“Viver muito cansa, e como cansa!”

Um olhar da Psicogerontologia para a velhice prolongada, pois ter 100 anos é não reconhecer o mundo como seu e viver muito cansa.

Margherita de Cassia Mizan (*)

 

As diferentes ciências sempre buscaram conhecer o homem em seus múltiplos aspectos, sendo a psicologia uma destas ciências. Isto não é diferente nos dias de hoje, em que o envelhecimento da sociedade é uma realidade que não podemos negar, nem tampouco deixar de observar os impactos que este fenômeno tem para o homem, principalmente na sua subjetividade. As relações, os papeis sociais, os preconceitos, as dificuldades vividas nesta fase do ciclo vital, as possibilidades ainda desconhecidas e a proximidade com a morte são apenas alguns dos momentos vividos pelo sujeito contemporâneo que vive nos grandes centros urbanos.

A Gerontologia, como ciência que estuda a velhice e o processo de envelhecimento, e seu impacto na sociedade, não poderia deixar de buscar o olhar para a subjetividade dos que envelhecem, apoiando-se na psicologia.

Entendemos por subjetividade o universo psíquico do indivíduo, onde transitam suas emoções, sentimentos, pensamentos, ideias e experiências adquiridas. Estas sofrem influência direta da cultura, religião, crenças, valores e conceitos assimilados ao longo de nossas vidas. Sendo a psicologia a ciência que estuda e busca compreender o homem a partir desta complexa rede; a psicogerontologia, um de seus braços, é sua base para a compreensão dos fenômenos psíquicos que resultam de uma existência longa, muitas vezes acompanhada por limitações e perdas características das velhices avançadas.

O que podemos perceber nos discursos contemporâneos sobre a velhice é que viver muito está intimamente ligado a satisfação da humanidade, que por meio das suas conquistas sociais conseguiu vencer a natureza, prolongando a vida do homem.

Nem sempre a longevidade vem acompanhada de romantismo e glamour

Trabalhei por 14 anos em uma instituição de longa permanência para idosos (ILPI) e há seis anos trabalho com gestão de cuidados a idosos frágeis, ou seja, são 20 anos trabalhando com idosos e suas fragilidades. Isto me fez ver que nem sempre a longevidade vem acompanhada de romantismo e glamour que a sociedade e a mídia tentam nos vender quando assistimos idosos de 90, 100 anos, como se fossem superidosos, tatuados, lançando-se em aventuras e em intensas vivências afetivas.

Para mostrar uma das faces da velhice longeva, vou contar a vocês um dos muitos episódios que vivi ao longo destes anos na ILPI. Uma das moradoras da instituição, onde trabalhava, estava comemorando seu 100º aniversário, e todos da instituição preparamos uma festa com bolo, balões, presentes e muitos convidados. Naquele dia, quando toda a festa já pronta esperando sua homenageada, fui convocada para ir ao seu quarto buscá-la. Cheguei diante da porta e bati, pedindo licença para entrar calmamente. Chamei-a pelo nome e lhe disse que todos estávamos muito felizes em comemorar seus 100 anos, que pareceu na época ser um ganho e uma satisfação para todos nós, mas que para ela, para minha surpresa, não era percebido desta forma.

Esta senhora, de 100 anos, que aparentemente não demostrava nenhuma limitação funcional ou cognitiva, virou-se e com sua sabedoria de quem muito viveu disse:

– “Você sabe o que é ter 100 anos?”

Eu, na minha ignorância diante do que vivia, disse:

– “não sei”.

Ela então disse:

– “Então vou lhe dizer, ter 100 anos é não reconhecer o mundo como seu, é não ter mais amigos que viveram momentos felizes e tristes junto, porque muitos já se foram, é não ter mais forças suficientes para entender as pessoas e o mundo como foi na juventude”.

Depois pediu que eu saísse e que não queria festa alguma, pois o que gostaria mesmo é de encerrar sua existência e descansar para sempre. E, finalizando sua fala disse:

– “viver muito cansa, e como cansa”.

Depois disto entendi que viver muito para nós que ainda somos jovens está envolto em uma fantasia de prazer, mas que para os velhos pode ser algo difícil e cansativo. Claro que tive outras vivências de idosos muito idosos, com 100 anos ou mais que estiveram plenos até o fim e que apesar disto diziam como a aniversariante da história, ser cansativo a longa trajetória da vida.

O processo de envelhecimento é um caminho diferente para cada um de nós, apesar de vivenciamos alguns aspectos que podem ser comuns na velhice, tais como os cabelos brancos, as rugas, a perda da força física, a aposentadoria e, finalmente, a morte. Este momento apresenta diferentes dimensões para cada sujeito, podendo ser suave para alguns e para outros uma trajetória árdua e difícil. Estas transformações, que prefiro nomear como mutações, são vividas por cada um de forma diferente, gerando sentimentos e sensações únicas. Somos então mutantes que vivenciam a velhice de forma única, mantendo uma relação com nosso corpo e subjetividade.

Nossa história não nos remete a uma velhice com perdas funcionais físicas ou cognitivas, mas de uma percepção da vida e do que ela pode oferecer permeada por sofrimento e angústia diante do vazio e solidão que pode ser a velhice. Estes são aspectos subjetivos da existência resultado de uma vida longeva. Diante disto, o olhar da psicogerontologia para o homem e a velhice contemporânea se faz necessário, com objetivo de acolher e compreender as dificuldades e sofrimentos vividos pelos velhos.

Questões como a de que a velhice, assim como as marcas que caracterizam este momento singular da vida, é a prova da destruição do corpo, da finitude que negamos ao longo da vida. Talvez a velhice seja um dos momentos em que a ciência deve considerar o sujeito e não a doença, ou seja, valorizar menos o corpo e mais o sujeito que habita esse corpo.

 

(*) Margherita de Cassia Mizan – Psicóloga, Gerontologa pelo Hospital Israelita Albert Einstein, Mestre em Gerontologia pela PUC- SP. CEO da empresa Senior Services – www.seniorservices.com.br. Facebook M&C SeniorServices / Instagran senior.services. E-mail: mcassia@seniorservices.com.br

 

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