Virei um cuidador familiar: e agora?

Muitas pessoas viram cuidador familiar por vários motivos: cuidar dos seus filhos, cuidar de seus irmãos, cuidar de seus pais que envelheceram e precisam de alguns cuidados.

Janio de Oliveira (*)

 

Tudo que existe e vive precisa ser cuidado para continuar existindo. Uma planta, uma criança, um idoso, o planeta Terra. Tudo o que vive precisa ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa ser continuamente alimentado. O cuidado vive do amor, da ternura, da carícia, e da convivência”. (BOFF,1999)

No dicionário online português, observamos que há muitos significado de Cuidado, a saber:

a) como substantivo masculino é considerado “Demonstração de atenção; em que há cautela, prudência: cuidado ao atravessar esta rua!”, “Aplicação e capricho ao realizar algo; zelo, esmero: trabalhava com cuidado”, “Atenção maior em relação a; preocupação: ele necessita de cuidados”, “Dever de arcar com seus próprios comportamentos ou com as ações de outrem; responsabilidade: cuidados médicos”.

Por extensão, o que é alvo dessa responsabilidade: “eles estão sob seus cuidados”.

b) Como adjetivo, encontramos o seguinte: “Muito bem-feito; em que há primor, capricho; aprimorado: trabalho cuidado”, “Sobre aquilo que se pensa em excesso; ponderado: análise bem cuidada”, “Que foi previsto; muito ponderado; cuidadoso: teve uma intenção cuidada”, “Que foi ou tem sido alvo de um algum tipo de tratamento especial; tratado: criança bem cuidada; cão mal cuidado”.

c) Como interjeição: “Expressão de cautela e prudência: o cão está solto! Cuidado!”, “Etimologia (origem da palavra cuidado). Do latim cogitatus.a.um”.

Partindo da constatação da ambiguidade do ser humano, explicitada por Boff na epígrafe inicial deste artigo, e tomando como contribuição a literalidade do dicionário, vemos a complexidade da interpretação da palavra cuidado, quando estamos diante de uma nova rotina estabelecida dentro do seu lar com seus entes queridos.

Quando nos deparamos com uma patologia adquirida, sendo ela no seu filho, na sua irmã, na sua mãe, ou seja, em qualquer pessoa, e que a partir de agora terá que ter cuidados específicos, a primeira pergunta que nos vem é: E AGORA?

Muitas pessoas se tornam cuidadores familiares por vários motivos: se tornam pais e tem que cuidar dos seus filhos, se tornam irmãos mais velhos e tem que cuidar de seus irmãos e se tornam responsáveis pelos seus pais que envelheceram e naturalmente precisam de alguns cuidados.

Aos pais ou responsáveis por uma criança cabe a obrigação de prover seu sustento, condições dignas de sobrevivência, segurança e também a instrução, até atingir a maioridade. Isso é bastante claro para a maioria das pessoas. Afinal, parece mesmo lógico: quem traz ao mundo um indivíduo, deve arcar com todas as responsabilidades e na falta do pai e da mãe, parentes próximos ou mesmo o governo precisam tomar para si esta tarefa, pelo simples fato de que uma criança não pode prover seu próprio sustento. (ESTADÃO, 2017)

O texto do Estadão assinala ainda que “ainda há polêmica e debate – apesar de a legislação ser bastante clara – quanto à responsabilidade dos filhos para com os pais idosos”. Aponta que a velhice pode diminuir o dinamismo de um organismo envelhecido. E assinala que muitos podem envelhecer em situação de fragilidade, necessitando de cuidados diversos.  E que no Estatuto do Idoso  consta que os filhos a cuidarem de seus pais na velhice.

A lei 10.741 de outubro de 2003, mais conhecida como Estatuto do idoso, não regula apenas o abandono propriamente dito. Em declaração à imprensa, Antonieta Nogueira, especialista em Direito do Idoso, cita que “não é somente quando se abandona um idoso em um asilo que o conceito vale. Ela lembra que “ainda que o idoso viva com os filhos, se encontrado sem as devidas condições de higiene, segurança, alimentação e sem as devidas medidas de preservação de sua saúde física ou mental, o abandono é configurado e podem ser aplicadas as respectivas penalidades previstas em lei”.

O Estatuto do Idoso reafirma o compromisso de nossa Carta Magna em relação à dignidade da vida humana. O Artigo 229 da Constituição Federal, define que “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”. O Estatuto do Idoso se refere a pessoas com mais de 60 anos e define ser:

obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”.

Quando qualquer pessoa necessita de cuidados, se levarmos ao pé da letra como nos diz o significado da palavra cuidado ou do Estatuto do Idoso, os cuidadores familiares deixam de ser filhos ou pais e se tornam um “cuidador profissional”, e aquele afeto, carinho, sentimento, conversas, trocas de experiências e reuniões de “almoço de domingo” são transformados em responsabilidades de troca de fraldas, medicamentos, dar banhos, dar alimentação e acompanhar nas consultas e exames médicos, chegando ao ponto de não mais existir a relação pai e filho e vice versa.

O cuidador familiar terá que superar certos desafios para exercer com precisão seu papel. O primeiro deles com certeza é o auto controle e o auto cuidado.

O auto cuidado significa cuidar de si e olhar para si, a fim de entender e compreender o outro. Entender a história pregressa e atual, não só de saúde, mas comportamental e de rotina e respeitar as crenças, cultura, limitação física e psicológica devido ao momento vulnerável da família.

O auto cuidado também se refere aquela pessoa que mesmo acamada ou com limitações tem um potencial a ser preservado ou desenvolvido diante daquela situação.

Rifiotis (2007) nos traz um artigo muito interessante em que ele diz: “A Gerontologia é um dos saberes voltados ao estudo e à intervenção no campo do envelhecimento, e como tal tem se defrontado com o aumento, a diversificação e a crescente complexidade das demandas sociais, cientificas, éticas e políticas”.

O processo de envelhecimento é um processo natural a todos, desde a criança ao idoso, com alguma doença ou não, e o cuidador familiar inserido nesse contexto e entendendo que o cuidado é relacionado a pessoas e não a alguma patologia (isso quem cuida são os médicos), dando ênfase a dar amor, brincar, conversar, passear, viajar, dançar, ir a festas, trazer de volta essa socialização e esse convívio a ambos, consegue transformar suas vidas mais leves e saudáveis tornando assim um grande aprendizado em sabedoria.

Considerações finais

Podemos refletir que hoje com o crescimento da população idosa e o aumento de cuidadores familiares na residência, os mesmos precisam de cuidados tanto quanto ao assistido. O Manual do Cuidador do Ministério da Saúde  (2008) dá boas orientações.

São esses familiares que por terem essa responsabilidade com seu ente querido que está preso a uma cadeira de rodas, tem sequelas de um AVC ou qualquer outra doença, tem mais dificuldades de aceitação e estabelecer uma nova rotina, já que quem não poderá seguir com seus afazeres do dia a dia antes do ocorrido, além do seu ente querido, ele também não poderá, preso a novas necessidades de cuidados naquele momento.

Deixar de ser pai ou filho, mãe ou filha, irmão ou irmã, para somente cuidar de doença, é uma também das situações que mais crescem em nosso país. Promover saúde e não potencializar doença é o maior desafio à todos. Somos seres humanos, cuidando de seres humanos.

O Ser humano não faz por falta de capacidade, ele não faz por falta de necessidade”. (Denis Oliveira)

 


Curso:   ‘Atividades de Estimulação Cognitiva pelo Familiar ou Cuidador’

O curso a ser iniciado no dia 17 de junho, no Espaço Longeviver visa fornecer informações básicas sobre estimulação cognitiva e ensinar algumas atividades práticas que podem ser aplicadas na rotina de cuidados no domicílio, sem aumentar a sobrecarga do cuidador. Além disso, visa fortalecer a relação entre familiar e idoso, podendo ser uma alternativa de tratamento não medicamentoso, que busca auxiliar na estabilização ou resultar até mesmo em leve melhora dos déficits cognitivos e funcionais do paciente com diagnóstico de demência, tornando-o mais independente.

Serão três encontros (17/06, 24/06 e 01/07), às segundas, das 15h às 18h, no Espaço Longeviver, localizado na Avenida Pedro Severino Junior, 366 – Sala 166 – Vila Guarani. Próximo ao metrô Conceição – Saída D – linha azul. Maiores informações: cursos@portaldoenvelhecimento.com.br

Inscrições pelo link: 
https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-atividades-de-estimulacao-cognitiva-pelo-familiar-ou-cuidador/

Referências
Boff, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano. Petrópolis. Vozes, 1999 (Compaixão pela Terra)
Dicionário online português: www.dicio.com.br/cuidado
Estadão. Os filhos têm obrigação de sustentar os pais na velhice – conheça o estatuto do idoso. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/releases-ae,os-filhos-tem-obrigacao-de-sustentar-os-pais-na-velhice-conheca-o-estatuto-do-idoso,70001638821. Acesso em: 13 out 2018.
Ministério da Saúde – Secretaria da Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde – Manual do Cuidador. Disponível em: http://www.saude.campinas.sp.gov.br/programas/idoso/FO087_manual_cuidadores_idosos.pdf. Acesso em: 10 set 2018.
Rifiotis, Theophilos Rifiotis. (Pro-Posições, v.18, n.52 – jan/abr.2207)

(*) Denis Janio de Oliveira – Cuidador Familiar desde o nascimento do seu filho com paralisia cerebral, mãe com sequelas de AVC e irmã tetraplégica. Bacharel em Educação Física, Pós Graduado em Administração e Marketing Esportivo, Palestrante de Medicina Preventiva, Educador Social, Idealizador do Programa Ginástica para Idosos no Circo Escola Diadema, Capacitação em Socorrista pela Cruz Vermelha de São Paulo e Curso de Extensão em Gerontologia Social pela PUC-SP. Texto escrito para o curso de extensão “Fragilidades na Velhice: gerontologia social e atendimento”, ministrado pela PUC-SP, sob a coordenação de Beltrina Côrte, no segundo semestre de 2018. E-mail: djaniodeoliveira@gmail.com

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