Videogames, novo remédio contra a solidão para os idosos?

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Depois que uma mulher de 90 anos foi recentemente nomeada a youtuber de videogame mais velha do mundo pelo Guinness World Records, vários estudos mostram que os idosos são cada vez mais atraídos por videogames, que são apresentados como nova solução para combater a solidão e ajudar a memória.

 Petits Frères des Pauvres (*)


Hamako Mori é uma senhora japonesa de 90 anos. Ela às vezes joga até 8 horas por dia. E após 40 anos de jogos, ela acaba de ser reconhecida pelo Guinness Book of Records como a mais velha YouTuber gamer do mundo. Para ela, os videogames são uma forma de desestressar. Seu canal no YouTube, “Gamer Grandma” (vovó gamer), agora tem mais de 460.000 inscritos.

Mas está longe de ser um fenômeno isolado. Um estudo da IFOP / Mon setupgaming.fr realizado online em 2018 mostra que 50% das pessoas com 65 anos ou mais jogam videogame na França (independentemente do meio: smartphone, tablet, computador, console de jogos). Nos Estados Unidos, estudo semelhante foi realizado pela American Association of Retired Persons (AARP): em 2019 havia mais de 50,6 milhões de jogadores com mais de 50 anos, contra 40,2 milhões em 2016.

No entanto, se os jogos atraem cada vez mais os idosos, os videogames e, de maneira geral, as novas tecnologias ainda permanecem um grande mistério para milhões de idosos. Um relatório da Petits Frères des Pauvres e do Instituto CSA constatou em 2017 que 4 milhões de pessoas com 60 anos ou mais nunca usaram a Internet,  27% dessa faixa etária. Em 2019, o relatório realizado durante o confinamento confirmou a forte exclusão digital dos idosos: 4,1 milhões de franceses com 60 anos ou mais nunca utilizaram a Internet, especialmente os mais velhos e os mais pobres. Se os idosos temem uma tecnologia que não entendem, também não veem sentido em usá-la.

Os benefícios dos videogames para os idosos

Porém, diversos estudos tendem a comprovar os benefícios dos videogames na saúde, principalmente em idosos. Em primeiro lugar, em relação a memória e a atenção dos idosos. Adam Gazzaley, neurocientista americano, acredita que um videogame adaptado melhora as capacidades mentais de idosos a partir dos 60 anos, principalmente no manejo de tarefas simultâneas. Além disso, eles têm efeitos nas habilidades motoras e na destreza das pessoas que brincam com alavancas e botões o dia todo!

Mas entre Fortnite, Animal Crossing ou o programa do Dr. Kawashima, o que escolher? Todos os videogames são iguais para melhorar nosso desempenho cognitivo? O setor de saúde está explorando as infinitas possibilidades de “jogos sérios” (exergames) para tratar doenças como Alzheimer ou Parkinson. Para jogos sérios, o entretenimento (o objetivo principal de um videogame simples) não é o objetivo, mas um meio de motivar a pessoa que o joga a treinar, aprender e manter suas capacidades físicas e cognitivas.

É assim que X-Torp, um jogo terapêutico, se propõe a combater os efeitos da doença de Alzheimer. “Os resultados não mostram melhora na memória ou concentração para usuários do X-Torp. No entanto, eles mostram eficácia significativa em distúrbios de comportamento e, em particular, na apatia. Já é muito significativo”, garante Philippe Robert, professor de psiquiatria da Slate.

Isolamento e videogame: remédio ou fator agravante?

Atrás de uma tela, a solidão é mais ou menos sentida? Para os Petits Frères des Pauvres, os videogames por si só não resolvem os problemas de isolamento. Não substituem o contato humano, mas num contexto de mudança das relações familiares ligadas, nomeadamente, a novos estilos de vida e à mobilidade econômica, estes novos meios de comunicação e em particular os videogames em rede podem também permitir o contato com a família (seus netos, por exemplo).

Por fim, os idosos não escondem: os jogos permitem que eles passem o tempo e esqueçam a solidão. “Uso a Internet há 10 anos. Eu me conecto assim que acordo. É a primeira coisa que faço quando saio da cama. Quando mergulho lá, não saio mais. Eu assisto as notícias, vou no Facebook, vejo minhas encomendas. Depois eu desço e tomo meu café da manhã. E quando volto para o meu quarto, digo a mim mesmo ‘ah, vou relaxar’ e jogo meus joguinhos. Não me importo com o tempo. Como estou sozinho, não tenho responsabilidades. Ao logar me sinto melhor, pois sofro de solidão e basicamente o computador é um companheiro’, disse Gisèle, 86 anos.

(*) Petits Frères des Pauvres – A fundação foi criada e reconhecida como serviço público em 1977 e em 2003 recebeu o nome de Fondation des Petits Frères des Pauvres, tornando-se uma fundação abrigo capaz de acolher fundações protegidas. Tradução livre por Sofia Lucena. Fotos: Divulgação.


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Este curso pauta-se pela necessidade cada vez maior de lidarmos com aspectos ligados ao processo de envelhecimento que nos são caros, quer sejamos profissionais da área da saúde ou leigos. Aqui nos referimos ao corpo do idoso, sua corporeidade, seu “estar físico” no mundo, com tudo o que isto implica – não apenas suas limitações e dificuldades físicas e motoras, mas também e principalmente, suas potencialidades de vida, seu bem-estar, sua qualidade de vida.

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