Viver a velhice. Num lar?

Sr. Alfredo, não vai usar gravata aqui dentro. Umas calças simples e uma camisola servem bem. E os olhos do Sr. Alfredo, utente do Lar para a terceira e quarta idades, a ficarem tristes, tristes…

Maria Conceição Brasil * Jornal A União, Portugal

 

Mas continuou com a camisa que lhe aconchegava o coração e a gravata que sempre usara no tempo em que estava vivo…Porque agora, neste época de prisão aconselhada/empurrada pelos filhos, sentia que a sua personalidade e o seu tempo eram controlados por pessoal distraído do que são vidas humanas com direito a liberdade e autonomia. Era esta a razão para não se considerar vivo ali. Viver é ir ao café sem pedir licença a ninguém, conversar horas e horas com amigos, ver e discutir futebol até muito para além do fim do jogo. E ir dormir só quando o sono chama.

Desde que ali chegara, ainda não passara um mês, tinha reparado que os olhares dos inquilinos da casa iam perdendo progressivamente o brilho e o interesse. Como se as lâmpadas que os iluminavam por dentro estivessem prestes a apagar-se. Passavam cada vez mais tempo vagueando sem objectivo. Por vezes adormeciam sentados em frente ao televisor – aparelho que serve para amarrar pessoas inconvenientes que convém ou parece necessário manter imóveis – como se morressem por momentos, enfadados com as telenovelas e outros programas sempre iguais, para mais tarde ressuscitarem com o ruído de algum objecto a cair ou o grito de alguma empregada menos sábia das regras da boa educação.

O Sr. Alfredo, homem habituado a olhar o mundo atentamente e dele desconfiar, decidiu que não ficaria ali por muito mais tempo. Pelo que resolveu rever um pouco do que julgava saber sobre amigos e conhecidos que também para ali tinham vindo, ainda sãos do espírito, do corpo e da mente e que, repentinamente, acamaram e morreram.

A pesquisa não ia ser fácil. Como foi afirmado, a autonomia naquele Centro de cuidados a idosos era pouca, muito pouca. Compreendeu que havia uma brecha no sistema – os visitantes. Conversa daqui, conversa dali foi registando os tempos médios de permanência na Instituição, com saúde física e mental e mobilidade fácil ou no mínimo razoável, dos que lá estavam e dos que iam chegando. E, também, a maior ou menor rapidez com que eram levados definitivamente para os quartos sem que a ninguém fossem dadas explicações assentes em dados credíveis para mentes habituadas a não se contentarem com frases curtas para responder a questões que pedem muita ponderação.

As conclusões a que chegou não foram agradáveis. Mas, apesar de ter afirmado a si próprio que não iria permanecer ali muito mais tempo, compreendeu, também, que deixar tantos seres humanos ainda válidos a viver/não viver um tempo tão bonito como é o da idade da reforma fechados numa casa sem mais projectos do que um jogo de cartas ou um crochet sem finalidade definida seria como abandonar amigos feridos em campo de batalha sem lhes prestar auxílio.

Começou por pedir a um amigo que lhe trouxesse a viola, sua antiga companheira dos tempos de casamento e felicidade. E principiou a tocar baixinho melodias doces e amigas. Não podia assustar a tristeza que ali se tinha instalado. Mas podia afastá-la devagarinho, como quem embala um bebé. Muitos não o olharam e fingiram não ouvir aquela música boa e saudável que aquecia os corações. Pareciam fechados à alegria. Outros acompanharam aqueles sons marcando o ritmo com os pés. E o ar do campo e da vida penetrou por todos os poros da casa a querer plantar flores onde até aí elas não existiam, a encher almas de sopros de vida e de luz. Nos andares superiores, vozes entarameladas por medicamentos em excesso “para acalmar humores”, pediam para assistir chamando por alguém que os ajudasse a descer aquelas escadas que os privavam de tempo útil e da nova vida que ali se começava a desenhar.

Assim, pelo coração de um homem bom conseguiu-se que o milagre da vida transformasse um deserto num magnífico jardim.

*Maria Conceição Brasil (mcbrasil2005@hotmail.com) escreveu para o jornal A União (online), no dia 23 de Novembro de 2011. Disponível Aqui

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