Velhices ao nosso entorno: Euza Augusto

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Nas velhices de meu entorno, minha vó, que mora comigo, apareceu enquanto uma velha que estava vivendo profundamente as questões suscitadas pela quarentena!

Alexander Augusto (*)


O início de 2020 foi um marco na vida das pessoas, um vírus estava à espreita, cada vez mais se intensificando e se alastrando. O cenário era o de uma pandemia global. Com o estabelecimento do isolamento social, as aulas do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP passaram a ser transmitidas remotamente, adaptando-se à realidade que se desenrolava no cotidiano. Como aluno deste curso, uma das aulas que tive – Eletiva Temática: Velhos nas Peças de Teatro, ministrada pela Profª Drª Ruth Gelehrter da Costa Lopes – nos provocava a pensar as velhices e o envelhecer como um fenômeno dinâmico, complexo, exultante e posto na realidade de um país que caminha para um envelhecimento cada vez maior da população. 

A primeira atividade desta disciplina objetivou que escrevêssemos um brevíssimo relato sobre como temos percebido os velhos na nossa quarentena. Como um estagiário da Área Técnica de Atenção Integral à Saúde das Pessoas em Situação de Violência da Coordenadoria Regional de Saúde da região Sul, da Secretaria Municipal de Saúde (SP), o meu relato baseou-se, principalmente, na minha experiência de estágio, focando exclusivamente no aumento de violência doméstica contra a população idosa na cidade de São Paulo, ou seja, nas velhices acometidas pela violência. 

A violência contra os idosos ocorre, em sua maioria, dentro de suas casas. Violência física, sexual e financeira são as principais naturezas dessa vulnerabilidade doméstica. Quando encontram-se confinados, estas pessoas estão sob maior risco de serem acometidas por esse fenômeno, gerando um medo absurdo e uma questão de saúde pública e seguridade social importantíssimas. 

Contudo, foi neste momento que a professora Ruth lançou para mim a seguinte provocação: “Boa, Alex! Pena que não contaste dos teus velhos”. A partir daí, a minha perspectiva passou a mudar e a minha vó, que mora comigo, apareceu enquanto uma velha que estava vivendo profundamente as questões suscitadas pela quarentena! E foi como uma atividade final de avaliação desta mesma disciplina que me dispus a fazer esta entrevista com ela, permitindo que contasse um pouco sobre o que vinha pensando de tudo isso que estávamos vivendo. 

Confesso que surpreendi-me diversas vezes, as lágrimas nos olhos, relembrando toda a sua história até aquele momento de gravação. E foi dessa forma que o título: “Velhices ao nosso entorno: Euza Augusto” surgiu na minha mente e de uma forma livre, espontânea e muito, mas muito gostosa que a minha avó abriu-se para todos nós.

Euza Izalda da Silva Augusto é uma mulher forte. Sua mãe faleceu quando ela ainda era pequena e seu pai tinha um tratamento duro e agressivo com seus filhos. No sertão pernambucano ela caminhava quilômetros com balde de água na cabeça. Quando fez 18 anos, embarcou na maior aventura de sua vida: Um caminhão que a levaria para São Paulo. Chegando aqui, nesta cidade que está sempre em movimento, ela não teve onde morar e infelizmente passou algum tempo na rua, com fome, frio, desalento e só saiu dessa situação quando arrumou um emprego de empregada doméstica, podendo residir na casa da família para a qual trabalhava. 

Os anos se passaram, muitos lugares foram limpos por suas mãos e um dia, num mercado, ela conheceu o seu companheiro de vida: meu avô. É claro que não se apaixonaram à primeira vista, na verdade aconteceu o contrário, parecia que algo os repelia constantemente. Mas… como já dizia o ditado, os opostos se atraem e, naturalmente, a repulsão transformou-se em amor, em união, em constituição de uma família: Ela (a pernambucana, empregada doméstica, que depois virou depiladora, manicure, confeiteira, padeira e boleira), ele (o filho de português com italiana, taxista, motorista, e grande lutador contra os mais perversos tipos de doenças – câncer, hepatite C, com 70% do corpo queimado num acidente em posto de gasolina, perda total de um rim e paciente de hemodiálise). Tiveram 3 filhas e 5 netos.

Ele foi embora, mas ela ficou e realizou quase todos os sonhos que podia. Andou de balão, de navio, de avião, tudo isso em meio a bailes com muita dança de salão. E quem disse que os sonhos pararam? Imagina… dona Euza quer mais e eu tenho certeza que enquanto o coração dela bater, o corpo se mover, ela estará lá, pulando de uma pedra num lago e escalando uma cachoeira. Afinal, ela é assim mesmo, independente, mostrando que as velhices são heterogêneas e diversas.

Depoimento de quarentena: Euza Augusto

(*) Alexander Augusto – Aluno do 8° semestre do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP, atuando atualmente como estagiário da Área Técnica de Atenção Integral à Saúde das Pessoas em Situação de Violência da Coordenadoria Regional de Saúde da Região Sul da Secretaria Municipal de Saúde da cidade de São Paulo. Umbandista, escritor nas horas vagas e amante da literatura. Texto escrito na disciplina “Velhos nas peças de teatro”, ministrada pela profa. Ruth Gelehrter da Costa Lopes, que teve como proposta analisar como o teatro oferece farto material sobre o processo de envelhecimento contemporâneo. E-mail: alexander3augusto@gmail.com

Atualização em 25/07 às 11h50


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