Vamos deixar o velho entrar?

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“Nunca deixo o que é velho entrar em casa”, diz Clint Eastwood. Na realidade, o que ele não quer deixar entrar em sua casa é a inatividade, a desocupação, a nostalgia… Por que então não passamos a dar nome aos bois ao invés de associar essas qualidades negativas somente e unicamente ao velho?


Está rolando na internet desde o ano passado um vídeo com Clint Eastwood tendo como fundo uma música do compositor e escritor country Toby Keith, que é amigo do ator, na qual diz que “não deixa o velho entrar”. A letra foi feita para Clint, um pouco antes dele fazer 88 anos (hoje ele tem 89), quando ambos jogavam golfe e Clint comentou que começaria a rodar novo filme. Keith quis saber o que o motivava a fazer novo filme com essa idade, e Eastwood respondeu que todas as manhãs, quando ele se levanta, não deixa o velho entrar. Toby Keith então escreveu uma composição e a enviou a Clint, esperando que ele a levasse em conta. O resultado está no vídeo a seguir.

Mas não é de hoje que Clint Eastwood, que já recebeu dez indicações ao Oscar, das quais levou a estatueta em quatro ocasiões, todas depois de ter passado dos 60 anos, repete esse refrão. Já em 2014, quando tinha 84 anos e que rodava o filme American Sniper, saiu uma matéria no jornal El País, de Rocío Ayuso, intitulada “Nunca deixo o velho entrar em casa”. Mas, afinal, o que significa essa frase?

Que velho é esse que habita o Clint, um velho ator?

Na leitura da reportagem fomos encontrando o que identifica o velho Clint, e em sua contraposição entender o que seria o velho que nele habita. Ao longe deste texto explicaremos melhor. Vamos então ver como a jornalista interpreta o velho Clint:

Ele continua ativo como ator, diretor, produtor, músico e até político. […]. No resto de sua carreira, quem não o bajula, admira o fato de um octogenário continuar a rodar, e não um, mas dois filmes por ano…”

Ela lhe pergunta qual é o segredo para um homem dessa idade continuar tão ativo, e a resposta de Clint, que dá título à matéria, é a seguinte: “Meu segredo é o mesmo desde que fiz Rawhide, em 1959: ficar ocupado. Nunca deixo o que é velho entrar em casa”.

Mais adiante a jornalista escreve:

É verdade que ele está parecendo mais frágil: olha para baixo ao falar, seu corpo balança em tremores ligeiros, sua barba por fazer tem partes grisalhas e mais finas, e de vez em quando o ouvido esquerdo o deixa na mão. Mas ainda se percebe sua força, em suas respostas, à sua volta, comportando-se como o rei do estúdio Warner, com o qual trabalha há décadas, enquanto seus assistentes avisam ao interlocutor que é melhor sentar-se do seu lado direito. ‘Se a gente deixa de viver olhando para frente, não há outra alternativa senão olhar para trás, e isso é cair na nostalgia’, diz Eastwood.

As palavras em italic visam trazer elementos para entendermos que velho é esse que o velho Clint não quer que entre em sua casa. Antes, porém, esclarecemos que velho é a palavra que nomeia a todos que estão vivenciando a velhice, assim como criança nomeia quem vivencia a infância, e jovem quem vivencia a juventude. Simples assim. Acontece que se criou outra palavra, sinônimo de velho, para designar aqueles que completam 60 anos, que é a palavra idoso. Hoje, contudo, temos um monte de outras palavras, tais como: maduros, experientes, talentos grisalhos, 60+ e por aí vai, todos neologismos para amenizar o que a palavra velho no fundo está dizendo: que não há outra fase da vida após a velhice e que portanto nossa régua de vida está se encurtando. Se alguém se interessar em aprofundar mais esta questão, recomendo a leitura de um artigo escrito para a revista mais60 do Sesc São Paulo explorando este tema.

No Brasil nos tornamos velhos ao completarmos 60 anos e por isso temos direito a transporte público gratuito e cartão de estacionamento, por exemplo. Querendo ou não, aos 60 anos os outros, a começar pela própria legislação, já nos olham como velhos, idosos, maduros, 60+, experientes… Na frase de Clint, verificamos que o velho que habita dentro dele, não aquele em que ele se tornou, é alguém inativo, desocupado, que olha para trás, nostálgico, e outros significados pejorativos, qualidades negativas que ele associa ao velho. Aliás, na sociedade ocidental, os velhos têm sido estereotipados como sendo indivíduos senis, chatos, inúteis e dependentes, mas estas imagens não correspondem à realidade.

Infelizmente, são esses modelos de velhos, negativos, de um passado distante, que continuamos carregando dentro de nós, habitando nossos imaginários, e perpetuando e reproduzindo os eternos preconceitos e auto preconceitos, apesar de termos nos tornado outros velhos, como Clint Eastwood o é. Na realidade, o que Clint (e toda torcida santista, palmeirense, corinthiana…) não quer deixar entrar em sua casa é a inatividade, a desocupação, a nostalgia… Por que então não passamos a dar nome aos bois ao invés de associar essas qualidades negativas somente e unicamente ao velho? Essa é a questão.

E por que não assumirmos que somos velhos contemporâneos, distintos dos que foram no passado e certamente diferentes dos velhos do futuro. E, ainda, por que não nos permitir sermos desocupados, inativos (que é sempre em relação ao mercado) e nostálgicos? Por que temos que sermos ativos o tempo todo e todo o tempo? O que é ser ativo? Inativo? Desocupado? Que tal pensar em algo que dê sentido e significado à vida de cada um? Buscarmos a plenitude de nossos seres, seja rodando um filme, lendo um livro ou simplesmente contemplando. Afinal, as velhices são diversas, heterogêneas e complexas.

Deixemos, portanto, o velho diverso, heterogêneo, complexo e contemporâneo que você se tornou ou virá a ser entrar em sua casa! E tenha orgulho dele. Quanto aquele outro “velho” do século passado, aquele que habita somente em seu imaginário, como no velho contemporâneo Clint, esse, por favor, deixe no passado e não o carregue para o presente nem o futuro. As velhices contemporâneas agradecem.


É comum a dualidade de sentimentos “crise ou liberdade” referentes à aposentadoria, ou seja, de um lado estão os que vivenciam esse fenômeno como crise e, de outro, aqueles que a percebem como uma oportunidade de uma vida com mais autonomia e prazer. Apesar dessas diferenças individuais, em geral, os trabalhadores almejam uma aposentadoria bem-sucedida. Mas o que fazer para se viver uma aposentadoria com qualidade de vida? Esta oficina já está com inscrições abertas: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/aposentadoria/

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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