Uso de medicamentos por idosos: alerta sobre o excesso de remédios

Alguns idosos não tomam nenhum medicamento. Outros, terem várias doenças e tomar vários remédios, predispondo a efeitos colaterais decorrentes do uso dos mesmos. Alguns medicamentos não são apropriados para adultos mais velhos ou podem estar em doses muito altas.


Medicamentos que podem parecer mais seguros para adultos jovens e de meia-idade podem não ser tão seguros para adultos mais velhos. Isto ocorre porque, à medida que nos tornamos mais velhos, perdemos, normalmente, um pouco da capacidade de processar medicamentos devido à diminuição das funções renal e hepática. Também, os adultos mais velhos têm maior proporção de gordura no corpo, o que pode fazer com que certos medicamentos permaneçam no nosso corpo por mais tempo. Estes fatores aumentam a sensibilidade dos idosos aos efeitos colaterais dos medicamentos. 

Alguns idosos não tomam nenhum medicamento, mas, outros, podem ter várias doenças e podem tomar vários medicamentos, o que predispõe ao aparecimento de diversos eventos adversos prejudiciais decorrentes do uso de remédios. Alguns medicamentos podem não ser apropriados para uso por adultos mais velhos ou podem estar em doses muito altas para esta faixa etária.

Acertar os medicamentos é uma das principais preocupações dos idosos e de seus cuidadores. Mas eles estão cientes dos possíveis efeitos colaterais que certos medicamentos podem causar? 

Uma pesquisa recentemente publicada, realizada com 2.361 idosos e 405 cuidadores moradores nos EUA, mostrou que 40% dos cuidadores relataram que o indivíduo sob seus cuidados toma seis ou mais medicamentos diferentes por dia. Entre os idosos com mais de seis condições crônicas, um em cada três toma mais de dez medicamentos por dia. Apesar da prevalência do uso múltiplo de medicamentos, uma proporção significativa de idosos e cuidadores desconhecia que certos medicamentos não são recomendados para idosos. 

Mais da metade dos idosos e 45% dos cuidadores que responderam à pesquisa não estavam cientes de que os idosos deveriam evitar certos medicamentos, tais como: ansiolíticos, indutores do sono, antialérgicos vendidos sem receita e certos medicamentos para diabetes. Apenas cerca de 60% dos idosos e 68% dos cuidadores sabiam que certos medicamentos, tais como anticolinérgicos, ansiolíticos e antipsicóticos, podem piorar a função cognitiva e causar confusão mental. Porcentagens ainda menores, tanto de idosos, quanto de cuidadores, diziam desconhecer que medicamentos usados para dormir ou alguns tipos de remédios para hipertensão estão associados a um aumento do risco de quedas.

Esta mesma pesquisa observou que há questões culturais importantes associadas ao uso de medicamentos. Idosos e cuidadores de etnia hispânica e afrodescendente disseram ser importante tomar medicamentos sempre que há algum sintoma. Também, membros destas etnias mostraram maior desconhecimento sobre uso de medicamentos que os idosos e cuidadores brancos, o que pode ser atribuído às iniquidades de acesso à educação e saúde entre estes grupos nos EUA.

Estes comportamentos, ressaltam os autores, têm impacto importante quando se fala de deprescrição, pois, de acordo com a pesquisa, os entrevistados hispânicos e negros são menos propensos a ter discussões sobre o uso de medicamentos desnecessários com seus médicos, em comparação com os entrevistados brancos. Esses resultados apontam para uma importante desigualdade em saúde que pode estar levando a um aumento do dano para a saúde das pessoas mais velhas pertencentes a estes grupos étnicos.

Ainda, segundo estes autores, somente metade dos participantes da pesquisa assinalou que um profissional de saúde conversou com eles sobre a interrupção dos medicamentos. Segundo os autores, isso é desencorajador, mas não surpreendente, já que muitos médicos não conversam com os idosos e seus cuidadores sobre desprescrição, por esperar resistência destes. No entanto, se mais pacientes e cuidadores tiverem conhecimento de possíveis danos causados por medicamentos, é mais provável que expressem suas preocupações e solicitem discutir a prescrição. 

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) ressalta que a desprescrição é um processo importante na atenção à saúde da pessoa idosa. Alguns passos devem ser seguidos caso haja necessidade de desprescrição.

Assim, o primeiro passo é definir quais dos medicamentos que a pessoa idosa utiliza devem ser retirados, verificando, principalmente, se a medicação foi prescrita para um diagnóstico confirmado, se há efetivo benefício no uso do remédio ou se foi prescrita apenas para tratar efeitos colaterais de outros medicamentos, em um processo conhecido como “cascata iatrogênica”.

O médico deve ainda verificar se há outro tratamento igualmente efetivo e não baseado em remédios que possa ser indicado para aquela situação e se o medicamento é compatível com a circunstância de vida naquele determinado momento. A prescrição de qualquer fármaco deve considerar a relação risco-benefício da medicação, se foi adequadamente avaliada, mas mesmo assim pode ser que em determinadas situações, a medicação como anticolinérgicos, por exemplo, pode ser suspensa.

As principais situações em que a desprescrição deve ser considerada envolvem, segundo a SBGG, o surgimento de um novo sintoma ou síndrome clínica, compatíveis com um evento adverso devido à medicação; estágios finais de doenças terminais, fragilidade extrema, grave prejuízo da funcionalidade; uso de medicamentos com alto potencial para complicações e situações em que a interrupção do medicamento não levará a agravamento da doença em questão.

Porém, é importante, acima de tudo, que as pessoas idosas e seus cuidadores estejam informados sobre os eventos adversos que podem surgir com o uso das medicações e que estas pessoas sejam informadas de que todo e qualquer medicamento tem sim efeitos colaterais, devendo seu uso ater-se a situações nas quais há efetiva necessidade.

Referências
Lown Institute. Muitos idosos e cuidadores desconhecem os riscos das drogas, constata pesquisa. Disponível em: https://lowninstitute.org/news/many-older-adults-and-caregivers-unaware-of-drug-risks-survey-finds/?fbclid=IwAR33kdfXJrWfcCF28GdfKCTh1DlpIO3VVNbxbc3JLhjUf4YgoxJ6cLXWSCc. Acesso em 10 nov 2019.

Oliveira, HSB; Manso, MEG. Tríade iatrogênica em um grupo de mulheres idosas vinculadas a um plano de saúde. Rev. bras. geriatr. gerontol., Rio de Janeiro, vol. 22(1), e180188, 2019.

SBGG. O processo de desprescrição. Disponível em: http://ww.sbgg-sp.com.br/pro/desprescricao/. Acesso em 09 out 2019.


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Maria Elisa Gonzalez Manso

Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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