Velho equilibrista

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A escuta ao meu pai, sendo hoje um velho, torna-se ainda mais desafiadora porque dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade, um velho alcoólatra pode ser visto como um fraco, irresponsável, adjetivos pertencentes à categoria do “julgamento” e da “culpabilização”.

Kênia Cristina Tavares (*)


Meu pai foi diagnosticado com um câncer de boca em 1994, na época estava com 46 anos.  Passaram-se 26 anos após uma cirurgia para retirada do câncer que significou extrair parte do assoalho da boca e língua, comprometendo a fala e alteração do rosto. Hoje meu pai é um velho de 72 anos, que acreditamos estar curado do câncer. O câncer, sob meu olhar, é um fragmento da existência de meu pai, podendo ser um marco para sinalizar um antes e um depois. Penso que seja um marco para ele também, devido as mudanças que ocorreram desde o diagnóstico da doença, tratamento e alta médica. Essas mudanças, dentre outras, envolveram afastamento do trabalho, mudança para a cidade natal, nova aparência do rosto, mudanças nos hábitos alimentares, aposentadoria por invalidez.

Esse pequeno recorte de um fragmento de uma história, no caso a história do meu pai, é para introduzir minha reflexão àquele ponto que sinalizo como um marco, o qual possibilita constatar uma outra doença que existia antes e continua depois do câncer, o alcoolismo. O alcoolismo é quase um ente, quase um integrante da família. Está presente desde a união dos meus pais, desde antes dessa união, desde sua juventude, talvez desde os seus 14 anos.

A percepção do alcoolismo como uma possível entidade, parece ocupar um papel de protagonista na vida do meu pai, com o passar do tempo e o cansaço dos familiares e pessoas próximas, oriundo de muitos esforços e tentativas de ajudá-lo, surge uma espécie de desmembramento entre a pessoa e doença. De modo que a pessoa já não consegue ser vista antes da doença, o que se enxerga não é mais o pai, o esposo, o avô, o irmão, o amigo, mas o alcoólatra/alcoolista com todos os estigmas que essa condição carrega, somado agora, aos estigmas e preconceitos da própria etapa da vida em que se encontra, a velhice.

Durante o processo da recuperação da cirurgia seguida de radioterapia, os primeiros meses e anos foram de muita adaptação, tanto do meu pai, quanto dos filhos e esposa. Era muito comum ouvir a expressão: “há males que vem para o bem”,nesta frase estava implícito a esperança da cura do alcoolismo. A esperança de que a terrível doença trouxesse como  recompensa, brinde, conforto ou o que quer que pudesse significar o alívio de não se ter mais a presença dessa outra tão destrutiva doença.

Vencida a primeira etapa contra o câncer, este passou a ser visto como uma oportunidade, uma espécie de aliado no combate a uma outra enfermidade. A família inteira, parentes e amigos passaram a acreditar que a cura do câncer significaria também a cura do alcoolismo. Surgiu então uma dupla expectativa de cura, das quais o portador das doenças só tinha consciência de uma, e, certamente, não era o alcoolismo.

Percebíamos em meu pai a existência de muitos processos internos comum às pessoas que enfrentam doenças graves: reflexões, questionamentos, medo, agradecimentos e até promessas, no caso do meu pai, esta última remete à característica de uma religiosidade genuína e simplória. Sendo uma dessas promessas, parar de fumar e conseguiu. Hoje não tenho mais na memória a imagem do meu pai portando cigarros ou fumando. Lembro-me de ele dizer uma única vez que havia sonhado que fumava um cigarro e acordou assustado e ao mesmo tempo surpreso com a sensação prazerosa do sonho, mas nunca mais suas mãos aproximou um cigarro de seus lábios.

No entanto, nunca havia ouvido meu pai dizer ou cogitar a hipótese de não mais beber. Mesmo no leito do hospital ou durante seu processo de recuperação esta não parecia ser uma possibilidade que ele considerasse, suponho, quase afirmando, que por ele não era algo a ser posto em questão.

O alcoolismo venceu o câncer, bem como a expectativa de todos nós. Suas mãos não se recusaram a levar-lhe a bebida à boca e lá se vão mais de 20 anos, desde seu diagnóstico de câncer. “Não é porque é velho que irá deixar de ser alcoólatra”, esta foi uma das primeiras frases que me impactou nas primeiras aulas do curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Imediatamente fui arremessada à minha própria história marcada pela presença contínua do alcoolismo e toda sua devastação que atinge dimensões de adoecimento que transcendem a própria pessoa portadora do vício/doença.

Um curso que tem como objetivo olhar para as fragilidades de uma das etapas da vida, é, inevitavelmente, um curso que implica a própria vida, antes de comprometer dimensões como o trabalho, motivo que num primeiro momento foi o que me inspirou a iniciar essa jornada tão curta quanto densa.

A frase “Não é porque é velho que irá deixar de ser alcoólatra” surgiu durante a aula para exemplificar o conceito de velhices. Refletia-se que a velhice não é homogênea, as pessoas não envelhecem todas do mesmo jeito. A palavra velhice(s) no plural, possibilita criar consciência, capaz de gerar a desconstrução daquilo que a sociedade construiu como identidade do ser velho enquanto uma “categoria” vista como passível de ser formatada e padronizada. Muito pelo contrário, “envelhecemos como vivemos”. As velhices são tão diversas quanto a diversidade humana, quanto a liberdade de escolhas, de erros e acertos, de modos de enfrentamento das dificuldades, hábitos e tantas outras características presentes em uma vida inteira. Todo o modo de vida escolhido pela pessoa ou imposto pela sociedade, resultará nas diferentes velhices atrelado às fragilidades decorrentes do tempo que não pode ser brecado, ele simplesmente flui, já dizia Mário Quintana,

o tempo não pode ser segurado; a vida é uma tarefa a ser feita e que levamos para casa.
Quando vemos já são 18 horas.
Quando vemos já é sexta-feira.
Quando vemos já terminou o mês.
Quando vemos já terminou o ano.
Quando vemos já se passaram 50 ou 60 anos.
Quando vemos, nos damos conta de ter perdido um amigo (…)

Quando vejo, passaram-se 26 anos daquilo que teria sido um marco e que de uma certa forma foi. O diagnóstico e cura do câncer do meu pai deixou muitas marcas, inclusive físicas, marcou também um período das nossas vidas, composta de diferentes contextos. Marcou a cada um dos seus filhos e esposa. No entanto, não foi um marco daquilo que tanto almejávamos, a esperança da cura do alcoolismo. Sinto que cultivávamos essa crença baseada em outras histórias, em outras vidas que após vivenciada uma experiência de quase morte, retornavam fortalecidas e dispostas a um processo de ressignificação, mudanças de hábitos, um verdadeiro renascimento em que aquela pessoa se tornaria irreconhecível pelas transformações ocorridas.

A comparatividade em nada contribui, está implícito no ato de comparar, a diminuição e o desmerecimento. Enquanto admira-se de um lado, desqualifica-se do outro, podendo aumentar o sentimento de incapacidade e inferioridade, gerando ainda mais dor e sofrimento aos envolvidos.

As nobres transformações que almejávamos não passavam de projeções, desejos projetados no outro, como se o outro (meu pai) fosse obrigado a realizar tais ambições por mais altruístas e repletas de amor e do desejo de bem-estar tão presentes em todos à sua volta. O que não significa que ele não tenha desejos de mudança e bem-estar, não cabe julgar se são escolhas ou impossibilidade. No entanto, a fragilidade humana somada à força dos vínculos familiares faz com que nos sintamos confrontados com nossos valores gerando sentimentos de amor e ódio, pena e raiva, repulsa e compaixão e tantas outras contradições regadas de culpa.

Sendo escolha ou impossibilidade, a questão é que se trata do outro. Se em relação à nós mesmos, às nossas próprias escolhas e questões, precisamos respeitar nossos limites para não nos violentarmos, quanto mais em se tratando do outro, nesse caso a que se respeitar limites ainda maiores cuja sensação ou percepção da impotência ganha dimensões alargadas.

O câncer, como um marco, possibilitou-me o que apenas hoje consigo perceber como demarcação do limite, do limite da intervenção, do controle, da tomada de decisão pelo outro, como se este não tivesse voz e tendo voz não pudesse ser ouvido e muito menos escutado, sobretudo quando o que está sendo dito não é o que gostaríamos de escutar. A seletividade da escuta, ainda que motivada por princípios considerados bons, não é uma escuta verdadeira, mas sim uma reverberação da própria fala.

A escuta ao meu pai, sendo hoje um velho, torna-se ainda mais desafiadora porque dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade como velhice, um velho alcoólatra pode ser visto como um fraco, sem vergonha, vagabundo, irresponsável, ingrato, adjetivos pertencentes à categoria do “julgamento” e da “culpabilização”.

No curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento refletiu-se sobre a normatização do sistema onde velho valorizado ou merecedor de alguma atenção é o velho que se enquadra dentro da categoria do “envelhecimento ativo”, proposta feita pela Organização Mundial da Saúde na qual está incluso a atribuição individual da responsabilidade e manutenção da própria saúde, bem como o autocontrole referente aos maus hábitos, a responsabilidade. Pois, de uma vida benéfica passa a ser única e exclusivamente do indivíduo, tal realidade imposta e legitimada pela sociedade, torna-se uma realidade perversa, geradora de conflitos proveniente de sentimentos contraditórios a que estão todos submetidos.

A alternativa possível encontrada pelo meu pai de continuar a beber enquanto velho, torna-se então algo intolerável do ponto de vista do envelhecimento ativo. Nessa perspectiva, por se tratar da “escolha” da manutenção de um hábito, a responsabilização por essa condição degradante pode levá-lo ao sentimento de isolamento, proveniente do fato de não se encaixar às normas e padrões aceitáveis, avançando para um possível deslocamento ou sensação de estar fora do lugar, sentindo-se não pertencente.

Ao mesmo tempo que os familiares e amigos estão imersos nessa cultura do envelhecimento ativo, por se tratar de uma manipulação em massa, há também a vinculação pelos laços familiares, realidades que geram sofrimento, por se tratar de naturezas conflitantes. O envelhecimento ativo está relacionado a instrumentalização servil (mercado/objeto) enquanto que o envelhecimento em si, está relacionado aos processos da vida (finitude/afeto).

Seguindo essa lógica, o velho que não mais produz, não é rentável, tornando-se desinteressante sua manutenção já que para o sistema passa a ser ônus, portanto descartável e quanto mais rápido, melhor. A pandemia do novo Corona Vírus (Covid19) deixou claro essa descartabilidade do velho em todo o mundo e aqui no Brasil essa questão ficou escancarada, uma delas foi a fala do ex-ministro da saúde Nelson Teich que disse que com recursos limitados na Saúde, é preciso fazer escolhas entre salvar um idoso que “pode estar no final da vida” ou um adolescente que “tem uma vida inteira pela frente”. Vê-se claramente que o que está em jogo é a salvação, mas não da vida e sim do mercado ou da soberana economia.

Teria meu pai alguma chance de ser incluído? De ser salvo? Está claro que não. Embora meu pai tenha tentado permanecer sóbrio e esteja ciente dos riscos que estamos todos enfrentando nessa pandemia, sua dependência, seu vício, sua fraqueza ou sua escolha manifestou-se abruptamente e nessas idas e vindas de bares legalmente liberados para funcionarem e continuarem servindo seus drinks, lá estava meu pai, caído no chão, sem forças para se levantar, praticamente desacordado, sangrava um pouco, mas não sabíamos se tinha batido a cabeça, se poderia removê-lo, e mesmo podendo não teria quem o fizesse… Acompanhei tudo à distância, pois moro em São Paulo e eles em outro estado. Minha sobrinha de 12 anos pediu ajuda ao grupo da família:

oi, quem tá falando é a ……., meu avô caiu de beber em meio a uma pandemia, alguém tem alguma ideia do que fazer?

Houve manifestações do tipo, veja se ele está respirando, se tem alguma lesão na cabeça, até que alguém chamou o Samu, mas se recusaram a atender dizendo que não atendiam casos de alcoolismo. Não! Meu pai não seria salvo. Não seria salvo por ser alcoolista, por ser velho e por estarmos em plena pandemia. Não seria salvo porque o sistema há muito o descartou. E, como ele, muitos e muitas famílias estão enfrentando consequências terríveis devido a um conjunto de fatores em nível pessoal, social, governamental, ético.

Falávamos da vida e seus processos em contraposição ao mercado e ao sistema. Estar consciente dos processos da vida, remeteu-me à leitura do livro “Tentativas de fazer algo da vida”, de Hendrik Groen, no quesito respeito. A capacidade de respeitar os processos do outro ainda que sejam extremamente difíceis por se tratar da pessoa amada ou do melhor amigo, foi um convite ao aprendizado. Hendrik Groen, autor do diário que se tornou um best-seller, acompanhou de perto, no asilo onde morava em Amsterdan, as fragilidades da velhice de sua amada e de seus amigos, ao mesmo tempo que aprendia a lidar com as suas próprias fragilidades.

Evert, era com quem se relacionava a maior parte do tempo, uma relação de cumplicidade e bem querer, de modo que lhe custava ver o amigo sendo mutilado ao ter partes do corpo amputadas em períodos de tempo cada vez menores. Evert era diabético, o que não lhe impedia de continuar consumindo seus mais sofisticados drinks e em grandes quantidades, mesmo que isso lhe custasse continuar perdendo partes do corpo. Hendrik, diante da realidade do seu amigo, apenas fazia-se presente, demonstrando sua amizade e afeto. Esse é o lugar do respeito a que me refiro, esse lugar onde “menos é mais” e onde o lugar que se encontra o outro, talvez seja o único lugar possível naquele momento, tornando-se impróprio querer arrancá-lo de lá, pois conforme Clarice Lispector escreveu, “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o edifício inteiro”. Como também não se sabe qual é o lugar de quem não se sente mais pertencente. Normalmente, o não lugar é a periferia, o entre-lugar, o murro, o limite.

É isso! Estou a sentir minha parcela de responsabilidade e comprometimento com a escuta destes que estão à margem e no submundo das nossas próprias relações. Estou a sentir a capacidade do desenvolvimento da escuta do meu pai, esse velho equilibrista que tanto amo, mas que preciso aprender a respeitá-lo mais profundamente, mais livremente. Estou a sentir a importância da escuta das pessoas que o amam, amigos e família, mas se afastam, talvez para protegerem a si mesmos da dor causada pela impotência.

Penso que o sentido da vida é o que nos faz permanecer vivos e estar de pé, disponíveis, repletos e sedentos de algo mais, no entanto quando o sentido da vida se contrapõe aos valores pré-estabelecidos, a escuta parece ser o lugar possível, uma morada-abrigo para quem deixou de pertencer e perambula por aí.


(*) Kênia Cristina Tavares – Psicóloga pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e pós graduada em Transdiciplinaridade e Saúde Integral do Ser Humano (Unipaz-SP); Atua na área clínica e também como facilitadora de processos e vivências em grupo; é certificada nas técnicas A Arte do Ser Cantante,  Círculos de Construção de Paz, Danças Circulares e também atua como atriz Playback Theatre. Este texto foi escrito para o curso de extensão de Fragilidades na Velhice e Gerontologia Social e Atendimento, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no primeiro semestre de 2020. E-mail: keniatavares@hotmail.com

Foto destaque de Life Of Pix de Pexels


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