Vivências na Gerontologia: Desafios, perspectivas e desenvolvimento

Em minhas vivências, atuo com população adulta em situação de rua, e grande parte dela se constitui por idosos que enfrentam o mesmo processo de vida que eu vivenciei com a minha vó: desafios, lutas, descobertas, doença, finitude.

Milka Santos Custódio (*)

 

O meu primeiro contato com a Gerontologia na prática se fez através da vivência com a minha avó. Até os meus nove anos de idade, vivemos na mesma casa no interior de São Paulo e durante toda a sua vida ela pode transmitir a ideia de zelo pelas relações familiares, luta durante a vida e cuidado para com o próximo.

Foto: Dario Valenzuela

Assim, enquanto criança a minha concepção de pessoa idosa se concentrava essencialmente na visão e na convivência da qual eu compartilhava com a minha vó. Neste sentido, acompanhava o viver de uma Senhora que se casou um pouco tarde para o seu tempo (29 anos), teve dois filhos dos quais viveu o processo de morte de um deles ainda criança, quando ela já não podia contar com o apoio do seu marido que também havia falecido anteriormente por problemas de saúde.

Viveu sozinha em meio a muitas dificuldades, na profissão de costureira para criar o filho que a acompanhava.

Quando criança, contei com o apoio dela para praticamente tudo. Sempre significou realmente uma segunda mãe para minha vida. Sendo assim, compartilhávamos histórias, das quais ela se interessava em ouvir sobre o meu mundo infantil e eu adorava investigar toda a árvore genealógica da qual fazemos parte, além de ouvir as histórias da cultura mineira da qual ela pertenceu. A relação de respeito e admiração sempre foi evidente na nossa relação.

A percepção de vínculo, cuidados, respeito pelo próximo, sempre foi brilhantemente lapidado nesta fase. Na minha idade adulta e de acordo com o olhar dela, esta relação passou por um processo de inversão; onde ela dizia que eu passei a representar como uma mãe, quando ela ansiava por cuidados devido à fragilidade da idade associados aos problemas de saúde.

Senti-me honrada em cada instante que me foi possível trocar experiências com a minha avó. Independente dos papeis, aprendemos mutuamente até o último instante de vida dela. As suas mãos enrugadas, os seus cabelos brancos e a aparência franzina foram, para mim, como a minha vitalidade representava para ela: vida. Essencialmente vida.

Vida esta, que passa por estágios e não menos importante, a velhice deve ser um deles onde a pessoa deve contar com a dignidade de quem já contribuiu tanto ao longo da história. É evidente que desde o minuto de vida, passamos pelo processo de envelhecimento, no entanto com o desgaste do corpo e as marcas da vida, isso se torna ainda mais evidente como consequência de uma proximidade de doença, sofrimento e brevidade da existência.

Atualmente em meu cotidiano de trabalho como Assistente Social, atuo com população adulta em situação de rua, e grande parte dela, se constitui por idosos que enfrentam o mesmo processo de vida que eu vivenciei com a minha vó: lutas, descobertas, doença, finitude. No entanto, estão em um contexto um pouco diferente onde os vínculos familiares são em sua grande maioria inexistentes e devido ao fato de serem incapazes financeiramente até mesmo de custearem um local para morar, se deparam em situação de rua em um centro de acolhida.

A partir daí, o idoso se vê assistido por uma equipe da qual ele necessita criar vínculos dos quais ele talvez nunca os tenha vivido em seu processo de vida; vínculos com pessoas até então desconhecidas, que conhecerão as suas fragilidades e, ainda assim, talvez nem mesmo as compreenda conforme as suas expectativas.

Desta forma, me deparo com um novo desafio de vida, onde a minha vivência traz à tona alguns “insights” de experiências anteriores, mas em contrapartida trata-se de um ser totalmente novo que demanda a minha intervenção profissional a partir de uma vivência totalmente desconhecida ao meu olhar.

Percursos

A partir daí, nasce o meu anseio em descobrir o universo teórico e metodológico da Gerontologia. Durante este percurso em meio às descobertas, trilhei um caminho de lembranças, surpresas, admiração e ainda mais curiosidade.

A possibilidade de compreender o processo de envelhecimento e a velhice na contemporaneidade oportuniza aos profissionais, novos instrumentais de atuação frente a esta demanda.

Paralelo a isso, reflito que da época em que eu vivenciei o processo efetivo de envelhecimento em minhas experiências até a atualidade, muitas mudanças ocorreram; social, econômico, cultural e tecnologicamente. O conhecimento relacionado a isso é fundamentalmente importante para o trabalho com esse público que traz inúmeros questionamentos para este tipo de atendimento.

O processo de envelhecimento desde sempre está relacionado à decadência da vitalidade do corpo e desta forma, do individuo em sua singularidade, significando, assim, a sua desvalorização enquanto sujeito na medida em que este se distancia das atividades sociais de trabalho, produtividade e relações sociais.

Em Tentativas de Fazer algo da Vida, o personagem Hendrik Groen se esforça por uma visão engraçada para descrever a sua trajetória em seu diário durante anos de vivência em uma casa de repouso. Assim, em uma de suas reflexões acerca dos desafios ao longo da vida ele expõe sobre a falta de estímulo no ambiente para o idoso:

Quando se é jovem, a gente deseja ser mais velho. Quando adulto, até os sessenta, desejamos permanecer jovens. Quando se é velho mesmo, já não há nenhum objetivo a alcançar. Essa é a essência do vazio da existência aqui. Já não existem objetivos. Nenhuma prova da qual passar, nenhuma carreira para seguir, nenhum filho para criar. Já estamos velhos demais até para cuidar dos netos.” (GROEN, 2016, p.138)

Desta forma, entende-se que o estereótipo do idoso remete ainda ao sujeito incapaz de participar efetivamente das relações e inclusive das decisões muitas vezes sobre a sua própria vida.

Tragicamente a isso, a sua participação se torna enfraquecida e limitada nas relações sociais e desta forma, nos deparamos com idosos cada vez mais adoecidos e fragilizados.

Se por um lado, fui capaz de ofertar cuidados a minha vó até o seu processo de finitude, atualmente um dos grandes questionamentos se direciona ao fato de que provavelmente muitas pessoas não terão este suporte por parte de filhos, netos e outros familiares simplesmente pela inexistência destes.

Em meu trabalho com população idosa em situação de rua, deparo-me com pessoas que nunca tiveram filhos e algumas delas não possuem nem mesmo familiares vivos. Ou se ainda os possui, não mantém vínculo com os mesmos.

O contexto do país, também aponta para outra questão preocupante relacionada à previdência social, no qual remete a vários questionamentos com relação a situação financeira principalmente destes a quem não pode contar com apoio familiar, nem por parte do Estado para sua manutenção de vida. Este é um dos fatores dos quais é alarmante o número de idosos em situação de rua atualmente.

O processo de envelhecimento dentro das suas condicionalidades abre vários desafios para a sociedade em geral, que fatalmente envelhecerá numa proporção alarmante. Concomitante a isso, através do olhar multidisciplinar ao público idoso, é possível reconhecer e traçar novas possibilidades para este atendimento.

No Centro de Acolhida, reconheço como sendo essencial o atendimento multidisciplinar entre Assistentes Sociais e Psicólogos conforme a proposta do serviço. Através daí, é possível construir propostas de atuação junto com o sujeito onde ele é protagonista da sua história e não meramente quem busca auxílio dentro de uma Política de garantia de Direito.

Neste sentido, o apoio mútuo dentro da rede de serviços sócio assistenciais, tem por objetivo a qualidade na atuação da qual é possível oferecer e questionar sobre dignidade à pessoa idosa.

A aproximação destas ideias proporcionou ao Universo da Gerontologia, pensar em novos temas tais como, a Bioética no envelhecimento. Desta forma, abre-se um leque de atuações em busca da ética dentro do atendimento ao indivíduo.

Construir a atenção ao idoso pautado na ética e no seu reconhecimento de tomada de decisões até mesmo em seu processo de terminalidade trouxe um grande impacto para o meu aprendizado e processo de desenvolvimento teórico. Pensar na morte como um destino inevitável é natural, no entanto pensar no cuidado aos que não podem contar com a cura e está iminentemente neste processo de finitude, é enriquecedor para a vida humana.

Lembro-me do quanto foi importante para minha vó poder contar comigo e meu irmão no processo do qual a levava para o destino de morte após período de internação hospitalar. Talvez não tenha sido o medo propriamente dito da morte o que lhe assombrava, mas refletir quanto à possibilidade de encarar este momento frente à solidão ou ausência de alguém para lhe cuidar, remetia ao terror nesta passagem da vida.

Análogo a isso, nota-se que o apoio ao indivíduo que enfrenta esta situação de encerrar uma existência rumo a um destino desconhecido, torna-se fundamental para amenizar o seu sofrimento. Considero, ainda, uma experiência impactante aos que compartilham deste momento, e proporcionalmente enriquecedora tendo em vista o universo de empatia do qual a isso se remete.

Este foi um tema dentro do curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, ofertado pelo COGEAE/PUC-SP, do qual aguçou a minha curiosidade e certamente significou uma descoberta na busca por novos caminhos de aprendizagem.

A partir do módulo Atendimento Gerontológico às Velhices Fragilizadas, foi possível atentar sobre a singularidade do indivíduo nesta etapa da vida, onde muitas vezes ele não se vê neste contexto social enquanto sujeito.

Com o avanço da tecnologia, muitos deles sentem-se excluídos do mundo atual, e mesmo os que podem contar com a companhia da família, muitas vezes disputam esta atenção entre smartphones, jogos, redes sociais, – dentre outras ferramentas das quais ele muitas vezes não acompanhou ao longo do seu desenvolvimento.

Temas como a sexualidade, mudanças de comportamentos em geral, e decisões adversas ao que mantinham enquanto mais jovem, são revistos com estranhamento aos que convivem com a pessoa idosa.

De maneira divertida, a leitura sobre as experiências de um idoso de 78 anos que se muda para um prédio cheio de anciãos em “Te Vendo um Cachorro”, aborda questões análogas as que geralmente são abordadas no mundo do envelhecer atual. Assim, durante uma de suas aventuras, Téo (o personagem da narrativa) se vê incrédulo ao perceber que as pessoas não o tratam com credibilidade apesar de suas ideias, desejos e vontades devido a sua idade avançada. Uma das suas reflexões se destaca:

é uma das vantagens inegáveis de chegar a esta idade: a maioria das pessoas acaba ficando com pena dos velhinhos, mesmo quando não merecem. Dá vontade de virar um serial killer”. (VILLALOBOS, 2015, p. 62.)

Apesar de tratar-se de um desabafo de alguém das histórias literárias, o não reconhecimento ou a desvalorização da personalidade idosa nas relações sociais, é de fato um espaço a ser desenvolvido para que se construa uma atuação pautada no respeito e autonomia participativa do indivíduo. Muitos são excluídos do cenário das relações sociais simplesmente por não se identificarem como protagonistas em seu próprio tempo.

Discutimos, ainda, ao longo do curso, sobre como atualmente as pessoas tentam evitar a velhice na ânsia por preservar uma imagem de juventude, tão valorizada pela sociedade. Certamente, para sentirem-se pertencentes a este cenário atual do qual constrói e descontrói tantos estereótipos ao indivíduo que insiste em se descobrir também nesta fase tardia.

Em meio a tantas vivências de lutas, perdas, limitações, um fato é inegável: estamos igualmente em processo de aprendizado até o último instante de vida. Independente da aparência e limitação do corpo, nossa essência evolui de alguma maneira, e inevitavelmente talvez o maior presente do qual compartilhamos nesta e quem sabe outras existências, seja o aprendizado do qual exige a empatia, a compaixão, a entrega, o sacrifício dentre outros atributos que desenvolvemos com o próximo.

A idade, não é o que importa tampouco a aparência. Devemos investir na valorização do ser humano e, sobretudo da vida para que saibamos passar por todas as fases da existência com dignidade. Apesar de aparentemente contraditório, desafio-me a refletir sobre uma ideia do escritor Herman sobre o seu enfrentamento diante da velhice, onde assim como o citado anteriormente pelo personagem Téo, possui um teor de divertimento e indagação:

Com a maturidade, nos tornamos cada vez mais jovens. Isso também acontece comigo, embora não queira dizer muito, uma vez que no fundo, sempre tive a mesma disposição da mocidade, encarando a idade adulta e a velhice como uma espécie de comédia.” (HERMAN, 1877-1962, p. 44)

Apesar de todos os estereótipos dos quais convivemos e tentamos separar o que é do velho, o que é propriamente da juventude, o que se sobressai é o fato de a vida ser a mesma. Apenas em estações diferentes.

Tudo fará a diferença a partir de como será a paisagem da qual compartilharemos por este caminho.

Referências
Groen, H. (2016). Tentativas de fazer algo da vida. São Paulo: Editora Planeta do Brasil LTDA.
Hesse, H. (2018). Com a maturidade, fica-se mais jovem. Rio de Janeiro: Editora Record.
Villalobos, J. P. (2015). Te Vendo um Cachorro. São Paulo: Companhia das Letras.

(*) Milka Santos Custódio – Assistente Social no Centro Temporário de Acolhimento Butantã (CROPH). Texto escrito no curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, ofertado pelo COGEAE/PUC-SP no primeiro semestre de 2018 e coordenado pela profa. Dra. Beltrina Côrte. E-mail: milka374@gmail.com

Foto de destaque de Daniel van den Berg, Paris

 

 

 

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