Uma vida de cuidado

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O cuidado é uma necessidade e uma obrigatoriedade à vida, não só no fim. Nos dois extremos da vida, após o nascimento e na idade madura o cuidado é algo essencial, porém com significados distintos. Sozinho, o bebê não sobrevive. Existir me coloca obrigatoriamente em posição de dependência do outro. O ato de cuidar denota uma ação que traz à mente preocupação, aconchego, acolhimento e sentimento de responsabilidade para considerar as necessidades humanas de preservação da vida pelo ser cuidado.

Ana Elisa Sena *

 

Conheci a Sra Hildegard Anna Schmitch Cortelazzi num momento muito difícil de sua vida. Fui designada para realizar fisioterapia motora e respiratória após suas fraturas na coluna vertebral. Mesmo com as fraturas e com muitas dores, dedicava grande parte de sua vida ao cuidado do marido. Fui testemunha de seu carinho e dedicação. Numa das sessões de fisioterapia decidi realizar a entrevista, prontamente aceitou.

Hildegard Anna Schmitch Cortelazzi cuidou nas dependências de vida diária dos avós, pais e marido. Ela nasceu no estado de São Paulo, em Moema, no dia 22 de novembro de 1940. Única filha mulher, de um casal de filhos de imigrantes alemães, Hilda (forma como gosta de ser chamada) desde os 12 anos de idade sempre desejou trabalhar, aprendeu a costurar em casa com a mãe e com a avó, era fascinada pelo mundo da moda, vestidos de festas, vestidos de noivas, etc.

Realizou o sonho de sua vida aos 37 anos de idade, casando com o taxista Orlando Ludovico Cortelazzi, 59 anos e com dois filhos do casamento anterior, casou por amor e foi muito feliz por 32 anos. Deus me deu um marido bom, carinhoso, compreensivo e muito especial. Não tivemos filhos, porque Deus não mandou, e decidimos aceitar a vontade dele. Vivo feliz com a companhia de minhas duas sobrinhas. A prática do cuidar vem longe, porque fui a única neta paterna. Fui cuidadora dos avós, dos pais e do marido.

Sua história de cuidado começou com os avós, porém ver o pai totalmente fragilizado e nu foi muito difícil. Papai (falecido há 20 anos), era portador de doença de Parkinson, dois meses após uma cirurgia consequente de uma fratura, após diversas quedas, fraturou o colo do fêmur.

Papai permaneceu por alguns anos necessitando de cuidados, visitas ao hospital e internações. Após sua morte mamãe ficou sem andar e, além de cuidar dela, eu a levava para realizar as sessões de fisioterapia e demais cuidados em seu leito. Cinco anos após a morte de papai, mamãe faleceu de morte natural.

Quando eu pergunto sobre o momento mais difícil de sua vida, ela segura o choro e diz que após a morte do pai as perdas passaram a não ser tão difíceis, parecia que o cuidado que eu ofertava à eles, acolhia de certa forma meu sofrimento. Sempre tive um bom relacionamento com meus pais. Eu os respeitava acima de tudo, e muito diferente das minhas amigas, pela época em que vivíamos, minha mãe era minha amiga, poderia conversar com ela sobre tudo, éramos as melhores amigas.

Meu marido começou a adoecer, e a precisar de cuidados, foram cuidados gradativos por 20 anos. No decorrer dos anos, as necessidades de cuidados foram aumentando, até que ao prestar um cuidado ocorreu um acidente sério com meu marido, ele escorregou no banheiro tomando banho e caiu sem maiores consequências, porém me desesperei e tentei ajudá-lo porque estava frio, e molhado. Ao tentar socorrê-lo senti uma forte dor na coluna associado com um barulho. Meu marido e eu precisamos ser socorridos, ele, sem complicações, e eu, fraturei a 4ª e 5ª vértebras lombares, o que me deixou muito fragilizada, com necessidade frequente de fisioterapia duas vezes por semana para diminuir minhas dores oriundas do esforço excessivo para tentar levantá-lo no chão.

Portadora de Osteoporose, dona Hilda não realizou todo o tratamento proposto na época por causa dos afazeres de trabalho e dos seus cuidados, sobrava menos tempo para ela se cuidar. Para dona Hilda, o mais difícil no cuidar de um familiar é lidar com a situação que o sofrimento do marido causava nela e perceber que ele se constrangia com os cuidados que ela promovia.

Tempos depois, o Sr Orlando após operar de catarata sofreu uma nova queda, caiu lateralmente da cama e fraturou o colo do fêmur, levantou com ajuda da dona Hilda. Foi submetido à uma cirurgia complexa, com complicações no período intra e pós operatório. Faleceu 20 dias após o procedimento, aos 91 anos de idade, no dia 23 de dezembro de 2009.

Hoje, dona Hilda dispõe de uma cuidadora não profissional, duas vezes por semana, para auxiliá-la na realização de algumas atividades sociais. Borda e realiza costuras como hobbie, faz o enxoval de bebê, pois ela aguarda ansiosamente a chegada de mais uma sobrinha neta.

Quando eu pergunto se existe alguma vantagem em cuidar, ela prontamente me responde: muita experiência – porque cada um é diferente, então o cuidado é diferente. Tive a oportunidade de acolher os que eu mais amei, até o fim.

Meu marido foi acompanhado de um sobrinho dele muito querido, porque devido ao meu problema na coluna vertebral, não pude acompanhá-lo durante a internação no hospital. Sofri muito, fui visitá-lo todos os dias, e a última pessoa com quem ele conversou antes de falecer foi comigo.
Hoje, deixo meu futuro nas mãos de Deus, ninguém tem obrigação de cuidar de mim. Não posso fazer ninguém cuidar de mim. O cuidado tem de ser elegante, nada é definido. Deixo Deus cuidar de mim, Deus sabe o que será.

*Fisioterapeuta. Mestre em Gerontologia pela PUCSP. E-mail: [email protected]

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