Vacina no braço

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Choro pelas mães que perderam seus filhos, por toda dor que esta pandemia causou, choro de raiva do descaso oferecido ao nosso povo, choro pela tentativa de imunidade de rebanho que tantas mortes causou, choro a dor de quem morreu só e de quem não pode se despedir, choro um choro doído.


Mãe, quer ir comigo tomar a vacina?

Quando ele era bebê, sofria muito cada vez que precisava levá-lo à clínica de imunização, mas a razão e o bom senso sempre driblavam o sentimento de piedade ao imaginar aquele pequeninho ser tomar as injeções necessárias.  

– Larga de ser boba, não dói tanto assim e você bem sabe que se trata de um ato de amor a ele e ao próximo, conversava comigo mesma.

Quando chegava o dia, íamos como se fôssemos a um passeio e chegada a hora, em meu colo eu o abraçava fortemente numa tentativa de ver o meu amor amenizar a dor da picada.

Claro que ele chorava aquele choro ensurdecedor que apavorava as crianças na sala de espera e suas lágrimas escorriam em suas bochechas gorduchinhas e partiam meu coração.

No resto do dia ele ficava manhoso e eu ainda mais amorosa.

Lembranças como esta são muitas.

Com o nascimento dos irmãos, eram três crianças indo se vacinar com uma mãe que continuava a sofrer pela dor necessária. A promessa de comer cachorro-quente dava alegria ao passeio que eu propunha às crianças, obviamente sem avisar que uma parada para tomar vacina fazia parte do roteiro. Nada que o cheiro de salsicha com mostarda não curasse e as risadas que eles davam enquanto saboreavam o sanduíche apagavam a dor da injeção.

Hoje, ao ser chamada para acompanhá-lo na sua segunda dose da vacina para Covid precisei lidar com vários sentimentos e lembranças.

O dia frio parecia gelar os ossos. Idosos na fila para tomar a terceira dose e em cada um deles a vontade de continuar vivendo era evidente. Sim! Idosos desejam viver e querem viver, apesar de todo descaso que enfrentam. Alguns conversavam com seus acompanhantes enquanto outros ficavam em silêncio com seus pensamentos.

Fiquei me imaginando velha, muito velha, uma velha que certamente irá contar aos netos e bisnetos que um dia houve uma pandemia que a fez sentir muito medo. Contará aos netos que sentia pânico ao sair nas ruas e que se jogou na cama para chorar por toda dor anunciada e por tudo que viveu.

Esta velha dirá que teve pavor de perder o chão que pisava ao imaginar sua vida sem os seus amores caso estes fossem findados pelo vírus. Mas por fim, esta velha poderá dizer que sobreviveu a maior história de horror vivida em seu país.

Meus pensamentos vão longe e todo filme de terror vivido aflora em sentimentos que mal pude controlar ao ver meu filho prestes a ser vacinado.

Olho para ele com alegria. Seus olhos escuros ficam ainda mais fortes em seu rosto coberto pela máscara. Camiseta rasgada, mas favorita, jeito despretensioso de menino rabiscado por diversas tatuagens e em uma delas a vacina será aplicada. Pego o celular para registrar o momento. Olho a moça de avental branco preparar a injeção que será dada em seu braço. Ao fotografar encontro aquele bebê gordinho e o menino que sai para comer cachorro-quente com os irmãos. Corro para abraçá-lo. Desta vez é ele quem me consola e me ampara em seus braços. Choro pelas mães que perderam seus filhos, por toda dor que esta pandemia causou, choro de raiva do descaso oferecido ao nosso povo, choro pela tentativa de imunidade de rebanho que tantas mortes causou, choro a dor de quem morreu só e de quem não pode se despedir, choro um choro doído.

O vento gelado me desperta da dor e a gratidão por estar ao lado do meu filho seca minhas lágrimas.

Como dois companheiros seguimos voltando para casa.

-Doeu?

-Sim, a dor foi muita, mas parece que hoje, com esta picada, a vida poderá se recompor.

-Que tal um cachorro-quente?

Foto destaque: arquivo pessoal


Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: [email protected]

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