USP-Leste: aula inaugural para alunos da Terceira Idade

A aula inaugural é aberta para todos os alunos da Terceira Idade matriculados nos cursos oferecidos pela UnATI-EACH (USP-Leste).

Por Manuel de Barro

 

Aulas – parte 1.

Eu havia me matriculado em dois cursos, Anos 70 e Turismo Social. Saboia, sogro do meu filho, matriculou-se em cinco. Além dos dois que faríamos juntos, matriculou-se em Dormir Nunca é Perda de Tempo, Foi na UnATI que Aprendi a Batucar e Origami para a Terceira Idade. Na EACH tem cursos para todos os gostos, acreditem, e tudo gratuito.

– Cinco cursos só na EACH, Saboia, é um exagero.

– Não são cursos, Manuel, são disciplinas que frequentamos apenas uma vez por semana.

Anos 70 e Turismo Social são disciplinas quinzenais, mesmo dia e horário, por isso quem se matricula em uma acaba também se matriculando na outra.

Se a intenção do meu filho era me reaproximar do seu sogro, Saboia, conseguiu. Ele ligava o tempo todo para falar sobre os cursos. Preocupado com a conta telefônica, Maurício criou um grupo no WhatsApp.

– Pai, ninguém usa mais o telefone para ligar, é mais fácil enviar mensagens, o senhor vai se acostumar.

– Prefiro conversar com as pessoas…

Meus dedos eram grossos demais para digitar no minúsculo teclado do telefone celular. Maurício me repassou seu tablet. Havia comprado para ler textos longos, mas o encostou depois de se convencer que ler na tela não era produtivo.

– Imagine na minha idade?

– Não tem nada a ver com idade… apenas não acostumei.

O grupo inicial era formado pelo ditador, Maurício, pois deu a si mesmo o título de administrador sem consultar ninguém, sua mulher, Márcia, seu sogro, Saboia, Juvenal, meu filho ausente, minha nora Roseli, mulher de Juvenal, católica-espírita, e meus netos, o menino e as gêmeas.

– Ainda não entendi, Maurício, o que eu escrever todos vão poder ler?

– Por isso é um grupo, pai.

Mais uma tentativa de Maurício roubar minha liberdade. Mas, enquanto ele pensa que me controla, é controlado por forças invisíveis. Esses aparelhos não tem olhos, mas parecem saber tudo. Como diz Sylvio, um amigo do clube, é uma faca de dois legumes.

– Não vai dar certo.

O grupo implodiu em menos de uma semana. Minha nora, secretária, tinha todo o tempo do mundo para colecionar bobagens e postar no grupo. A sabedoria dos espíritas aliada às correntes do bem e às boas ações dos católicos não paravam de chegar. Meus netos deixaram o grupo para preservar a imagem da mãe bondosa antes que fosse substituída pela imagem da mãe babaca. Aproveitei a deixa.

– Eu também vou sair.

– Pai, antes o senhor reclamava que Juvenal era ausente, que Roseli havia roubado seu filho, que não via seus netos crescerem. Agora que estão todos reunidos, em contato…

– Maurício, nada disso é real, é uma representação da representação da pessoa. Roseli nunca me ligou para desejar bom dia ou boa noite, agora me aparece com essa história de bom dia/boa noite com mensagens de Chico Xavier e Bezerra de Menezes, imagens de bebês e anjos, essa mulher eu não conheço.

– Uma boa oportunidade para conhecer…

– Como diz Romário, me inclua fora disso.

Maurício criou um novo grupo. Eu, ele, Saboia e Márcia. Minha primeira mensagem foi uma indireta: neste grupo é proibido o uso de palavras no diminutivo e mensagens bobinhas de bom dia/boa noite com imagens de anjinhos.

Praticamente não dormi trocando mensagens com Saboia sobre os cursos e a aula inaugural. Na dúvida, enfiei tudo na mochila, caderno, lápis, bloco de anotações, agenda, tablet, caneta, régua etc.

Maurício bateu na porta do quarto logo cedo.

– Pai, seria bom o senhor ir de terno. Hoje, principalmente.

– Primeiro, bom dia. Foi como ensinei. Por qual razão eu colocaria um fato hoje?

– Todas as autoridades estarão presentes. Haverá uma solenidade, certamente.

– Maurício, está escrito aqui, leia, aula inaugural. Vamos ter uma aula, nada de solenidade!

– Pai, aula inaugural não é aula. E hoje eles vão querer homenagear a professora Ecléa Bosi, o senhor não acha?

– A homenagem será dia 15, na FEA, Faculdade de Economia e Administração da USP. Hoje é outra coisa, é uma aula aberta para todos.

– Pai, acredite em mim, o terno é o mais adequado para esta ocasião.

– Há anos não uso um fato, vou me sentir desconfortável. No dia da matrícula cheguei a experimentar um e não fechou… por que esta cara? Não acredita?

– Estou preocupado com o senhor. Cada vez usa mais palavras em português de Portugal. Fato, fato, fato. Por que não fala terno?

– Porque terno é quando você acerta três números na loteria…

– Outro dia o senhor perguntou ao Juvenal como estavam os miúdos. Em vez de crianças, miúdos. E só chama a tela do monitor do computador de ecrã.

– E qual é o problema?

– São sinais de demência, pai.

– Está querendo dizer que em Portugal só existem dementes? Porque lá falamos assim o tempo todo.

– Meu Deus, pai, o senhor distorce tudo…

– Sempre falei miúdos e só agora você está se dando conta. Não é porque fui diagnosticado com TNL, Transtorno Neurocognitivo Leve, possível Alzheimer, que perdi o juízo. O médico agora fala isso para todo mundo. É moda.

– Pesquisas feitas com imigrantes portadores de Alzheimer comprovam que eles recorrem a sua língua de infância conforme a doença avança. Esquecem as palavras correspondentes que aprenderam na nova língua…

– Chega, Maurício, deixe eu me trocar em paz.

– O terno. Quero ver como fica.

– Encolheu, não serve mais em mim.

– Posso ver como fica?

A vida toda duvidei das histórias dos meus filhos, agora Maurício duvidava das minhas. Vesti a calça e mostrei que não fechava.

– O tintureiro fez merda. Era para ter lavado a seco.

– Pai, o senhor engordou. Sua cintura parece um pneu de jamanta.

– Respeito é bom e eu gosto – disse olhando o reflexo do meu barrigão no espelho. – Pneu de jamanta…

– O senhor precisa fazer mais do que caminhar se quiser voltar a entrar nesses ternos. E devia fazer como o Saboia, parar de vez com a cerveja.

– Não tomo cerveja há anos… a última foi uma Bock, rótulo preto, sem álcool.

Maurício deu uma gargalhada.

– Desde quando o senhor toma cerveja sem álcool? Cansei de ouvir o senhor dizer que nenhuma presta.

– A Bock é maravilhosa… e não ria. Não gosto que duvidem de mim.

Livrei-me do terno e consequentemente do sapato social. Não sei como um dia usei aquele modelo de calçado. Bico de pato. Horrível. Como meu pé é enorme (e todo o resto, graças a Deus), lembrava sapato de palhaço.

– Vou deitá-los no lixo agora mesmo, estão descolando, vê?

– Deitá-los?

– Você entendeu.

– Por que não manda colar, estão novos.

– Mas são horrorosos. E Maurício, tomei uma decisão, até a formatura entrarei nesse terno, você vai ver.

– Mais um motivo para mandar arrumar seus sapatos.

– Os sapatos ficam por sua conta. Compre um novo, mas sem bico de pato.

– O senhor devia usar seus euros para isso.

– Meus euros são para viajar. E o saldo que ficar no cartão você usa para minha última viagem. A senha está marcada atrás.

– Essa viagem vai demorar, pai.

Se eu dependesse da Previdência brasileira morreria de fome. Para minha sorte, recebo pensão em Portugal. Deixo tudo nas mãos do Espírito Santo. Só mexo na hora de viajar. O Espírito Santo não é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade é um banco português que também tem uma agência de viagens, a Top Atlântico, que me leva a todo lugar. Como estou nas mãos do Espírito Santo, posso me dar ao luxo de mandar Deus passear.

– Pai, estou atrasado, tchau. Pode deixar que eu mesmo fecho o portão.

– Milagre! Vai com Deus, filho.

Pouco depois que Maurício saiu tocou a campainha. Era Saboia. Parecia um vendedor de Bíblia. Usava um terno folgado, surrado, verde musgo manchado.

– Bom dia, Manuel, pronto para a aula inaugural?

– Bom dia, Saboia. Por que o terno, posso saber?

– Hoje haverá uma homenagem para aquela mulher que criou a UnATI. A que morreu. Achei por bem…

– Achou nada. O Maurício e a Márcia inventaram essa história. Hoje o que vamos ter é uma aula. Aula inaugural, você sabe. Você está bem ridículo dentro desse terno. O defunto era bem mais gordo, não?

– Emagreci, Manuel. Perdi mais de dez quilos. Passei por uma fase difícil depois que me aposentaram compulsoriamente. Perdi o apetite, definhei, ainda estou tomando remédios…

– O Maurício me disse que você aderiu ao programa de demissão voluntária. Achei que havia sido suave.

– Suave, Manuel? Parece os meninos falando. Você sabe o que significa programa de demissão voluntária? É só um jeito de se livrar dos velhos. Decretaram minha morte. Por meses eu saía de casa cedo e só retornava no fim do dia. Ficava pelas ruas, perdido, bebendo…

– O Maurício disse que você parou de beber…

– O pior já passou. A vida não é só trabalho, concorda? Vamos recomeçar. A USP é uma oportunidade para a gente se reinventar.

Fiquei com inveja do Saboia. Tomou um pé na bunda e perdeu mais de dez quilos. O sujeito era magro e virou um palito. Por que essas coisas não acontecem comigo? Ando pra cima e pra baixo, subo e desço escadas, tomo chá de capim cidreira com hibisco e ainda assim ganho peso. O cara toma um pé na bunda e…

– Vou ao banheiro e já vamos embora. Desta vez faremos a baldeação no Brás, é melhor do que na estação Tatuapé. Vi no Google.

– Baldeação – repetiu Saboia.

– Conexão. É a mesma coisa.

Não era a primeira vez que Saboia me surpreendia com suas confissões. Quando você ignora as merdas do outro é mais fácil. Agora tinha que fazer o papel de bonzinho, ajudar Saboia a se manter no bom caminho. O problema é que ser bom não faz parte do meu currículo.

Tomamos um ônibus até o Tucuruvi para pegarmos a Linha Azul do Metrô até a Sé. Mudamos para a Linha Vermelha e descemos no Brás. Do Metrô até a plataforma do trem é uma longa caminhada. Como não há indicação de horários, todo mundo corre e se atropela com receio de perder o trem.

– Vou ter um ataque, Saboia, mais devagar.

O risco de alguém desabar das escadas é alto. No fim, alcançamos o trem, sentamos, suados, bufando, o corpo alterado e o trem continuou parado, desmaiado, rindo dos maratonistas infelizes. Custava ter uma placa com o horário? Próximo trem para Calmon Viana, tal hora.

– Aquele casal está indo para a EACH – observei depois que me recuperei da corrida.

– Tem razão. Estão arrumadinhos como se fossem para uma festa – concordou Saboia.

– O clima não será de festa. De acordo com Maurício e Márcia haverá homenagens póstumas à professora Ecléa Bosi, idealizadora da UnATI. Nisso eles podem ter razão.

– Na FEA, a homenagem será dia 15, no Dia da Calourada, você viu?

– Vi e anotei na agenda.

– Desde quando carrega agenda?

– Ganhei do meu filho. Agora ando com agenda, caderneta e tablet. Dia 15 cai numa terça-feira – disse conferindo a data.

– Vamos perder a aula inaugural dos Anos 70 e do Turismo Social.

– Quem disse? Vai todo mundo pra FEA participar do Dia da Calourada.

– Não, Manuel, o povo daqui não se mistura com o de lá. É cada um no seu quadrado.

– Mas não é tudo USP?

– Esqueceu que aqui é EACH? Você mesmo me explicou. USP-Leste é a estação de trem, aqui é EACH, Escola de Artes Ciências e Humanidades.

Descemos na Estação USP-Leste e novamente fomos barrados na portaria do campus que fica literalmente na porta da estação.

– Ridículo ter que apresentar documento para entrar em uma universidade pública – protestei em voz alta e enfatizei a palavra pública.

– Quando o senhor receber sua carteirinha poderá entrar direto – disse o segurança.

Apresentei o RG e Saboia a carta de motorista, a CNH, e me provocou.

– Não usa mais a sua?

– Está em casa, mas prefiro carregar o RG.

Parei de dirigir e nunca mais andei com a CNH. Estava atualizada, mas só servia para Maurício transferir os pontos das multas que se acumulavam. Maurício não é mau motorista, é que existe uma indústria de multa em São Paulo. Ninguém escapa. É o que ele diz.

– Pai, não precisamos de dois carros, vou vender o meu e ficaremos só com o do senhor que é mais novo.

Vendeu o dele, um Fiat caindo aos pedaços, e se apoderou do meu Honda novinho. Como o carro está no meu nome, as multas e os pontos passaram a vir direto para mim.

– Pai, assina aqui.

– O que é isso?

– Agora é o senhor que precisa transferir pontos para mim…

– Isso não é certo, Maurício…

– É o que todo mundo faz…

Encontramos o auditório repleto para a aula inaugural. O casal que vimos no trem estava diante do palco.

– São convidados – deduziu Saboia.

O casal só não queria se misturar. O povo estava vestido como quem vai para a feira na hora da xepa. Uma pessoa ou outra havia caprichado no visual. O casal acabou por ser enxotado. Veio sentar quase ao nosso lado.

– Olha quem tá vindo pra cá – apontei para a mulher do ménage.

– Lembra o nome dela?

– Devo ter anotado em algum lugar…

– Manuel e Saboia, acertei?

– Poxa, que memória…

– Levantei para ir ao banheiro e vi vocês aqui. A turma dos Anos 70 e Turismo Social está lá do outro lado. Tem lugar se quiserem ir pra lá.

– Estamos bem, obrigado – respondi constrangido por não lembrar seu nome.

Assim que a colega foi se juntar a turma dela, lembrei, Das Graças, mas já era tarde.

– Começou – disse Saboia.

A coordenadora da UnATI-EACH foi a primeira a falar. Estava apressada. Saudou os alunos e caiu fora. Ninguém usava o palco. Mantinham-se na frente, mas no mesmo nível do público.

Parecia tudo na base do improviso. O professor responsável pelas aulas de teatro e vídeo, Mr. Pepper, anunciou um documentário feito por sua equipe com a colaboração de uma convidada especial, uma aluna de pós.

– Vai começar a homenagem – disse Saboia.

O filme não era sobre a professora Ecléa Bosi, era sobre os dez anos da UnATI-EACH que estava completando 11 anos. O roteiro destacava a importância das atividades intelectuais para o cérebro. Falava sobre a importância dos exercícios cognitivas e físicos, musculação, memória, essas coisas que geriatra e psicóloga cognitiva batem na tecla.

Finalizado com um ano de atraso, o documentário estava desatualizado, mas passava uma boa mensagem para os alunos da terceira idade.

– Manuel, o pessoal aqui é muito esforçado, faz tudo com muito amor. Percebe como se doam? Dá gosto de ver. Os olhinhos das meninas brilham quando falam com os idosos.

– São alunos do curso de Gerontologia. Estão de olho nesse novo mercado. Os jovens têm tendência a arrancar dinheiro dos velhos. Nada de novo.

– Manuel, para de falar bobagem.

– Silêncio – pediu uma senhora.

Mr. Pepper falava das dificuldades que enfrentaram para a realização do documentário. Desculpou-se pelo atraso na montagem e edição.

– Antes tarde do que nunca – disse Saboia em voz alta recebendo olhares bondosos e solidários.

Meu olhar era de censura. Detesto comentários desnecessários.

– A comunidade científica está triste porque a professora Ecléa Bosi, idealizadora do projeto da UnATI, faleceu há alguns dias… quando fizemos o filme ela ainda estava viva, mas há poucos dias… menos de um mês – Mr. Pepper falava e olhava em volta na esperança que alguém o socorresse com a data exata do falecimento da professora Ecléa Bosi, mas ninguém o ajudava.

– Saboia, a data?

– Hoje é primeiro de agosto.

– A data que a professora Ecléa Bosi faleceu, lembra? Dez de julho. Avisa.

– Dia dez – disse Saboia. – Dez de julho – repetiu.

O professor de teatro olhou na nossa direção.

– Ele não ouviu. Fala alto, Saboia.

– Dia Dez! – Saboia quase gritou.

O teatro inteiro ouviu, mas o professor desconfiou da informação dada por um idoso de fora da academia. Seguiu com sua fala como se o dez de Saboia não fosse um dez de verdade. Dez é um número raro nas universidades. Aquele professor, em particular, não se achava merecedor de um dez. Para um homem de teatro, faltou inspiração. Poderia ter feito daquele dez uma homenagem singela e verdadeira à professora Ecléa Bosi: uma professora nota dez…

O professor ignorou a contribuição de Saboia e prosseguiu com a programação dos dez anos da UnATI-EACH que completava 11 anos e por isso essa confusão toda com o dez.

A aula inaugural foi montada em torno do documentário e de alguns depoimentos. Uma homenagem ao umbigo da EACH. Tremendo sucesso, pois os idealizadores, produtores e atores estavam quase todos presentes e um batia palma para o outro. O clima de festa tomou conta do auditório e os aplausos alcançaram os píncaros.

Seguiram-se perguntas, comentários, depoimentos e uma grande confraternização. Uma senhora foi chamada para falar sobre sua experiência. Foi comovente e animador.

– Meus filhos compravam celular novo e me davam o velho. Mas nenhum tinha paciência para me ensinar a usar. Foi quando tomei conhecimento do curso Idoso Online. Fiz minha inscrição e em um ano aprendi tudo sobre smartphone e tablet. Graças aos conhecimentos que adquiri aqui na EACH fui contratada pela TIM. Hoje são meus filhos que me procuram para tirar dúvidas e pedir dicas.

Levantamos para bater palmas. Comentei com Saboia que Maurício me deu um tablet.

– No próximo semestre vou seguir o exemplo dessa senhora.

– Trabalhar na TIM?

– Aprender a mexer na porra do tablet.

Em seguida o professor chamou todos os voluntários e monitores para a frente do palco. Formou-se um cordão humano. Alunos do curso de Gerontologia e Moda. Um a um se apresentava e falava de sua experiência com os idosos.

– Essa molecada gosta mesmo de velho – admiti.

Com raras exceções, todos apareceram no filme. Deram informações sobre os cursos que monitoravam ou ministravam. Felizes e orgulhosos por trabalhar com o público da terceira idade.

– Bons meninos – disse Saboia. – Temos que tirar o chapéu para essa garotada.

Aceitei o comentário sem implicar. Pareciam bem instruídos, maduros, honestos e dedicados. A alegria deles era verdadeira. Os primeiros a falar estavam bem nervosos, mas conforme a fila andava o clima ficava ameno e as gracinhas dos idosos ajudavam a relaxá-los.

A fila já estava quase no final quando uma mocinha pegou o microfone. Lembrava a filha do Saboia, Márcia, minha nora. Meiga e graciosa.

– Acho que já conheço a maioria aqui, mas estou vendo muitos rostinhos novos e isso é muito bom, não é meninos?

– Rostinhos? Onde ela está vendo rostinhos de meninos?

– É um modo carinhoso de falar – disse Saboia.

– Sua filha pode falar assim; uma aluna do curso de Gerontologia, não.

– Por quê?

– Isso aqui não é um Jardim de Infância. Tenha dó, Saboia.

– Queria que ela falasse o quê?

– Rostos novos. Caras novas. Rostinhos é… como é que foi mesmo que disse aquela atriz, Bete Lago, sobre Melhor Idade?

– Melhor Idade é o cacete – ajudou-me a senhora que pediu silêncio. – Mas quem falou foi Beth Faria.

– Então é isso, rostinhos é o cacete, a senhora concorda comigo?

– Concordo. Eunice. Mas pode me chamar de Nice. Nada de senhora. Vou fazer Anos 70 com vocês e, se tiver perna, Turismo Social. Mas não vá implicar com a moça por causa de uma palavrinha à toa, às vezes escapa.

– Uma futura gerontóloga não pode falar rostinhos de meninos. Não é uma palavrinha. São duas mais um conectivo se é que se chama assim.

– Ela falou rostinhos e depois meninos, não rostinho de meninos. Quem falou rostinho de meninos foi você. Não sei como suporto suas rabugices.

– Suporta porque são amigos – disse a senhora levantando-se para esticar as pernas. – Agora vai ter teatro e música, vocês vão ficar?

– Pode ser, mas enquanto eles arrumam o palco podemos tomar água.

Levantamos todos. Saboia parecia um espantalho dentro do seu terno folgado e espalhafatoso.

– Amigos, casais e parentes se suportam, concordo com a Nice.

– Vai ficar com ela. Cansei de suportar seu mau humor.

– Só falou isso porque viu Das Graças, a mulher do ménage. Vai lá ficar com ela – repeti a mesma frase e ele riu.

Saboia apressou o passo para falar com Das Graças e Nice surgiu ao meu lado como um raio de sol.

– Não me falou seu nome…

– Manuel. Sou português da Madeira mas resido no Brasil há muitos anos. Meu geriatra me indicou os cursos porque diz que estou a caminho do Alzheimer.

– Todos estamos. Cedo ou tarde nosso cérebro adoece. Foi o que disse meu geriatra. Temos que fazer essas atividades como prevenção. Mas uma hora chega. Espero que só chegue para mim na hora da morte. Já fez seu testamento vital?

– Ainda não parei para pensar no assunto. Meu filho queria que comprássemos um jazigo em um cemitério no Morumbi, limpo e bonito, seria nossa última morada. Mas prefiro deixar esse mundo como um foguete, com fogo no rabo como fez minha mulher.

– Que horrível, Manuel, sua mulher morreu em um incêndio?

– Não, minha senhora, foi cremada.

– Ufa! Acho uma boa ideia a cremação, mas minha família já tem um jazigo na Vila Formosa e não aceitaria nada radical nessa altura da vida. Segura para mim, vou ao banheiro. Não saia daqui. Vou aproveitar que a fila diminuiu.

De repente me vi parado entre uma porção de gente com a bolsa de uma mulher nas mãos. Olhei ao redor e avistei Saboia. Ele parecia me procurar com os olhos da mesma forma. Fez sinal e saí pedindo licença para as pessoas até alcançá-lo no outro extremo.

– Estamos pensando em assistir ao teatro e sair para comer alguma coisa. Das Graças vai para a Luz. Veja com sua amiga se ela topa ir junto.

– Por que não uma cervejinha para comemorar nossa volta à escola. Cerveja e petiscos.

– Por mim, tudo bem – disse Das Graças. – Conheço um lugar que faz umas comidinhas maravilhosas. O teatro vai começar, vamos entrar?

– Vamos… mas antes deixa ver se acho a mulher, como se chama, Saboia?

– Nice. Eunice.

– Nunca mais faça isso – gritou a mulher no meu ouvido. – Se quer ser minha amiga, nunca mais me dê um susto como este!

A mulher tremia. Estava sem cor. As pessoas em volta ficaram nos olhando, aturdidas.

– O que houve, Eunice?

– Você sumiu com minha bolsa e ainda pergunta o que houve?

– Calma. Aqui está sua bolsa. Vá tomar uma água com açúcar e se acalmar.

– Espero que esteja tudo aqui – disse a mulher virando o conteúdo da bolsa sobre uma mesa. Esperei ela conferir seus pertences.

– Posso ir?

– Já vai tarde!

A mulher foi embora e Saboia começou a rir. Acabei por rir também.

– Parecia tão normal – comentei ainda rindo.

– Todos aparentamos ser normais – disse Das Graças. – Olhando assim, não temos como saber quem é quem, pois o que vemos é só aparência.

– Quer dizer que não vivemos em um mundo real?

– Vivemos em um mundo de aparências.

– Então o mundo real não existe, é ficção.

– Não existe – disse Das Graças. – É tudo ficção.

– Do que vocês estão falando? – perguntou Saboia.

– Nada. Não vou ficar mais para o teatro. Vou embora. Vou encher a cara.

– Bom, eu e a Das Graças…

– Desculpa, Saboia, acabei de lembrar que preciso passar sem falta na costureira.

Saboia ficou arrasado. Fomos beber na minha casa. Passamos no mercado e compramos duas dúzias de cerveja. Enquanto gelava, secamos a garrafa de bagaceira. Depois, como nos velhos tempos, passamos a enxugar latas e falar de nossas vidas. O que fizemos, o que deixamos de fazer.

– Você é meu amigo de verdade?

– Claro que sou, Saboia.

– Sabe guardar segredos?

– Não sou cofre para guardar segredos.

– É sério, Manuel, tem uma coisa que nunca contei para ninguém porque nunca tive um amigo de verdade em quem confiar…

– É melhor que não conte.

– Você é meu amigo ou não é?

– Saboia, Maurício já está chegando, vai levar você para casa, aí você toma banho, deita e amanhã, se ainda quiser me contar algum segredo, ouvirei com o maior prazer…

– Quero contar hoje porque você tá bêbado e amanhã já esqueceu. Posso contar?

– Quem tá bêbado é você. Mas se quer contar, conta de uma vez.

– Suzy não morreu de parto coisa nenhuma.

– Sua mulher não morreu de parto?

– Não, não e não…

Fiquei chocado. Como uma pessoa pode mentir para a filha por mais de trinta anos? Mentir para mim, para meu filho, para todos no bairro, no trabalho, tudo bem, mas mentir para a própria filha sobre a mãe soava perverso demais.

– Márcia sabe disso? – perguntei para ter certeza.

– Não sabe, não pode saber e nunca saberá.

– Mas o que aconteceu?

– Suzy nunca quis filhos.

– Gravidez indesejada acontece…

– Ela tentou tirar, mas descobriu tarde e o risco era grande. Eu me dispus a assumir e cuidar das duas.

– Foi quando vocês casaram…

– Suzy nunca quis filhos e nunca quis casar. Nem comigo nem com ninguém. Só queria meu dinheiro. Mas eu era apaixonado por ela, entende?

– E era o pai da criança, suponho…

– Pai é quem cuida, quem cria… nesse sentido sou o pai, certo?

– Sem dúvidas.

– Suzy pirou, largou a menina comigo e se mandou. Sumiu no mundo – Saboia desabou. – A filha da puta me abandonou, abandonou a filha, desapareceu. Puta. Bandida. Safada – Saboia xingava e chorava como um bebê.

– Calma, amigão. Você é forte.

– Vocês falaram que é tudo farsa. A vida é uma farsa, Manuel. O que a gente vê não é o que é.

– Você vai sair dessa. Márcia compensou tudo. Ela é sua vida.

– Eu cuidei dela, Manuel, para quando Suzy voltasse ver que fiz um bom trabalho. Mas ela nunca voltou. Nunca amei outra mulher na vida… não consigo… pois ainda espero a vadia…

– Quem sabe agora, com os cursos, com uma nova vida social a gente supere um bocado de coisas, eu e você. Vamos nos reinventar, não é isso?

– Manuel, a menina havia acabado de nascer. A filha da puta só pensou nela. Deixou um bilhete e sumiu… acredita? Sumiu!

Saboia chorava e se lamentava quando ouvi Maurício bater o portão. Sem saber o que fazer para tirar Saboia daquele pastelão, peguei o resto de cerveja que havia na garrafa e derramei na sua cabeça.

– Porra, Manuel, que merda é essa?

– Tombei a garrafa sem querer… Maurício chegou… vou pedir para ele levar você… usa o pano de pratos para se secar…

Corri para não deixar Maurício entrar com o carro na garagem.

– Precisa levar seu sogro para casa. Bebeu demais.

– Bebeu? Pai, o Saboia não podia beber, ele toma remédio para depressão.

– Ele devia saber disso, não eu. Estávamos comemorando nosso primeiro dia de aula.

– Teve aula?

– Não foi bem uma aula, mas também não houve uma solenidade.

– O senhor inventou uma desculpa para tomar um porre e fez Saboia beber junto. E agora, o que vou falar para a Márcia?

– Sei lá…

Saboia estava largado no sofá. Mudo, graças a Deus. Ajudei meu filho a enfiar seu sogro no carro. Ainda bem que é peso pena.

Depois continuo.

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Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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