Fingarette: o filósofo que encarou a própria morte

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Envelhecer é perder habilidades das quais gozou por toda a vida. Tendemos a agir como se ainda as tivéssemos, e então falhamos, ou nos envergonhamos, ou finalmente aceitamos que não é mais possível fazer o mesmo de outrora.


Este ano o nascimento do filósofo Herbert americano Fingarette (1921-2018) completa um centenário. Professor emérito da Universidade da Califórnia, ele viveu uma vida repleta de significados, e realizou-se em sua carreira julgada controversa. Em seus últimos meses, gravou em sua casa o documentário Being 97 (2018)1. Trata-se de uma obra sincera sobre seu envelhecimento, a morte e seus lutos. Nela, mostrou sua rotina: tomar remédios, vestir-se com ajuda de uma cuidadora, conversar sobre banalidades, deambular com um andador, desenhar, ouvir música e pensar. Mas, sobretudo, expôs suas questões existenciais, incongruentes à sua inclinação a certezas e argumentos lógicos.


Trago, então, uma livre tradução2 de seu monólogo:

Aos 97

Ter 97 anos tem sido uma experiência interessante. Para pessoas que não atingiram a velhice, é muito difícil entender o que se passa com um velho.

Envelhecer é perder habilidades das quais gozou por toda a vida. Tendemos a agir como se ainda as tivéssemos, e então falhamos, ou nos envergonhamos, ou finalmente aceitamos que não é mais possível fazer o mesmo de outrora. Essa última opção é racional. Seria muito bom se todos fizéssemos a coisa racional, mas não fazemos. Não é possível simplesmente optar pela racionalidade. Você pode dizer para si “bom, agora as coisas precisam ser de um jeito distinto do de antes”, embora isso não signifique poder aceitá-lo. Hábitos antigos foram longevos…

Eu posso fazer muitas das coisas comuns da vida. Mas agora elas são, em sua maioria, realizadas com especial cuidado e atenção, muito frequentemente com apoio de outrem. Um dos desafios que venho enfrentado é lidar com minha necessidade de ajuda.

Eu nasci em 1921, no Brooklyn. Tenho 97 anos, o que é uma grande surpresa para mim. Nessa idade, naturalmente, penso na morte.

Lecionei Filosofia na Universidade da Califórnia, creio que há quarenta anos. Quando jovem filósofo, aprofundei-me na psicanálise. Publiquei livros a respeito de self-deception e Filosofia Chinesa enquanto também trabalhava nos campos da Ética e do Direito, debruçando-me sobre questões ligadas ao alcoolismo e à drogadição.

Há uns vinte anos, publiquei um livro sobre a morte. Em suma, nele expus que não há razão para ficarmos amedrontados, apreensivos ou qualquer coisa diante da morte porque quando morremos, há nada. Você não sofrerá, não será infeliz. Você apenas não será. Existirá nada. Logo, não é racional temer a morte. Hoje, até penso que ela é um bom estado.

Então, por que estou preocupado com ela? Meu argumento consiste em não haver boa razão para isso. Entretanto, com ou sem boa razão, a ideia de em breve morrer me assombra. Muitas vezes, ando pela casa e me pergunto, em voz alta, qual o ponto disso tudo. Deve haver algo que eu tenha deixado passar. Eu gostaria de saber qual.

Tento perceber onde estou. Ainda acho que, de muitas maneiras, sou um quebra-cabeça. E acho muito interessante tentar decifrá-lo. O que está acontecendo? Gastei muito da minha vida pensando em tais questões. Mas é difícil, não sei, ultimamente ando abandonando o assunto…

Qual o ponto disso tudo?

Acho que pergunto com a noção de que não há boa resposta. É uma questão irônica. Acho que a resposta, a resposta silenciosa, pode ser que não há ponto. É uma questão insensata.

Se eu tivesse de falar algo, diria que a solidão e a ausência são partes absolutas de minha vida. Isso tem a ver com minha esposa. Éramos muito próximos. Fomos casados por mais ou menos 70 anos. E essa é outra dimensão da situação com a qual me preocupo. Ela se foi há anos, eu sinto que uma parte de mim se foi. Nós viajamos juntos, trabalhamos juntos, fomos felizes juntos. Sei o quão afortunado fui por ter vivido uma vida feliz. Mas metade de mim se foi. Há anos a ausência dela tem sido uma presença. Uma ausência presente para mim. Chamo isso de vazio. Há algo faltando. E é claro que eu percebo ser ela o que falta. É algo muito solitário… Estive com ela até quando morria. Foi uma experiência difícil. Abraçamo-nos na hora.

“Morte”. Pensamento assustador. Algo que não quero que aconteça. Mesmo quando penso nos casos confusos do nosso mundo, quero nele perambular. Não sei a razão básica do meu querer, tampouco a de meu temor. Partirei; o que isso significa?

Sentado na varanda de casa, observo o sutil balançar das árvores com o vento. Vi-o inúmeras vezes, mas de alguma forma, dessa vez a experiência é transcendental. Eu vejo o quão maravilhosa é a vista e penso comigo “eu a tenho aqui há tanto tempo, mas será que realmente a apreciei?”. E o fato é que não. Até agora. Isso torna a morte um fato ainda mais difícil de aceitar. Isso traz lágrimas aos meus olhos.

Escrevi livros sobre outros assuntos e em cada um deles sinto que solucionei um problema. Mas esse não é resolúvel. Não é apenas uma questão teórica para mim, como muitas questões são. Trata-se da única centralidade da minha vida. Tentei lidar com ela, fracassei. Então só sigo existindo – eis a verdade da existência. E esperando. Esperando ter de me despedir.

Notas
1 Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=qX6NztnPU-4
2 Fingarette ainda não foi traduzido para o português e seu filme não contém legendas em outros idiomas.


Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

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