas para uma exploração do mundo percebido, a pintura, a poesia e a filosofia entravam decididamente no domínio que lhes era assim reconhecido e davam-nos uma visão, extremamente nova e característica de nosso tempo, das coisas, do espaço, dos animais e até do homem visto de fora tal como aparece no campo de nossa percepção”, declara em Conversas.

O intelectual soma-se àqueles que não subjugam as ciências às artes, mas apontam que o recorte científico da realidade exclui partes constituintes dela. Uma dessas é o elemento poético, que é uma dimensão da existência. “É imã, algo que suscita cadência (…) é tempo mítico”, diz Octavio Paes. Quando um organismo verbal o contém ou suscita, eis uma poesia.

A poesia na forma de poema é uma das formas literárias mais dispersáveis. Como toda a literatura, bebe de diversos saberes sem a tarefa de deixar ensinamentos, o que a permite habitar um espaço de errância. Segundo Roland Barthes, ela se apresenta como um discurso não epistemológico, que não simplesmente utiliza a linguagem, mas a engrena num rolamento da reflexividade infinita. E, de volta a Merleau-Ponty, sua grandeza não é medida senão por sua fecundidade.

O que é a velhice?

Conheço-a mais ao ler a prosa poética de Rubem Alves que a coloca como estar iluminado pela luz do crepúsculo do que contatando classificações e descrições pragmáticas que não podem findar a questão. Mas tampouco imagino que essa se encerre. Vale, então, imergir no sensível.

Recortei poemas-poesia. Apesar de poderem ser estudados e situados historicamente, sustentam cada uma das suas leituras, sem prender-se a nenhuma: estão aqui para povoar nosso imaginário. 

Ser

Envelhecer
(Mário Quintana)
Antes, todos os caminhos iam.
Agora, todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Poema da Gare de Astapovo
(Mário Quintana)
O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,

Contra uma parede nua…
Sentou-se…e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!

E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
A Morte chegou na sua locomotiva

(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Meu Pai
 (Ferreira Gullar
)
meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro

Envelhecer
(Hermann Hesse)
(…)
Para os velhos é bom e são
Borgonha tinto ao pé da lareira,
E depois uma morte ligeira –
Porém só mais tarde, hoje não!

Pior Velhice
(Florbela Espanca)
Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, Náufraga da Vida, ando a morrer!
A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
D’alvas rosas a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!
E dizem que sou nova… A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!…
Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova… outrora…

Páscoa
(Adélia Prado)
Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos.
A segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui louca e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
“põe o agasalho”
“tens coragem?”
“por que não vais de óculos?”
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.

Os Velhos
(Carlos Drummond de Andrade)
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

Velhas árvores
(Olavo Bilac)
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Foto destaque de Rahmi Aksöz no Pexels


memórias
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Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

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