A Voz do Idoso Hermínia Gaviorno de Aquino

A Sra Hermínia Vago Gaviorno, nasceu no dia 22 de agosto de 1930 em Baunília, Município de Colatina – Norte do Espírito Santo – Filha de Gaviorno Giuseppe (no Brasil José Gaviorno), da província de Alexandria na cidade de Cella Monte – Itália e de Dona Natalia Vago Gaviorno.

Marisa Feriancic

 

Minha mãe era filha de Imigrantes Italianos. Foi uma grande mulher. Teve 11 filhos, criaram-se nove; oito mulheres e um homem. Mamãe cuidava de tudo; da casa, da comida e dos filhos. A roupa era lavada no rio, pois na vila não tinha água encanada. Ela fazia o pão em casa uma vez por semana. Também fazia o macarrão, era chamado “anholine”, hoje capelete. Ela se preocupava muito com nosso futuro. Naquela época não tinha rádio, nem televisão. Ela colocava os filhos pequenos na cama e os maiores, que iam ao colégio, punha na sala, em volta de uma mesa grande, para fazer os deveres de casa e estudar. Só podíamos ir dormir quando acabávamos de estudar. Enquanto a gente estudava, ali mesmo ela costurava. Fazia roupa para toda a família, inclusive para meu pai.

Eu e minhas irmãs, com oito anos tínhamos que aprender a bordar ponto de marca (hoje ponto de cruz). Na época, as toalhas eram feitas de linho ou pano de “saco”. As nossas toalhas de banho eram feitas de “saco”. Não havia tecido felpudo na época. As barras eram lindas, em ponto de cruz, cada menina fazia uma toalha e mamãe fazia o acabamento em amarrado (hoje broilo ou macramé). Para fazer o acabamento, desfiava-se o tecido, enrolava mais ou menos de 10 em 10 fios, com sabão, molhando os dedos, e deixava até o dia seguinte para executar o amarrado. Mamãe tinha que se desdobrar, pois ainda tinha que arranjar tempo para ajudar papai na oficina. Ele era um italiano rígido.

Nós morávamos numa vila chamada Baunília, município de Colatina, cidade próxima ao norte do Estado do Espírito Santo. A casa era simples, porém grande. Meu pai tinha uma oficina, que hoje seria uma fábrica ou indústria. Era pequena e manual, trabalhava sozinho e mamãe ajudava nas tarefas mais leves. Ela lixava, envernizava os móveis, empalhava as cadeiras, colava e amarrava as lâminas de madeira nos moldes dos instrumentos de corda (era amarrado com barbante encerado para não ceder). A oficina e o depósito de madeira eram no meu quintal.

Eu era bem pequena (papai morreu quando eu tinha nove anos), em vez de ir brincar no terreiro em frente da casa, com as colegas e irmãs, eu ia para a oficina com o papai á noite ou de dia. Ajudava papai a tocar o torno. Era tocado com os pés como uma bicicleta. Também ajudava a fazer entalhes com um formão redondo, côncavo. Fazia flores e desenhos em relevo na madeira. Ajudei papai a fazer o entalhe da porta de uma Igreja. Uma das especialidades de papai era fabricar instrumentos musicais de corda. Do rabecão ao cavaquinho, passando pelo violino e bandolim. Fabricava todos. Os móveis que ele fabricava eram simples, para colonos do interior, gente simples; guarda-comida, guarda-louças e guarda-roupas.

Todas as tardes depois do jantar, papai ia pescar numa represa, perto da nossa casa. De vez em quando ele “faxiava”, isto é, caçava rã com lança. Ela adorava carne de rã, mas nós, as meninas, não gostávamos. Até um ano e meio atrás eu ainda tinha a lança que ele “faxiava”. Ainda tenho guardado a linha de amarrar os instrumentos musicais e uma lima que ele usava nos móveis.

Quando chovia, ele se trancava no quarto, onde guardava os instrumentos de corda fabricados por ele e ficava afinando os instrumentos. Só depois de afinados e testados, ele entregava aos clientes. Ele sabia tocar todos instrumentos musicais. Ele tinha uma orquestra em Baunília, só com pessoas da família. Mulheres, homens, todos tocavam instrumentos de corda, eles se apresentaram em João Neiva na visita de Getúlio Vargas.

De vez em quando, aos domingos, ele se embrenhava na mata para colher palmitos e sapucaia (semelhante a uma jaca com alguns cocos dentro). Colhia produtos silvestres que não eram comercializadas, mas que consumíamos muito, porque ele era estrangeiro e sentia falta de tais produtos.

Ele me levava junto, e eu morria de medo de cobra, mas sair com meu pai de vez em quando me dava muita alegria, por isso ele nunca soube dos meus medos. Eu sou muito cuidadosa.A minha infância foi linda e prazerosa. Eu sempre fui muito vaidosa, creio que sou vaidosa nata. Minha vida sempre foi muito poética, vivia romanticamente cada minuto. Contando isso para você, descobri que a minha vaidade, não é vaidade, é uma coisa interior, é felicidade.

Meu pai

Um dia, papai, nos auge dos seus 39 anos e bem com a vida, teve uma gripe que virou pneumonia. Nessa época não existiam antibióticos e após sete dias meu amado pai faleceu. Acabou-se o que era doce. Papai era muito gente, muito civilizado.

Ocorreu uma metamorfose total. Mamãe, com nove filhos pra criar, foi trabalhar na oficina do meu avô Gaviorno. Era numa fazenda ligada a Vila que a gente morava. Na fazenda tinha cultura de café, arroz, milho, feijão, mandioca, etc. Ninguém da família trabalhava na lavoura, ele contratava os meeiros. Vovô e seus dois filhos do segundo casamento trabalhavam só na oficina. Eles fabricavam móveis um pouco mais sofisticados que os do meu pai e também muitos instrumentos de corda para o Brasil inteiro.

Na fazenda tinha beneficiamento de café e o milho moído era transformado em fubá. O local (quitungo) onde se amassava a mandioca era enorme. Depois de amassada, a mandioca se transformava em farinha. Tudo isso era movimentado por uma roda d’água enorme que era desviada do rio por um canal. A fábrica de vovô e todas as outras da região, eram sustentadas por esse sistema elétrico. Era um trabalho enorme, quando se fazia necessário mão de obra, minha mãe ajudava na colheita.

Minha irmã mais velha, que era interna no Colégio do Carmo, com a morte de papai parou de estudar e foi costurar pra ajudar no sustento da casa. A segunda das minhas irmãs, que fugiu do internato, porque não queria estudar, começou a bordar a máquina para ajudar também. Fazia bordados lindos; crivo, richelieu, etc. Eu comecei a bordar com 13 anos para fazer o enxoval da minha professora. Eu era conhecida desde menina pelo meu trabalho. Bordava colchas e almofadas para a mulher de um comerciante próspero. A mulher do comerciante me pagava com cortes de tecido e a professora, me pagava fazendo meus vestidos. Nunca recebi nenhum dinheiro em troca de serviço e mesmo assim sentia orgulho do que fazia.

Os pretendentes

Quando eu tinha ainda 13 anos, a Companhia Vale do Rio Doce começou a construir a nova estrada de ferro Vitória-Minas e contratou uma companhia americana. Era um horror de gente estranha chegando, mas eles moravam em acampamentos na Barrinha, às margens do Rio Doce. Ficava duas horas a pé de onde eu morava. Eles movimentavam as noites e os finais de semana da Vila. Foi assim que conheci Auto de Aquino, ele era intérprete nessa companhia americana a serviço da Vale do Rio Doce.

Nessa época fui embora morar em Patrão Mor, uma Vila bem mais ao norte, na casa da minha irmã mais velha. Ela se casou, o marido tinha uma farmácia. Ela lecionava, costurava e bordava a máquina. Fui morar com eles para ajudar a cuidar de duas sobrinhas. A segunda filha dela era muito doente.

Quando completei 15 anos, começaram a aparecer os pretendentes. Só aparecia pretendente na idade de casar, todos já eram noivos. Meu cunhado ficou numa situação constrangedora. Eu não tinha nada á ver, ignorava totalmente. Eu não queria os rapazes e eles me queriam. As famílias das moças achavam ruim porque se sentiam ameaçadas, poderia tirar o partido delas de lá. Meu cunhado resolveu o problema rapidinho. Levou-me de volta para minha casa, me devolveu a minha mãe.

Na semana que eu cheguei, o Auto de Aquino veio conversar comigo. Ele foi até o quintal da minha tia Teresa, irmã do papai e ali ficou até que eu aparecesse. Conversamos um pouco pela cerca do quintal e ele me falou que iria à noite na minha casa conversar comigo. Contei à mamãe, ele foi falar comigo e ficamos noivos no mesmo dia. Foi no dia 04 de abril de 1946. Eu era uma menina. Casamos no dia 26 de setembro do mesmo ano. O meu marido era filho de um advogado baiano de Itabuna, bisneto de egípcios. Aos nove meses e um dia de casada, tive meu primeiro filho Pedro, aos 16 anos. Logo depois a Companhia foi embora para o Pará, mas ele não foi. Meu sogro estava muito doente em Vitória, e morreu logo depois em junho de 1947. Em Outubro do mesmo ano meu marido foi nomeado Fiscal de Renda da Fazenda.

Saí da casa de minha mãe com o meu filho Pedro com três meses de idade, e fomos morar em Vargem Alta, município de Cachoeiro do Itapemirim, terra de Roberto Carlos. Lá nasceu minha linda filha Auristella. Depois de três anos ele foi para Santa Tereza. Região montanhosa do Espírito Santo. Depois foi morar em Afonso Cláudio, lugar que era um horror.

Por causa dessas transferências meu marido decidiu não levar mais a família para o interior, construiu uma boa casa perto da minha mãe, que também já estava em Vitória. Minha casa era no município de Vila Velha, eu podia fazer tudo, desde que não saísse de casa, aí eu exercitava minha vaidade como podia. Cozinhava muito bem, fazia sobremesas maravilhosas, costurava para minha filha, que era uma verdadeira boneca. Para o meu filho, minha mãe era quem costurava. Eu arrumava muito bem minha casa, sempre tive empregada, até hoje tenho uma faxineira.

Em 1962 meu marido construiu uma casa que era um escândalo, de acordo com os padrões da época. Aqui neste bairro, praia do canto, era o chique do chique, onde moro até hoje. Meus filhos cresceram, já eram adolescentes, tinham suas ocupações e eu comecei a ter mais tempo para mim. Comecei a costurar para fora, fazer colchas de crochê, tortas, doces e salgadas. Minha filha que sempre foi muito habilidosa, me ajudava.

Comecei a viver socialmente, passei a trabalhar em duas igrejas do bairro, em oficinas de caridade e freqüentar grupos da terceira idade. Ia muito ao cinema, estava sempre ocupada.

Em 1971, meu filho se formou em engenharia civil e minha filha em direito. Meu filho me deu dois netos do primeiro casamento, a menina, caçula, se formou em medicina na escola Paulista de Medicina, fez residência em oncologia, casou-se com um médico neurocirurgião e foi para Lisboa há um ano e meio, fazer PHD, parece que não voltam mais. O menino é capitão da polícia militar pelo CFO da UFES, fez Direito e Psicologia, agora está fazendo mestrado, para lecionar em faculdade.

Os medos mudam, a coragem também…

Em 1997, meu filho morreu com 49 anos, com problemas de válvula no coração, Após três meses faleceu meu marido. Ele estava doente há 10 anos, teve seis derrames.

Minha filha, advogada, não trabalha fora. Meu genro é descendente de Sírio, empresário do Comércio. Também me deram dois netos, uma menina e um menino. A menina é fisioterapeuta e casou-se há quatro meses com um engenheiro civil. Mora pertinho de mim e da outra avó. Na esquina da rua onde moro. Meu neto formou-se em direito com 23 anos, fez OAB e com 24 anos já é funcionário do Tribunal de Justiça, passou em primeiro lugar e pretende fazer o concurso para juiz.

Vida organizada 

Sra Hermínia entre seus bordados e bolsas. Na arte observa-se as cores da sua vida.

Estou viúva há nove anos, mas já tinha minha vida organizada no lado social. Não mudou nada, freqüento tudo. Sou muito exigente, saio diariamente, não conheço todo mundo, mas sim meio mundo. Saio todos os dias, às 8:30 da manhã vou ao calçadão da praia que fica a dois quarteirões da minha casa. Chego, tomo banho, vejo se preciso ir ao banco ou comprar material para meus trabalhos. Almoço fora todos os dias, a maioria das vezes na casa da minha filha, pois é tudo muito perto. Volto pra casa, ligo a TV e pego meus trabalhos. Às 16:00 horas tomo um lanche e faço minhas ligações telefônicas. Saio novamente, passo na loja do meu genro, vejo minha filha, a sogra dela e às 19:20 horas vou à missa. Freqüento a missa diariamente. Quando a missa acaba retorno á minha casa, faço um lanche e vou dormir. Minha alimentação é a mais saudável possível, se não veja: tenho 75 anos 1,50 m e peso 49 kg. Me sinto e me acho muito bem, estou satisfeita comigo mesma.

Independência e privacidade

Viver fisicamente sozinha é uma opção. Creio que para mim é o melhor. De uns dois anos pra cá, me apanho pensando em ir ao psiquiatra ou fazer análise, para ver se pelo menos em pensamento aceito a idéia de ter alguém. Mas logo penso no horror que seria ter alguém perto de mim, me tirando toda a privacidade. Não tenho trauma de homem, nem de casamento, sempre fui assim. Por responsabilidade, cumpri todas as minhas obrigações, levei meu casamento até o fim e nunca me senti infeliz, mas repetir a dose, agora que sei como é, de jeito nenhum.

Sou independente demais, auto-suficiente demais para ter qualquer pessoa comigo. Quando quero companhia, vou a reuniões com amigos, viajo etc. Jamais senti solidão. Meu cérebro não é radar, mas a cada dia de minha vida, percorro o universo. Em fui a Belo Horizonte, e depois a São Paulo, cuidar de mim, fazer uns exames de vista. Quando terminei o exame, falei para a doutora: tanto em Belo Horizonte como em São Paulo, apertei 179 vezes o botão para fazer o exame de campo visual.

Segundo Dna. Hermínia, durante todo o tempo usa seu cérebro, até quando está fazendo um exame, para não ficar sem fazer nada contou o número de vezes que apertou o botão, após acender a luz.

Ficaram abismadas porque neste tempo todo de trabalho, nunca ninguém contou, a minha resposta à elas: acha que eu iria ficar com meu cérebro parado esse tempo todo?

Amo a vida e tudo que a cerca, a minha família e meus amigos. Tudo que faço, ensino tudo a todos que manifestam o desejo de aprender. Sinto-me muito bem, creio que minha vaidade faz com que eu me sinta muito bem, muito feliz, alegre, enfim eu sou só amor, e creio que a felicidade tem um nome “HERMÍNIA”.

Tudo que penso sobre o envelhecimento, está em mim, na minha maneira de ser. Costumo dizer que sou velha assumida, mas não estou velha! Se eu não posso ser feliz de um jeito, busco ser feliz do outro, me mantendo, sem traumas.

*Marilda Lopes é psicóloga e mestranda em Gerontologia pela PUC-SP

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