Velhice é a maior prova de que o inferno existe

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Jornal da Tarde – A senhora acaba de lançar um disco só de tango. O que a fez se sentir segura para isso?

Bibi Ferreira – A idéia nasceu comigo. Quando tinha um ano de idade, deixei o Rio de Janeiro e fui viajar com minha mãe por países da América Latina. A primeira língua que aprendi foi o espanhol. Minha mãe, que era argentina, dizia que eu estava proibida de falar português com ela. Quando fui gravar o disco, já sabia a letra de todos os tangos. Exigi um diretor artístico argentino. Não poderíamos ficar dependentes de um músico brasileiro que tocasse bem o tango de Carlos Gardel, ou de um argentino que morasse aqui. Tinha que ser argentino que morasse em Buenos Aires. O disco, chamado Tango, não era só para nós. Era também para a Argentina.

Julio Maria *

 

A senhora havia declarado que nunca mais cantaria por ter medo que sua voz desaparecesse.

É, eu contraí a ‘Síndrome Sinatra’.

O que é isso?

Medo de abrir a boca e não ter voz.

A síndrome está superada?

A síndrome é constante. O Frank Sinatra tinha isso e muitos outros têm. É assim: quando estou no camarim me arrumando, esquentando a voz depois de me vestir, fico ali naqueles segundos antes de entrar no palco. Quando a banda está tocando a abertura do show, começo a pensar que o público está ali lotando o teatro. Nesse momento meu senso de responsabilidade vai a tal ponto que penso: ‘Meu Deus, e se eu não respirar direito e a voz não sair?’ No final dou uma respirada, olho para cima, me entrego a Deus Nosso Senhor e entro em cena. Apavorada e rindo.

É assim também no teatro?

Sempre. Estou sempre apavorada. Depois que entro vou tomando coragem aos poucos, mas sempre com aquela dúvida de ‘será que vou lembrar de tudo?’ Lembre-se que o teatro não tem partitura na frente, vai mesmo é na boa memória. No meu espetáculo (Bibi In Concert) canto uma música, Mulher Rendeira, de diversas maneiras e dou um agudo. Aquilo é difícil, fico preocupada. Na hora que vou dar essa nota sei que tenho que levantar o diafrágma, encher o pulmão. Meu médico, vendo uma radiografia minha, me disse: ‘Pulmão de atleta. E mais, atleta homem’. É por isso que até os 83 anos estou dando um agudo e sustentando dois compassos (risos).

A senhora lembra que tem 83 anos quando se prepara para dar um agudo desses?

Não, superei isso. A idade vem aos pouquinhos e a gente não sente quando ela chega. Se você chegar aos 83 anos assim como eu, não vai perceber que estará com 83 anos. Isso porque a idade vem devagar. 23, 33, 43, 53. Quando chega ao 73 começa a piorar. 63 dá sinais, 73 piora e 83 fica difícil. Como a decrepitude vem em grande estilo, você se olha no espelho e vê que está diferente.

A senhora é, como já disse, uma ‘otimista irresponsável’?

Sou porque entro em todas as coisas de cabeça. O herói é irresponsável, não sabe que vai fazer um ato de heroísmo, se souber não faz.

Existe divisão entre ator de teatro, de TV e de cinema?

Ator bom é bom em qualquer coisa. Agora, tem gente que é mais ator de tela porque os olhos são muito sinceros, mas não são tão bons em teatro porque lhes falta o poderio da voz. E teatro é falar em segredo para todo mundo ouvir. A televisão e o cinema têm recursos para facilitar a representação. Já o teatro é totalmente desprotegido. No teatro não tem corte, não tem alguém dublando. A tela é para pessoas que fotografam bem. Agora, quem é grande é grande tanto no cinema quanto na TV quanto no palco. No teatro, da décima fila para trás ninguém vê mais a expressão do rosto. Fica tudo aonde? Na palavra e no gestual. Na tela você tem a expressão do rosto. Aí está a diferença. Uns têm mais potencial de rosto, outros de corpo, outros de voz.

Ator não tem que fazer teatro para ser ator?

Não, absolutamente. Você pode ser um grande ator no cinema ou na TV sem precisar do teatro. Teatro é a prova de fogo, mas não é por isso que desmerecemos quem está na tela.

Por que a senhora não fez mais TV?

É a carreira, o destino. Novela não fiz porque não calhou. E não me acho uma pessoa que iria ser beneficiada por estar em fotografia, entende? A fotografia, que é o cinema e a televisão, não me beneficiaria. Seria contraproducente.

Por que, Bibi?

Porque meu potencial está na garganta. Embora seja muito importante a voz de pessoas que falem na tela. Tão importante que muitos são dublados por pessoas que falam melhor. A garganta é muito importante, é a personalidade vocal. Sou muito mais forte na minha personalidade vocal do que sou na expressão.

Ir agora para a TV seria retrocesso?

Não, ao contrário. Mas teria que ser algo do qual tivesse muita certeza, teria que ser muito melhor do que o disco que estou lançando. Há uma grande expectativa com o disco de tangos e meu espetáculo no teatro, com licença, está lotando todas as noites. As palmas são enormes, nunca recebi tanta palma na minha vida. Não vou trocar isso por algo desconhecido.

A senhora não gosta de monólogo?

Não gosto. É um gênero que não me agrada, uma exibição do ator. O bom do teatro não é ficar falando sozinho. O bom é o jogo, você e eu, eu e você. Isso é que é o bonito, chama-se play, jogar. O monólogo é o tenista que fica solitário com a bola.

Uma frase sua: ‘A velhice é a prova de que o inferno existe’.

A velhice é a maior prova de que o inferno existe. O que você vai sentindo no seu dia a dia, alguém que era tão disposta como eu, vai te deixando menos disposta. Há atropelos da saúde. Eu já fui operada várias vezes da vista, não enxergo bem. Uso óculos escuros porque minhas lágrimas caem por fragilidade da vista. Fui operada três vezes, tenho uma fotofobia brutal. Sofro muito no teatro, recebo 200 mil volts de luz na cara. Quando saio, estou em lágrimas, meus olhos dóem. Não uso óculos escuros o tempo todo por charme e nunca quis me esconder atrás dos óculos. Nada disso. Eu faço isso por uma questão de falência ocular terrível. E em vez de ficar melhor a minha vista vai ficar pior.

A voz, no entanto, fica melhor.

Minha voz é jovem, é grande, está melhor.

Se teatro é voz, a velhice do ator não é um inferno.

Não, não é mesmo. Minha grande realidade está na voz.

A velhice é o paraíso?

(Risos) É, talvez nem tanto. Algo entre o céu e o inferno, vai.

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Fonte: Jornal da Tarde, 10/04/2006 – Acesse Aqui 

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