Washington se torna o primeiro estado a legalizar a compostagem humana

A compostagem humana é uma alternativa ao enterro e à cremação. A Recompose consiste na primeira agência funerária urbana de “redução orgânica” nos EUA, mais parecido com um crematório urbano, mas usando meios de “redução orgânica” mais lentos e menos intensivos em carbono, ou compostagem.

Por Brendan Kiley (*)


Em maio o governador Jay Inslee assinou o SB 5001, “sobre restos humanos”, tornando Washington o primeiro estado dos EUA a legalizar a compostagem humana. A lei, que entra em vigor no dia 1º de maio de 2020, reconhece a “redução orgânica natural” e a hidrólise alcalina (às vezes chamada de “cremação líquida”) como alternativas ao enterro e à cremação.

O projeto havia sido amplamente aprovado em ambas as câmaras legislativas: 80-16 na Câmara e 38-11 no Senado. Isso abre o caminho para a Recompose, que começou como um projeto para construir a primeira agência funerária urbana de “redução orgânica” no país. Washington já tem vários “cemitérios verdes”, como o White Eagle Memorial Preserve no condado de Klickitat, onde as pessoas podem ser enterradas sem embalsamamento, caixões ou lápides. O modelo Recompose é mais parecido com um crematório urbano, mas usando meios de “redução orgânica” mais lentos e menos intensivos em carbono, ou compostagem.

O processo, que envolve o uso de lascas de madeira, palha e outros materiais, leva cerca de quatro semanas e está relacionado a métodos de “compostagem de gado” que fazendeiros usam há vários anos. Lynne Carpenter-Boggs, uma cientista de solos da Universidade Estadual de Washington, diz que a prática pode transformar um boi de 680kg (com os ossos) em solo limpo e sem cheiro em questão de meses.

A designer Katrina Spade começou o empreendimento sem fins lucrativos, chamado Urban Death Project, em 2014. Ao longo dos anos, Spade reuniu um conselho de consultores voluntários, incluindo cientistas, advogados e profissionais de assistência à morte, e então o converteu em um pequeno modelo de negócio chamado Recompose.

Carpenter-Boggs projetou e gerenciou um estudo piloto do processo no verão de 2018 com os restos mortais de seis pessoas com doenças terminais que apoiaram a ideia da Recompose e doaram seus restos para essa pesquisa. O resultado, disse ela, foi um solo limpo, rico e inodoro que passou por todas as diretrizes federais e estaduais de segurança para patógenos e poluentes potencialmente perigosos, como os metais.

Nora Menkin, diretora executiva da Associação People’s Memorial, uma cooperativa funerária e grupo de defesa do consumidor estabelecido como uma alternativa às casas funerárias mais caras, disse que cerca de 20 apoiadores compareceram à assinatura em Olympia – com seis crianças (inclusive as dela), de 1 a 14 anos.

“Inslee, muito grato, parabenizou a Katrina”, disse Menkin. Menkin ouviu falar de algumas pessoas em todo o país, incluindo em Massachusetts e Michigan, que têm acompanhado o projeto e esperam poder apresentá-lo aos seus legisladores.

“Eu acho que isso é ótimo”, disse Joshua Slocum, diretor da Funeral Consumers Alliance, um grupo nacional de defesa pública dos consumidores com sede em Vermont. “Neste país, temos uma relação muito disfuncional com a morte, que não resulta em bons princípios para a política pública. O que fazemos com os mortos, apesar de toda nossa emoção atrelada a isso, não é – exceto em casos muito raros – uma questão de saúde e segurança pública. É uma coisa realmente difícil de se pensar, e muitas das nossas leis estaduais impedem que as pessoas voltem a maneiras simples, naturais e baratas de fazer as coisas”.

Rob Goff, diretor-executivo da Associação de Diretores de Funerais do Estado de Washington (WSFDA), disse que Spade compareceu à uma reunião na primavera para falar sobre o Recompose e questionou pessoas da indústria. “Acho que algumas pessoas estavam bem com isso, outras não estavam muito bem com isso, mas tudo se resume a escolhas pessoais para as famílias que estamos atendendo”, disse Goff. “As pessoas, principalmente no leste de Washington, estão interessadas, mas não necessariamente empolgadas em colocar esforço, promover isso e colocar esse produto em nosso mercado”.

A associação, explicou Goff, é oficialmente neutra em relação a todos os meios oferecidos, desde que sejam legais e os requisitos de licenciamento ofereçam condições equitativas para todos no ramo. “Mas as pessoas estão falando sobre a mudança dos meios de se fazer isso em todo o país e estamos empolgados por estar em um estado que está progredindo. Não houve muita mudança nos últimos 100 anos de serviço funerário. Agora seremos os pioneiros.”

Recompose tem que construir sua primeira instalação. Spade disse que tem procurado em Sodo e espera ter a primeira em funcionamento até 2020, atendendo de 20-25 indivíduos. O Recompose já iniciou conversas com o Departamento de Licenciamento e o Conselho de Funeral e Cemitério do estado.

“Eu estou tão feliz,” disse Spade. “Eu não consigo acreditar que chegamos até aqui, mas aqui estamos.”

(*) Brendan Kiley é repórter de artes e cultura do Seattle Times. Matéria publicada no dia 21 de Maio de 2019. E-mail: bkiley@seattletimes.com. Tradução livre de Sofia Lucena.


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