Uso de Cannabis no tratamento de idosos com Alzheimer

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Os canabinoides se mostram uma alternativa ao tratamento usual da Doença de Alzheimer por terem efeitos colaterais reduzidos e por atuarem na etiologia da doença, prevenindo ou retardando a sua progressão.


Em colaboração com: Gabriela Mansini Nunes; Beatriz Giuliano Bueno; Beatriz Benedetti França; Isabelle Grossman; Luiza Ferreira de Brito Farinas; Vinicius Couto Mabilia; Rodrigo de Almeida Antunes (*)


A Cannabis pode ser encontrada na natureza sob a forma de diversas espécies: Cannabis sativa, Cannabis Indica, Cannabis ruderalis. Essa planta possui diversos princípios ativos, os quais são conhecidos como fitocanabinoides, mas dois deles são os mais utilizados para fins medicinais, são eles: o Δ⁹-tetra-hidrocanabinol (THC) e o Canabidiol (CBD), sendo que o primeiro pode atuar como psicoativo dependendo da quantidade administrada no medicamento. Ambos os princípios são importantes no combate de diversas doenças neurológicas, tais como: Doença de Parkinson, Esclerose Múltipla, Transtornos do Espectro do Autista e, em especial, na Doença de Alzheimer. Esta última, a principal doença neurodegenerativa responsável pela demência.

Pode-se considerar, de maneira geral, que a Doença de Alzheimer afeta principalmente pessoas acima de 65 anos, sendo que as estatísticas de incidência, portanto, casos novos da afecção, aumentam progressivamente com a idade. Muitas vezes o diagnóstico dessa doença neurodegenerativa leva anos, pois seus sintomas podem ser considerados como sendo consequências do próprio processo de envelhecer. Os principais sintomas da Doença de Alzheimer são perda de memória e raciocínio lento.

Uma análise geral sobre os medicamentos atuais para a Doença de Alzheimer deixou claro a sua pouca eficiência, visto que nenhum deles evita ou retarda a progressão da doença. Além disso, tais drogas também apresentam efeitos colaterais frequentes. Com base nisso, os canabinoides se mostram uma alternativa ao tratamento usual por terem efeitos colaterais reduzidos e por atuarem na etiologia da doença, prevenindo ou retardando a sua progressão.

O conhecimento atual sobre a fisiopatologia da Doença de Alzheimer indica que placas de βamiloide e emaranhados neurofibrilares são alterações celulares características da Doença e que levam à inflamação neuronal e estresse oxidativo, resultando em neurotoxicidade, o que levará à morte neuronal e neurodegeneração – atrofia do hipocampo e outras áreas do cérebro – causando o declínio cognitivo característico da Doença de Alzheimer.

Além disso as células do sistema nervoso que, entre outras funções, desempenham atividades de limpeza e combate a infecções, se agrupam ao redor das placas senis com a intenção de retirar o que é considerado estranho pelo organismo. No entanto, a elevada quantidade de βamiloide nessas placas prejudica a atividade dessas células, debilitando sua função. Assim, vão se formando agrupamentos de células com atividade reduzida e que pioram o declínio cognitivo causado pela neurodegeneração.

Os efeitos positivos do tratamento da Doença de Alzheimer pela Cannabis estão relacionados com o sistema endocanabinoide, responsável pela captação e processamento dos canabinoides no sistema nervoso, sejam eles produzidos pelo corpo ou fitocanabinoides presentes na cannabis. Foi comprovado que esse sistema evita o estresse oxidativo, a neuroinflamação e os danos neuronais a partir de um conjunto de receptores celulares e moléculas sinalizadoras de intensa atividade cerebral. Os receptores podem reduzir a citotoxicidade através da proteção dos neurônios, diminuição da neuroinflamação e estímulo a neurogênese.

Os dois principais fitocanabinoides da planta Cannabis sativa, THC e CBD, são responsáveis por diminuir os efeitos da Doença de Alzheimer em ratos nos estágios mais iniciais da afecção. Do mesmo modo o CBD se mostra com fortes propriedades neuroprotetoras, antioxidantes e anti-inflamatórias. Os efeitos positivos do canabidiol na etiologia da Doença de Alzheimer foram comprovados pela administração desse composto em ratos, levando à inibição de muitos processos envolvidos na fisiopatologia do Alzheimer, tais como diminuição da formação de emaranhados neurofibrilares.

Assim, tanto o THC e quanto o CBD podem ter efeitos positivos nos seguintes sintomas: agitação, ansiedade (quando em doses baixas), agressividade, depressão e dor. Além disso, ambos atuam na neuroproteção e na redução da formação de placas senis. Individualmente, o tetraidrocanabinol alivia tanto a insônia quanto a anorexia e ameniza a perda de memória, enquanto o canabidiol, atuando sozinho, auxilia apenas na psicose.

Apesar da falta de evidências a respeito do uso de canabinoides no tratamento da Doença de Alzheimer em humanos, as pesquisas mostram que o tratamento pode ser bastante promissor.

(*) Gabriela Mansini Nunes; Beatriz Giuliano Bueno; Beatriz Benedetti França; Isabelle Grossman; Luiza Ferreira de Brito Farinas; Vinicius Couto Mabilia; e Rodrigo de Almeida Antunes, são graduandos(as) de Medicina de Centro Universitário São Camilo/SP.

Foto de Oliver King/Pexels


Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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