A velhice bate na porta, a velhice bate na aorta

Não sei exatamente quando essa afinidade com os mais velhos começou, talvez lá na infância, quando circular pelas rodas dos adultos nas reuniões familiares, observar atentamente aquele universo tão diverso da velhice e ouvir suas histórias me parecia mais interessante que as brincadeiras das crianças.

Por Kátia Roiphe (*)

 

Uma imagem não sai da cabeça quando penso em velhice: um casal para lá de sexagenário montando cada um a sua prancha de windsurf e se preparando para atravessar o canal de São Sebastião rumo à Ilhabela. Eles faziam isso todo santo dia de mar e ventos favoráveis. Essa cena me acompanha desde os 18 anos e se fixou no meu imaginário como uma meta de vida: chegar à velhice sendo capaz até de… windsurfar, se eu assim quiser.

Naqueles tempos, e lá se vão – pausa para fazer contas – 37 anos, mal se via gente correndo pelas ruas. A atividade física ainda não entrava nas rotinas e agendas pessoais como se vê hoje em dia; o discurso, comprovado pela ciência, de que a prática regular de exercícios físicos é essencial para a saúde não estava nas nossas falas, muito menos nas nossas ações. Naqueles tempos, as pranchas de windsurf eram muitíssimo pesadas, seus mastros não eram ainda de carbono e era preciso duas pessoas para conseguir transportá-los. Naqueles tempos, velhos eram velhos, começavam a trocar o tergal pelos jeans, usavam saias abaixo do joelho em seus vestidos chemisiers, não falavam gírias, viviam suas aposentadorias diante da TV ou se resignavam à tarefa de cuidar de seus netos. Assim era a maioria dos velhos do meu entorno. Naqueles tempos, a velhice era algo muito, muito distante para mim e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), faltam apenas 5 anos para eu entrar definitivamente na velhice, a fase mais longa da vida. Definitivamente.

Não há como falar em gerontologia e envelhecimento sem ter que lidar com a minha própria velhice, aquela que bate à porta. A escolha por esta atividade e pelos cursos a ela relacionados traz em si, lá nos seus meandros, uma questão com o envelhecimento: há, genuinamente, um desejo de ajudar a diminuir os impactos do avanço da idade; há, genuinamente, o interesse no bem-estar do outro e há, acima de tudo, a intenção de mostrar que há possibilidades na velhice.

Não sei exatamente quando essa afinidade com os mais velhos começou, talvez lá na infância, quando circular pelas rodas dos adultos nas reuniões familiares, observar atentamente aquele universo tão diverso e ouvir suas histórias me parecia mais interessante que as brincadeiras das crianças. Só sei que, já na faculdade, me senti em casa quando estagiei no InCor. Os alunos do serviço de condicionamento físico, a maioria com mais de 60, me eram caros e próximos; um deles, anos depois, foi ao meu casamento e me visitou quando do nascimento da minha filha. Ouvi-los contar suas histórias não era uma obrigação, mas uma forma de tentar entender o caminho que os fizera chegar ali. E eu ouvia.

Minha avó também foi uma referência forte. Mulher porreta, como se diz na Bahia, sua terra natal, morou sozinha até morrer, aos 84 anos (e isso já faz quase um quarto de século, o que quer dizer que os 84 de então não eram os mesmos de agora). Aos 80 resolveu visitar uma amiga em Israel: arrumou sua mala – já com rodinhas, moderna que era – e… foi!

Ao falar da velhice sempre nos referimos às limitações. Então, pensamos na vida possível, na felicidade possível, na autonomia possível, nas novidades possíveis… ou será que não cabem novidades na vida de um velho? Pois é, falar do novo para o velho causa estranheza (mais ao novo que ao velho). Mas será mesmo que só os velhos sentem na pele (enrugada) o tal limite do possível ou ele, o limite, está presente em cada fase de vida? Talvez seja isso, penso cá com meus botões: os limites na juventude são como o Trópico de Capricórnio, aquela linha imaginária que corta o hemisfério sul, como aprendemos nas aulas de geografia da escola; já na velhice, eles são menos imaginários, mais concretos.

Não quero com esse palavrório todo negar cabelos brancos, cataratas, perdas auditivas e artroses, até porque inegáveis são; quero sim lembrar e fazer lembrar que se transferirmos o conteúdo de meio copo d’água para um copo com a metade da capacidade do anterior teremos um copo cheio de água. Basta então adequar as expectativas à realidade e seguir buscando uma vida de sentido (o seu próprio e não o do outro, que lhe é imposto), sendo o senhor do seu querer, dono de sua vontade; encarar desafios ao invés de se encolher nas redes de proteção, porque, como bem disse o poeta, “proteção desprotege”. E desprepara. Lembrar que para manter-se caminhando é preciso… caminhar.

Porque a velhice é continuidade.

P.S.: Quando completei 40 anos fiz um curso de windsurf; aos 50, experimentei andar de skate. Aos 60 pretendo fazer intercâmbio e trabalhar numa vindima (se isso ainda fizer sentido lá). Ainda não defini o que virá depois, só sei que virá, que eu vi (tranquilo e infalível feito Bruce Lee).

(*) Kátia Roiphe é graduada em Educação Física, com especialização em fisiologia do exercício, treinamento personalizado, massagem terapêutica e reflexologia. Atua em centros comunitários e em residências, atendendo velhos em grupo ou individualmente, na cidade de São Paulo. Texto escrito no curso Fragilidades na velhice: gerontologia social e atendimento, do Cogeae/PUC-SP, no segundo semestre de 2017. E-mail: kroiphe@hotmail.com

Foto de destaque de Luiz Doro

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