Viajar é possível… em qualquer idade

Descobrimos que viajar se torna uma atividade prazerosa que nos tira da nossa zona de conforto ao acionar dispositivos mentais e físicos para se situar no espaço e se adaptar às novas situações onde tudo é provisório.

Kátia Mota (*)

 

Minha história de viajante me acompanha desde os meus tempos de menina bandeirante – desbravar novos lugares, conhecer outras culturas, aventurar-me no desconhecido. Mas até quando viajar seria possível? Ao completar 65 anos, enquadraram-me como idosa e nessa nova categoria entra a identificação que a sociedade faz de uma pessoa idosa e que, aos poucos, senti que fui incorporando inseguranças na minha mente. Algumas angústias surgiam: o que faço do meu espírito de viajante? O que posso e não posso fazer mais?

Perguntas que me incomodavam e, com alguns problemas de saúde que foram surgindo, senti que o corpo e a mente iam se encolhendo e, inevitavelmente, a tristeza ia tomando conta do meu coração. Felizmente não durou muito para me conscientizar de que a minha história de vida não se enquadraria nessa recusa de viver, deixando de lado minhas inquietações e desejos; abrindo mão das minhas viagens. No sentido de quebrar esse paradigma, pensei em encarar minha determinação de fazer uma viagem por um período de um mês (que se esticou por trinta e oito dias).

Logo encontrei uma amiga da minha faixa etária, companheira de outras viagens, que aceitou o convite e, assim, levamos dois meses planejando nossa aventura: inicialmente meu desejo era viajar pela Espanha e Portugal, mas minha amiga acrescentou seu desejo de conhecer Marrocos. Confesso que fiquei assustada – Marrocos? – tudo muito diferente da nossa cultura; na minha mente surgiam os medos, uma inquietação que me preocupava, mas que decidi enfrentar. Convenci Marita, minha companheira de viagem, que iríamos a Marrocos de excursão (minhas filhas logo ficaram aliviadas), pois as informações que eu tinha é que deveríamos ser prudentes em territórios árabes.

Pesquisas na internet sobre os roteiros escolhidos, leituras de relatos de viagens, nos convenceram em iniciar a viagem com uma excursão de oito dias em Marrocos para termos uma visão geral do país. Provavelmente não aguentaria mais tempo em um país cuja língua não entendia absolutamente nada e cujos códigos culturais estavam quilômetros de distância dos que me eram familiares. Iniciamos, assim, a viagem por Marrocos – o grande desafio seria aguentar o ritmo da excursão. Para aliviar a tensão dos dias exaustivos, decidimos ficar em bons hotéis para que à noite pudéssemos nos recuperar fisicamente; logo compreendemos que foi uma decisão acertada.

Os dias em Marrocos foram inesquecíveis; o deslumbramento – com tudo que vimos e aprendemos sobre o país, a cultura, as pessoas – superou nossas expectativas, fazendo com que o desejo de novas vivências fosse muito mais forte do que o cansaço de enfrentar dias de caminhadas, trechos longos de ônibus, cuidados com a alimentação, a adaptação com as variações de temperatura, entre outros desafios.

Visitamos as cidades imperiais: Casablanca, Rabat, Meknes, Fez e Marrakech; cada cidade com suas características próprias, muitas histórias para se entender aquele mundo árabe fascinante. Tudo aguçava nossos sentidos. Em Marrocos sentimo-nos estimuladas a perceber o jeito de viver daquele povo, suas roupas, seus olhares; a se encantar com música e danças, o cheiro forte das comidas, as cores vivas do artesanato e tapetes; a perambular pelos mercados em minúsculas ruas, verdadeiros labirintos; a escutar as vozes dos minaretes nas cinco orações diárias…

Cada lugar uma nova descoberta, uma sensação de que aos poucos a alegria de estar vivendo experiências inusitadas superava qualquer cansaço físico; esquecíamos as dores musculares, que inevitavelmente apareciam, e seguíamos em frente, vivendo a jornada de cada dia. Em cada amanhecer estávamos prontas para uma nova aventura.

Terminado o percurso de Marrocos, já nos sentíamos fortalecidas a prosseguirmos sozinhas para a Espanha a fim de desbravarmos a Andaluzia. A partir daí mantivemos nossa própria rotina: a cada noite mandávamos notícias para nossas famílias; conversávamos sobre as aventuras do dia; acertávamos nossas contas para controlar os gastos e agradecíamos a Deus, pedindo Sua proteção.

Percebemos que, aos poucos, a viagem ia se transcorrendo com muita alegria e disposição. Já tínhamos, então, nos desbloqueado dos medos e inseguranças. Percorremos Sevilla, Córdoba, Granada; nos encantamos com as belezas de cada uma, suas mesquitas, catedrais, muralhas, ruas medievais, jardins maravilhosos. Diferentemente do que acontecia na excursão, o tempo corria no nosso próprio ritmo, sem roteiro determinado.

Assim, pudemos calmamente caminhar pelas margens do rio Guadalquivir em Sevilla, descobrir as lojinhas da Triana ou sentar num boteco pra tomar um bom vinho, sem pressa, apreciando a vida da cidade que se desenrolava na nossa frente. Tudo me pedia uma boa foto, uma história para escrever. Em Allambra nos perdemos nas belezas de cada canto, sem tempo marcado para sair, deslumbradas com as paisagens encantadoras e imaginando as histórias que ali aconteceram. Concluímos nossos dias na Espanha passando uma semana em Madri e um bate-volta para Toledo e Segóvia, percorrendo não só os pontos turísticos, mas também as vizinhanças, os lugares mais comuns, sem deixar de marcar presença nos museus.

A etapa final da viagem foi Portugal, iniciando em Porto e visitando cidades do norte do país, revisitando cada lugar e conhecendo alguns novos e, enfim, terminando em Lisboa.

Portugal é meu ponto de entrada e de saída da Europa; sempre incluo as terras lusitanas no meu roteiro porque lá já me sinto em casa. Aos poucos, fomos dando conta de que a viagem estava terminando. No balanço final, em trinta e oito dias fizemos um total de 27 horas de voo, percorremos em torno de 4000 km de autoestradas e ferrovias, nos alojamos em treze hotéis de onze cidades e visitamos em bate-volta mais outras onze cidades. Ufa!! Mal acredito que demos conta de tudo.

A verdade é que chegamos fagueiras, felizes da vida, e já pensando na próxima viagem. Durante as caminhadas nos detivemos em alguns letreiros bem significativos, dentre os quais relembro: “Viajar é uma grande aventura”, “Viajar faz bem à saúde”, “Alguns sonham. Eu viajo” e “Sua vida é escrita pelas histórias das suas viagens”. Concordamos plenamente e refletimos sobre as nossas previstas dificuldades no decorrer da viagem; concluímos que ‘moderação’ se tornou a palavra-chave que marcava nossos limites – reconhecer nosso ritmo, respeitar o cansaço do corpo, vigiar a qualidade e quantidade de alimentos e bebidas, entre outros cuidados, mas, principalmente, manter firme o propósito de que somos capazes de cumprir a jornada.

Vivemos, então, cada dia intensamente, mas com moderação. O desafio mais difícil foi carregar as malas, principalmente quando as rodinhas começavam a falhar e quando entrávamos e saíamos dos trens, apesar de que sempre aparecia um ‘anjo da guarda’ para nos ajudar. Definitivamente, temos que resolver esse problema na próxima viagem.

No mais, descobrimos que viajar se torna uma atividade prazerosa que nos tira da nossa zona de conforto ao acionar dispositivos mentais e físicos para se situar no espaço e se adaptar às novas situações onde tudo é provisório; saímos dos nossos hábitos e nos deixamos levar para entender e aceitar os desafios de adaptação em cada parada. Aprendemos que ao administrar cada dia com alegria e autonomia para refletir e definir nossos próprios rumos, nos fortalecemos na saúde física, mental e emocional. Pelo que vivemos e aprendemos, acreditamos e recomendamos que viajar com prazer é possível, independente da idade. Tudo se resolve quando enfrentamos os medos e reforçamos nossa autoconfiança e entrega a Deus.

 

(*)Kátia Maria Santos Mota é licenciada em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), fez mestrado em Linguística na UFBA e doutorado em Estudos Luso-Brasileiros na Brown University, EUA. Aposentada como Professora Titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e como Professora Assistente da UFBA, e em ambas as universidades atuou em cursos de graduação e pós-graduação. Iniciou suas trajetórias de viagens internacionais com 17 anos ao participar do encontro pan-americano de Bandeirantes no Uruguai e como bolsista do American Field Service ao fazer intercâmbio de um ano em York, Pennsylvania, onde concluiu seus estudos de High School. Quando casada, e com filhas pequenas, morou dois anos em Boston e, mais tarde, foi bolsista do Conselho Britânico em curso de férias na Universidade de Cambridge e morou três anos em Providence, EUA, em curso de doutorado. Em 2008, aos 58 anos, as viagens internacionais deixaram de ser acadêmicas e passaram a ser “viagens de aventuras” com amigas, percorrendo a Argentina, Chile, Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha, França, República Tcheca, Croácia, Grécia, Turquia e Marrocos. Continua ativa aos 68 anos, sempre planejando novas viagens. E-mail – motakatia@hotmail.com

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