“Visitando Sr. Green”, uma amizade improvável

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A peça “Visitando Sr. Green”, trata, principalmente, da inesperada relação intergeracional estabelecida entre Sr. Green, um idoso judeu com temperamento difícil, e Ross Gardner, jovem empresário homossexual.

Lara Nogueira Caldas (*)


Ross Gardner, jovem empresário homossexual, é acusado de negligência na direção de seu veículo e considerado culpado pelo pequeno acidente ou atropelamento que causou a Sr. Green, um idoso judeu com temperamento difícil. Dessa forma, o empresário é obrigado a prestar serviço comunitário, visitando a vítima uma vez por semana por 6 meses. Nesse tempo, passam a se envolver em situações inusitadas, realizações e contradições, o que os leva a criar vínculo e uma amizade improvável. Esta é a trama da  peça Visitando Sr. Green, de Jeff Baron (1980), conduzida por diálogos e conflitos intergeracionais cheios de humor e profunda emoção.

Senhor Green é um personagem octogenário, judeu ortodoxo, de vida monótona e sozinho, sendo esta outra questão muito comum que tange o tema da velhice, a solidão, além da questão do isolamento. Sente falta da esposa, já falecida, enfrentando o luto e sua proximidade com a finitude.  Além disso, é fechado no seu próprio universo, não se abre para a família, nem para vizinhos, nem para o mundo. Portanto, é isolado, não troca mais experiências com as pessoas ao seu redor. É cheio de certezas e costumes surpreendentemente cruéis.

Vive uma transição entre a pré-senilidade e uma assustadora lucidez preconceituosa, talvez típica da sua geração. “Essas são as regras”, diz senhor Green, acreditando que sempre foram assim e assim devem seguir sendo, de acordo com sua religião e cultura judaica. Valores obsoletos, modo obsoleto de ver o mundo o acompanham na sua velhice, bem como a conhecida “rabugice”, temperamento altamente referido pelo senso comum como típico da idade. Tudo isso reforça certos estereótipos relativos aos idosos, como conservadores e como aqueles que sabem de tudo.

É interessante perceber a montagem do cenário no velho apartamento do Sr. Green, tipicamente nova-iorquino, cheio de inúmeras edições de listas telefônicas já em desuso, jornais e pilhas de correspondências espalhados e um buquê de flores secas. Tudo parece ter sido adquirido nos anos 50 e mantido intocável desde então, o que já coloca um certo estereótipo de sua idade, uma certa ideia de “coisas de velho”. A dificuldade de se livrar de pertences antigos, de se organizar e modernizar sozinho.

Ross, por sua vez, é um rapaz jovem que apresenta inúmeras qualidades, mas se vê incomodado ao ser obrigado a perder seu tempo com um “velho”, dada a decisão judicial. Nem sempre tem paciência de explicar certas coisas para ele, como se, por ser velho, fosse mais difícil dele aprender qualquer coisa. O chama de “velho teimoso”. O empresário parece ser tudo que a sociedade espera de um executivo, mas se mistura a uma figura reprimida e que vive o conflito interno de não poder expressar tudo que ele realmente sente e é. Ele próprio é vítima de opressão, da não aceitação da família de sua homossexualidade.

Conforme a relação vai se estreitando, eles descobrem pontos em comum. Até que um acontecimento, muda tudo. Ross confessa em uma conversa ser homossexual ao que o Senhor Green responde, espantado e furioso: “O quê?! Não existe judeu viado!” e vai se deitar para evitar o assunto, para ele tão indesejado. Nesse momento, Ross sacode as poeiras das certezas de senhor Green, ao mesmo tempo que se estabelece essa divergência que parece quase intransponível. Aqui, fica claro o conflito intergeracional e a intolerância sexual, que parte da aparente justificativa de uma certa religião, nesse caso, a judaica. Porém, depois de alguns conflitos, passam a vislumbrar caminhos de convivência e aceitação a partir do “exercício de aceitar de coração o diferente”, diz o ator Sérgio Mamberti, que interpreta Sr. Green no teatro. Sr. Green, portanto, passa pela experiência de ter que se reaver com seus ideais e cada um vai se tornando quem realmente é, através da influência de um desconhecido.

A peça em diálogo com a teoria

De acordo com Kimi Tomizaki, professora de sociologia na faculdade de educação da USP:

A noção de geração é marcada por uma multiplicidade de sentidos que remetem à amplitude que tal conceito pode assumir no âmbito dos estudos da área: de gerações históricas e políticas às gerações estritamente familiares, por exemplo. Em todos os casos, de modo sumário, o que define um conjunto geracional são as experiências comuns capazes de criar laços (profundos) entre determinados indivíduos que se sentem irremediavelmente ligados por um destino comum, o que se desdobra em uma dada forma de conceber o mundo e seu lugar nele.”

Nessa definição, ela ainda acrescenta a ideia de que essas experiências comuns estão inseridas em certa conjuntura política, social, econômica e a posição ocupada por certos grupos e indivíduos na sociedade. Portanto, são atravessadas por diversas questões que envolvem certas estruturas, bem como épocas em que os direitos são mais restritos ou mais amplamente conquistados, o que forma quadros de percepção e avaliação da realidade.

Ou seja, a autora diz que o acesso ou a negação a determinados direitos são a base da definição dos modos de pensar e agir das gerações, pois determinam as possibilidades individuais, familiares e coletivas presentes e futuras. A autora também afirma que, em períodos nos quais se acelera a retirada de alguns direitos a certos grupos ou indivíduos, gerando desigualdade, haverá mais dificuldade de se estabelecer laços e ocorrem maiores disputas e ressentimentos entre grupos.

O autor José Carlos Ferrigno, em uma breve reflexão acerca das relações intergeracionais, conversa com as afirmações da autora quando afirma que:

É preciso lembrar que as dificuldades do diálogo intergeracional devem ser compreendidas no contexto maior das relações humanas no mundo em que vivemos. Portanto, em última instância, o bom convívio entre pais e filhos, avós e netos, velhos e moços dentro e fora da família depende da transformação radical das estruturas econômicas e de suas superestruturas políticas.”

E ainda sugere que a aproximação entre pessoas marcadas pela diferença (nesse caso, etária) deve ter, como primeiro passo, fazer com que se familiarizem umas com as outras. Sendo o grau máximo do processo a valorização dessa diferença a partir da ideia de uma complementação, de uma compreensão da falta daquilo em uma das partes, o que geraria interesse e o desenvolvimento de uma admiração mútua.

Quando duas culturas se defrontam, não como predador e presa, mas como diferentes formas de existir, uma é para a outra como uma revelação”. (BOSI, 2003, p. 175).

Dessa forma, é possível observar situações que conversam com ambos autores.

Pensando no que Kimi Tomizaki traz sobre as gerações, Senhor Green representa a geração conservadora, que viveu grande parte da vida em contextos em que certos direitos não eram garantidos e, muito menos, discutidos, questionados na sua cultura, religião e talvez até família, como a questão da homossexualidade. Ross, por sua vez, faz parte de uma geração em que certas discussões nesse campo da sexualidade, já acontecem e alguns direitos já foram conquistados. Mas, ao mesmo tempo, sua família (de gerações anteriores) não converge com esses valores e discussões, bem como senhor Green, ambos demonstrando preconceitos e dificuldades de estabelecer laços e compreensão.

Isso demonstra o atravessamento político e social dos valores de cada indivíduo e de cada família transmitidos de geração para geração, mas que se modificam dado contextos e grupos aos quais se faz parte em uma sociedade e em determinadas épocas. Portanto, o conflito ocorre pela diferença de expectativas que cada personagem tem das pessoas e do mundo, dados os contextos sociais e políticos e econômicos em que cada um viveu maior parte da vida: de um lado a expectativa conservadora de um certo padrão e do outro a expectativa de manifestar desejos e ser aceito.

Por fim, para relacionar com as afirmações de José Carlos Ferrigno, apesar do conflito vivido pelos personagens, ambos passam a se familiarizar com suas diferenças e aprendendo a conviver com elas de forma a aprenderem juntos a partir dessa falta que cada um tem, surgindo a compreensão e respeito. 

Bibliografia
BOSI, Ecleia. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo:
Ateliê Editorial, 2003.
FERRIGNO, José Carlos. Breve reflexão sobre a intergeracionalidade na pesquisa científica. Portal do envelhecimento. Fev 2019.
TOMIZAKI, Kimi. Entre velhos e jovens: conflitos geracionais e ressentimento. Jornal da USP, março de 2018.

(*) Lara Nogueira Caldas – Aluna do 5º período da graduação do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Trabalho escrito na disciplina “Velhos nas peças de teatro”, ministrada pela profa. Ruth Gelehrter da Costa Lopes, que teve como proposta analisar como o teatro oferece farto material sobre o processo de envelhecimento contemporâneo. Email: lara.nogc@gmail.com


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