A velhice dos pais, a nossa própria velhice

Eliane Brum, mais uma vez, diga-se de passagem, “encantadoramente” se aventura nas questões do envelhecimento e dessa vez fazendo uma competente relação com os últimos filmes passados há bem pouco tempo no cinema que versam sobre o tema.

 

 

a-velhice-dos-pais-a-nossa-propria-velhiceEm “Esses filhos perplexos diante da velhice dos pais”, Revista Época, matéria de 15/04/2013, Brum comenta uma recente sequência de “filmes que mostra que a velhice mudou – ou está mudando”.

E é claro que isso vem de encontro com o aumento da expectativa de vida, um dos temas cruciais da sociedade contemporânea que procura entender como é ser velho nesses dias de hoje. Como diz a jornalista: “faz com que atores e atrizes sem muita chance de viver papéis desafiadores por conta da idade, muitos deles obrigados a uma aposentadoria não desejada, passem a ter a chance de interpretações magistrais, como foi o caso de Emmanuelle Riva e de Jean-Louis Trintignant, no excepcional Amor. Ou tem levado atores consagrados a se aventurar na direção depois dos 70, como fez Dustin Hoffman no encantador O Quarteto”.

Recentemente me perguntaram qual a razão para que “alguém” decidisse fazer um filme sobre velhos [a referência era sobre o filme Amor do diretor Michael Haneke]? Na verdade, a intenção oculta da pergunta era mais ou menos assim: “com tantos assuntos interessantes para discutir, por que escolher justo um amargo e doloroso e que além de tudo fala da finitude que todos nós teremos que enfrentar, seja hoje ou no mais tardar, amanhã?”.

Confesso que fiquei confusa, constrangida com a pergunta e para respondê-la uso as bem-ditas palavras de Brum. Para esses mágicos atores e atrizes e seus respectivos diretores e roteiristas, essas incontáveis e belas histórias que falam sobre esse complexo avançar dos anos resultam em “filmes em que a velhice é contada pelo olhar de quem a está vivendo e há várias formas de pensar sobre o que está sendo dito, dentro e fora da tela”.

Com base nisso, a jornalista pretende refletir sobre uma questão em particular apontada nos últimos quatro filmes exibidos: os filhos como seres ausentes e/ou atrapalhados, oscilando entre a boçalidade e a incapacidade de dar conta da própria vida.

O Excêntrico Hotel Marigold

“O Excêntrico Hotel Marigold , o mais fraco deles, um dos casais britânicos vai parar na Índia porque a filha gastou o dinheiro dos pais numa aventura empreendedora na internet. Assim, precisam encontrar uma opção mais barata de moradia, o que os leva ao excêntrico hotel do título. Ainda que depois a opção se mostre interessante, mesmo que por caminhos tortuosos, não foi uma escolha num primeiro momento. E sim uma reação à atrapalhação da filha, que se arriscou não com o seu próprio dinheiro, mas (convenientemente) com o dos pais, o que também é uma marca da nossa época”.

Um cenário comum, filhos que se apoderam das reservas dos pais. Mas que relação é essa que se permite tamanho desrespeito? A cautela é sempre importante quando avaliamos as relações entre pais e filhos. Nada acontece do dia para a noite, tudo é construído ao longo da vida e os limites precisam estar claros para ambas as partes.

“No ótimo E se vivêssemos todos juntos?, a filha do casal interpretado por Jane Fonda e Pierre Richard é uma chata pretensiosa que só aparece para (tentar) mandar nos pais e dar palpite na vida deles, para em seguida desaparecer. Já o filho do Don Juan interpretado por Claude Rich é muito mais participativo e francamente esforçado, mas o pai tenta escapar de todo jeito das boas intenções filiais porque esse filho só é capaz de enxergá-lo como alguém que vai quebrar a qualquer momento – o que é verdade, mas está longe de ser toda a verdade”.

Essas são os extremos das relações, uma filha pretensiosa e um filho excessivamente cuidador. No caso da jovem, não se vê intimidade, tudo se passa friamente, distante e parece que assim foi a vida toda. No caso do filho extremado, ah, quanta ingenuidade. Ele não conhecia seu pai, suas carências, desejos, malandragens, seu desejo de vida. E assim se dão os desencontros familiares.

“Em Amor, a maravilhosa Isabelle Huppert está menos maravilhosa no papel de filha do casal que se descobre velho de repente, numa manhã qualquer, em um segundo. Esta personagem, às voltas com um casamento que parece emocionante apenas pelas razões erradas, encarna a filha perplexa diante dos pais. Perplexa e apavorada diante da fragilidade e da finitude dos pais. Ela tenta intervir, ela tenta se impor, ela tenta dizer e fazer coisas sensatas – e tudo falha. Ela tenta principalmente ser potente, mas mal dá conta da própria vida. Seu diálogo com o pai, enquanto a mãe não sabe de si, é uma das cenas antológicas desse filme belíssimo”.

E o que dizer de uma filha – que muito se assemelha a cada um de nós – que navega, navega, mas nem sequer sabe aonde quer chegar? Pensa que ajuda, orienta, aconselha e tudo termina em vão. Palavras que não fazem sentido para o outro e menos ainda a ela. Talvez, ela própria não faça qualquer sentido: uma dura constatação.

“Em O Quarteto, que se passa num “lar para velhos” que foram cantores e músicos antes de perderem a voz, a memória ou a saúde, os filhos não estão lá. Surgem, ao fundo, nos dias de visita, mas nenhum dos personagens principais parece ter filhos. Artistas de ópera, eles possivelmente não tiveram tempo para a maternidade ou a paternidade. E esta não parece ser nem uma questão, nem um motivo de arrependimento, o que é bastante interessante. Se tiveram filhos, o fato não foi tão marcante a ponto de ser citado, o que de novo é bem interessante. O quarteto é primeiro um trio, que se ampara e se diverte na velhice como os amigos de uma vida inteira que foram e ainda são. A quarta personagem, que chega para fechar o grupo, é uma diva atormentada pela perda da potência, que no seu caso se expressa pela voz que falha. Ela terá de descobrir que pode cantar mesmo com uma voz que não é – nem jamais voltará a ser – a da juventude. E para isso terá de amarrar alguns fios esgarçados do passado.

Brum deixa claro que “só citou os últimos filmes”, lembrando que antes destes “já tivemos outros em que os filhos aparecem ora perdidos, ora oportunistas na vida dos pais, como no delicioso Elsa & Fred”.

Ela destaca que “o que vale a pena perceber é que, cada vez mais, ao contar a velhice pelo olhar de quem a vive, conta-se também da perplexidade dos filhos apatetados diante dos pais. Não mais os pais velhos como um estorvo para filhos que mal dão conta da sua vida, sem saber se os enfiam num asilo ou os carregam para casas ou apartamentos onde mal cabem eles. E sim filhos atrapalhados ou boçais que, quando aparecem, tornam-se um estorvo para os pais”.

Na verdade Brum se refere às vidas “de velhos poderosos porque não se deixam apartar de sua história na velhice, ao contrário. Apropriam-se dela e a usam para viver com intensidade seus últimos capítulos, apesar das inevitáveis perdas e limitações”.

Mas a jornalista não se limita a criticar. As palavras dela refletem um pouco ou muito de cada um de nós, quando diz: “Como filha de pais que envelhecem, eu me identifico com esses filhos perplexos e atrapalhados. Como uma mulher que envelhece, me identifico com esses velhos, nos quais me espelho para o futuro não mais tão distante. Em qualquer um dos casos, consigo encontrar discernimento para perceber o quanto é sensacional que os filhos, que se acham tão centrais na vida de seus pais, a qualquer tempo, sejam colocados no seu devido lugar”.

Perceber que nossos pais estão envelhecendo ou já envelheceram parece mais um golpe certeiro de que a vida tem realmente um fim. Não estamos falando dos pais de nossos amigos, são os nossos próprios pais que se aproximam do fim da linha.

Brum diz: “Ao perceber que meus pais estavam envelhecendo, em determinado momento achei que tinha de assumir também o comando da vida deles. Considerei que, para ser uma boa filha, tinha de ter todas as respostas. Ou, invertendo o lugar, me apropriar do famigerado ‘eu sei o que é melhor para eles’. Aos poucos fui percebendo que estava me tornando uma chata pretensiosa. Com tanto medo que eles quebrassem que queria carregá-los no colo, mas minha estropiada coluna vertebral mal dá conta de sustentar meu próprio peso”.

Mas se nem o nosso peso somos capazes de suportar, que dirá daqueles que nos acolheram pela vida? Sempre julgamos nossos pais, mas como será que eles nos veem?

Brum tem razão quando admite que “nós, os filhos, nos atrapalhamos mesmo. E acho muito divertida a ironia com que somos tratados nessa sequência de filmes, mesmo quando não estamos. (Como assim não estamos, nós, tão centrais na vida dos pais? Que horror!) Alguns se atrapalham porque se confrontar com a velhice dos pais é se confrontar com a certeza de que não há mais jeito de escapar da vida adulta. E, para quem achou que poderia continuar sendo filho para sempre, é uma complicação virar gente grande de uma hora pra outra. Ao tentar dar ordens aos pais, esses filhos na verdade estão dizendo: ‘Não me deixem sozinho nesse mundo tão ameaçador. Não me desamparem!’. E a irritação que manifestam diante das limitações dos pais muitas vezes é um jeito tosco de disfarçar o pavor que sentem diante do desamparo iminente. Isso para alguns”.

É como confessar: Não me deixem, não envelheçam, não morram! Eu fiz tudo tão certinho e agora vocês se vão, aos poucos, assim, sem pedir licença? A velhice não é justa.

Como aceitar a constatação trazida pela jornalista: “Para todos a velhice dos pais anuncia a própria velhice. É talvez o primeiro grande confronto com a fragilidade e com a finitude. Os filhos que olham aterrorizados para os passos claudicantes dos pais não temem apenas que eles caiam, mas principalmente que serão os próximos a ter pernas que vacilam. Ainda que não confessem nem para si mesmos, talvez seja este o maior horror” (…).

Como já era de se esperar, Eliane Brum, termina sua matéria com a graça e a sensível verdade que lhe são peculiares: “A frase da minha geração – e que já se anuncia na boca dos velhos do cinema – é outra: Incomodar os meus filhos? Nem me importaria. O que não quero é que os meus filhos me incomodem!”.

Referências

BRUM, E. (2013). Esses filhos perplexos diante da velhice dos pais. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2013.

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