Viver à toa?

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A curiosidade infantil diante dos mistérios da vida é algo que me intriga e encanta ao mesmo tempo. Meu filho mais velho me perguntou um dia desses:

Isabella Quadros *

 

viver-a-toa– “Mãe, se você soubesse que ia viver 124 anos, trabalharia até quantos anos?”

Eu, surpreendida com a pergunta, respondi quase de imediato que trabalharia até uns 110 anos. Ele ficou em silêncio por alguns segundos e retrucou:

– “Que bom! Você ainda teria uns 14 anos pra viver à toa!”

O diálogo acabou por aí, era noite, hora de dormir (suspeito que eles escolhem a dedo esses momentos para lançar as questões mais capciosas!) mas continuei pensando na sua conclusão: Será possível viver à toa?

Considerando minha trajetória até aqui – 40 anos de estrada – confesso ter passado, e ainda vivenciar com frequência, momentos que apelidei de “fases de incubadora”, onde fecho pra balanço e cujos passos dados são, propositalmente, mais curtos e vagarosos. Acredito que fico lenta para compensar a movimentação dentro de mim que, nestas fases, é incessante, acontece aos turbilhões e exige uma escuta interna de emoções e sensações variadas.

Como desejar o ócio quando o próprio desejo e a realidade estão distantes por um abismo? Como desejar quando a intimidade com sensações e sentimentos foi perdida? Para completar, o ócio virou tabu em uma sociedade que valoriza muito mais o que produzimos do que o que somos…

Enquanto refletia, me recordei do questionamento de um paciente que fez 70 anos há pouco e busca um sentido para sua vida pós aposentadoria com auxílio do processo terapêutico: “Nos planejamos para esta fase de que forma? Para viver com dignidade através da independência financeira ou para viver feliz o tempo que nos sobra?” Isso mesmo, ele se referiu ao tempo que nos sobra e não o tempo que nos resta! Afinal, vivemos cada vez mais e ainda não estamos preparados para este acontecimento, para passarmos tantos anos a mais sem “produzir”!

Será que esta dúvida existiria se estivéssemos mais próximos dos nossos quereres em detrimento dos nossos deveres? Afinal, a quem será que nossos projetos de vida pretendem contentar?

Enxergo nesta dinâmica, o rótulo de um produto que se torna “confiável” no decorrer do tempo vivido, mas cujo conteúdo foi sendo esquecido em detrimento da valorização deste mesmo rótulo. Neste contexto, o inédito da vida se faz presente através de lutos ou aposentadorias que nos empurram para um vazio sem nenhuma perspectiva de continuidade. Um vazio de nós mesmos já que o superficial não resiste ao tempo, às rugas, às transformações na imagem e no “rótulo” tão festejado!

É fato que não conseguimos resolver todas as nossas inseguranças mas percebê-las como aliadas pode nos impulsionar para além de nós mesmos e tornar-se uma grande saída para um mergulho mais profundo e que propicie o surgimento de novos e preciosos conteúdos.

A imaginação e o desejo são “saídas de emergência” providenciais nesta roda viva promovendo o descontentamento com o cardápio de sempre, não permitindo que nos conformemos com a mesmice e nos desafiando a trilhar caminhos desconhecidos onde podemos nos descobrir sem a necessidade de rótulos. E por que não?

Pois é, até para se viver à toa, é preciso cultivar significados que nos permitam suportar as incertezas da vida e dos caminhos. O ócio, desejo tão natural na imaginação do meu filho, deveria ser cultivado desde a infância e marcado com cores bem vibrantes em nossas agendas como um compromisso inadiável para ser desfrutado no presente e em qualquer idade. A vida é agora ou nunca!

* Isabella Quadros é psicóloga e mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Colaboradora do Portal. E-mail: [email protected]

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