A velhice segundo Hermann Hesse

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À entrada de um novo espaço vital, o átrio da velhice, um velho vos deseja os dons que a vida tem a nos oferecer nessa etapa: maior independência da opinião alheia, maior tranquilidade, insensibilidade às paixões e imortal devoção ao eterno, escreveu Hesse.


Hermann Hesse (1877-1962) pôde escrever sobre todas as etapas de sua vida: envelheceu. Criou por mais de meio século, sem resistir ao passar do tempo ou ao reconhecimento da efemeridade. Nascido na Alemanha e naturalizado suíço, o autor percorreu uma trajetória dolorida até uma introspectiva velhice, na qual o real do corpo marcou-se principalmente por forte isquialgia. Seu falecimento decorreu de um derrame, embora já tivesse se aproximado da morte aos quinze anos, em uma tentativa de suicídio, e durante uma crise depressiva que antecedeu a escrita de sua magnum opus, O Lobo da Estepe.

Traduzido para mais de 60 idiomas, galardoado no mesmo ano (1946) com o Prêmio Goethe e o Nobel, seu legado é imortal. O conjunto de poemas, contos, romances e cartas é carregado de reflexões pessoais e confissões poéticas permeadas pelos pensamentos nietzscheano e psicanalítico; associado a temas da contracultura, há quem considere-o um resumo da crise espiritual/estética do século XX e um alento aos que buscam alguma religiosidade não missionária.

No seu crepúsculo, Hermann reuniu escritos diversos na coletânea Com a Maturidade Fica-se Mais Jovem1. Assim, elaborou sua visão da fase em que se encontrava e de sua iminente partida:

O primeiro texto, Passeio de Primavera (1920), assinado por mãos de meia-idade, retrata a constatação de si como parte constituinte da natureza e do imperativo da finitude que a rege:

Agora, o vento suave e alegre que sopra em meu rosto é o mesmo que agita anêmonas curvadas e que me envolve, como um redemoinho de terra, um enxame de recordações, transportando a lembrança da dor e da transitoriedade das veias para a consciência. Pedra do caminho, tu és mais forte do que eu. Árvore do campo, tu sobreviverás a mim.2

Percebo mais do que nunca a inconstância da minha forma e sinto-me atraído pela metamorfose (…). Minha sede se volta para os sinais da degradação, terra e água, folhas mortas. Amanhã ou depois, em breve, muito em breve, serei folha, terra e raiz. Sem tristeza, a canção da transitoriedade alegrará meus caminhos, cheios de tolerância, determinação e esperança.3

Segundo o autor, noções como essa pertencem à ordem da transcendência e são possibilitadas por grandes bagagens vivenciais:

A percepção de Deus, do mistério e da alma nas pequenas manifestações da natureza, sintetizando a conjunção dos opostos e a suprema unidade, requer uma idade avançada, uma infinita soma de visões, vivências, ideias, sensações e angústias, certa acomodação dos impulsos vitais, certa debilidade, certa proximidade da morte. 4

A partir de 1927, o relacionamento central de sua vida foi o casamento com a historiadora Ninon Hesse. Contudo, algumas relações esporádicas foram transformadoras:

Uma foi a amizade com Nina, grisalha senhora de 78 anos que vivia na montanha onde o escritor morava sazonalmente. Todas as noites, ela cheirava rapé sentada no muro de uma igreja; ele, décadas mais jovem, ocasionalmente a encontrava para admirar seu resto ossudo, seus sinceros olhos vermelhos, sua amabilidade e inteligência, permitindo-se ficar em sua casa imunda por horas, conversando, recusando seus presentes e ouvindo-a maldizer a gota e a saudade – quando a gente envelhece, os amigos desaparecem. 5

Em vários momentos, Hesse perguntava-se se a velha ainda vivia. Quanto a si, já se via idoso como ela em 1947, quando correspondeu-se com um leitor que lhe perguntava o sentido da vida:

Fui chamado de ‘velho e sábio’ (…). Isso era capaz de provocar o riso em um homem velho, cansado e rabugento, que ao longo de toda sua extensa e intensa vida por várias vezes se achara bem mais próximo da sabedoria do que agora, sob condições tão limitadas e pouco animadoras. 6

Após a inquietação inicial acerca do significado dos adjetivos que lhe foram atribuídos, Herman identificou-se com algumas das encadeações, concluindo o porquê de o rapaz supor um saber nele, ainda que esse não fornecesse respostas prontas:

Ao correr em seu auxílio, não sou eu quem o ajuda, e sim a evidência de seu sofrimento, que por uma hora me despiu, o velho e sábio, de toda velhice e sabedoria, sobre mim derramando uma gélida e luzidia torrente de realidade.7

Tal apropriação da própria condição já estava consolidada em 1952, quando hospedou em sua casa um amigo do colégio:     

O reencontro foi uma festa (…) sua presença era como uma volta aos tempos de infância e juventude na terra natal. 8

Ao nos olharmos (…) cada um viu no outro o ontem por detrás de hoje. (…) Sob as inúmeras camadas de tempo sobrepostas, cada um reconheceu no outro o colega de 14 anos. 9

Na despedida, sorrimos um para o outro, sem, no entanto, dizer uma só palavra sobre o que ambos pensavam: ‘esta talvez tenha sido a última vez’. 10

Ambos gozaram de uma oportunidade cada vez mais rara de encontrar alguém tão velho quanto o outro; tiveram o privilégio de constatar que cada um realizou grande parte do que poderia exigir de si mesmo e julgava dever ao mundo. 11

E o implícito da despedida concretizou-se: enquanto o escritor passeava nas montanhas desejando ter compartilhado a paisagem com o colega, esse morreu:

Sem essa experiência (o reencontro), eu talvez não tivesse sido capaz de compreender o seu fim ou – se considerarmos que ‘compreender’ é uma palavra por demais abrangente – de aceitá-lo e registrá-lo como um desfecho adequado, correto e harmônico. 12

Considerar a efemeridade tornou-se inerência em qualquer relação, como visto na com Lorenzo, um morador da redondeza com quem conversava por brincadeira, sem pretensões de gravar os ditos na memória:

Sendo contemporâneos, nutríamos um sentimento fraterno recíproco, e quando um de nós mancava um pouco mais ou apresentava uma particular dificuldade em lidar com os dedos inchados, nada se comentava a respeito, mas o outro sorria, compreensivo e levemente preocupado, sentindo, por sua vez, certa satisfação baseada na solidariedade e na simpatia, que não escondia o prazer de ser momentaneamente o mais saudável, ainda que lamentando antecipadamente o dia em que o outro não estivesse mais ao lado. 13

Um lazer que compartilhava com esse senhor era o da jardinagem. Uma metáfora a ele relacionada, pois, introduz considerações assertivas que teceu sobre ser-velho:

Aqui, no jardim dos velhos, brotam muitas flores que outrora nunca nos preocupamos em cuidar. 14

Assim como é bela a juventude, a época de efervescência e das lutas, a velhice e a maturidade também possuem seus encantos e alegrias. (…) As pessoas (ao envelhecer) vão pouco a pouco deixando de cometer algumas tolices; conquistando a fama e a honestidade, começam a olhar para trás, encarando as próprias vidas com imparcialidade. Aprendem a esperar, a calar e a ouvir. 15 (Um dos benefícios) é a camada protetora, feita de esquecimento, cansaço e afeição, que se cria entre nós e nossos problemas e nossas mágoas. (…) A velhice nos faz desprezar muita coisa. 16

Ele conta, também, do valor agregado às lembranças, o acervo de imagens que guardamos na memória após uma longa vida que, com o declínio da atividade, passamos a enxergar de uma forma nunca antes imaginada. 17 O que seria de nós, os velhos, se não tivéssemos (…) o tesouro da vivência! Seria uma lamentável pobreza. No entanto, somos ricos e temos a oferecer, ao fim e ao esquecimento, não apenas um corpo usado, mas também o receptáculo daquele tesouro que há de viver e brilhar enquanto respirarmos. 18

Sofredor do mundo, Hesse também não teve dificuldades em mencionar os males associados ao passar do tempo, como a deterioração dos sentidos, as dores físicas e crescentes dificuldades obter satisfações, além dos preconceitos por parte dos mais jovens. Ainda, expõe que qualquer pessoa sabe que a velhice traz consigo muitos incômodos e tem no seu fim a morte.19 Se a vida antes (fora) outrora tão banal, (ela torna-se) um dote precioso, constantemente ameaçado, um bem natural transformado em penhor de duração incerta. 20

O velho autor experienciou seu desvanecer lentamente, reparando em cada dente que quebrava ou músculo que diminuía. Aceitando que uma parte do que outrora se chamava Eu, já se encontra no lugar onde em breve todo o restante estará 21, não odiou nem temeu o final:

A relação com a morte não é, portanto, ilusão ou fantasia, e sim uma realidade que faz parte de minha vida. Conheço bem a tristeza da transitoriedade e posso senti-la em cada flor que murcha. Mas é uma tristeza sem desespero. 22

Contentes, brotamos e murchamos
No grande jardim divino 23
E florescer era meu objetivo. Agora murcho,
Pois murchar é meu objetivo, e nada mais. 24

Hesse acreditava que aceitar a morte é ser doce com a vida. Como em um resumo, enfim deixa um voto e um conselho a quem, como ele, tiver o privilégio de envelhecer:

À entrada de um novo espaço vital, o átrio da velhice, um velho vos deseja os dons que a vida tem a nos oferecer nessa etapa: maior independência da opinião alheia, maior tranquilidade, insensibilidade às paixões e imortal devoção ao eterno. 25 E (que caiba) a quem envelheceu e fez sua parte familiarizar-se, na intimidade, com a morte 26, a última e mais ousada aventura de nossa existência. 27

Notas
[1] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade Fica-se Mais Jovem. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018
[2] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 07-08
[3] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 08
[4] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 50
[5] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 37
[6] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 103
[7] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 109
[8] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 117
[9] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 118
[10] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 121
[11] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 120
[12] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 123
[13] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 94
[14] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 59
[15] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 26
[16] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 60
[17] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 59
[18] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 72
[19] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 58
[20] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 138
[21] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 131
[22] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 139
[23] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 88
[24] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 135
[25] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 66
[26] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 131
[27] HERMANN, Hesse. Com a Maturidade… p. 135


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Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

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