Uma transformação silenciosa na economia

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O título, “20 anos para ficar rico”, resume o momento do país. Graças ao aumento da idade média da população, hoje dois terços dos brasileiros estão na idade considerada mais produtiva (entre 15 e 64 anos). É uma situação extremamente favorável à economia, e pode ajudar o Brasil a resolver muitos problemas. A má notícia é que essa janela de oportunidades tem data para acabar: 2034. Daí em diante, entraremos numa fase em que irá diminuir a proporção da população ativa, e será cada vez maior a de brasileiros idosos. Portanto, é preciso correr.

Nicholas Vital

 

Os especialistas chamam a transição de “bônus demográfico” – um fenômeno que já ajudou no desenvolvimento de diversos países e deve causar uma transformação silenciosa no Brasil nos próximos anos. De acordo com estudo realizado por Bernardo Queiroz e Cássio Turra, ambos PhDs em demografia econômica e professores da Universidade Federal de Minas Gerais, o Brasil pode crescer até 2,5% ao ano exclusivamente pelo bônus. Mas fica o alerta: o crescimento está atrelado a investimentos em educação e formação de mão-de-obra qualificada. Se isso for feito, o bônus será a base para o país crescer com muito mais vigor. “Temos uma grande chance. Se vamos aproveitar, é outra história”, disse Turra a EXAME. Confira abaixo a entrevista completa com o especialista.

EXAME – Como o bônus demográfico pode estimular o crescimento da economia no Brasil?
TURRA – Com relação ao crescimento da economia, a literatura identifica dois dividendos demográficos. O primeiro se refere ao aumento da proporção da população em idade ativa em relação à massa de dependentes. O segundo está relacionado ao aumento na quantidade de pupança/capital na economia. Explico o segundo dividendo: a acumulação de poupança cresce com a idade e chega em seu ponto mais alto nas idades próximas à aposentadoria, entre 50 e 70 anos. Com o envelhecimento da população, a proporção dessas pessoas na população aumentará, ampliando a quantidade relativa de capital por trabalhador, estimulando a produtividade e o crescimento da economia. Esse efeito pode ser intensificado se houver novos estímulos para que os indivíduos poupem ainda mais ao longo da vida.

EXAME – Nosso crescimento pode ser parecido com o dos asiáticos?
TURRA – Estimativas do professor Andrew Mason, do East West Center, dos Estados Unidos, indicam que os dois dividendos demográficos, juntos, produziram, entre 1970 e 2000, um efeito potencial na taxa de crescimento dos países do sudeste asiático parecido com o que aconteceu nos países da America Latina. Note que aqui me refiro, exclusivamente, aos efeitos puros potenciais das mudancas demográficas . Os asiáticos, no entanto, aproveitaram melhor o dividendo demográfico – principalmente o primeiro – por meio de um compromisso muito sério com a educação. Ou seja, eles “vitaminaram” os dividendos demográficos.

EXAME – Quanto o Brasil pode ganhar com o bônus? É possível fazer uma previsão?
TURRA – Estimativas sugerem que o crescimento potencial gerado pelos dois dividendos demográficos seria de 2,48% ao ano entre 2010 e 2045. Se vamos aproveitar essa oportunidade, é outra história.

EXAME – O que precisa ser feito para que o Brasil não desperdice a oportunidade?
TURRA – É preciso melhorar a qualidade da mão-de-obra com investimentos em capital humano e criar as condições para que as pessoas poupem e invistam em atividades produtivas.

EXAME – Seria este o momento ideal para resolver os problemas da educação e saúde no Brasil?
TURRA – Sim. A pressão demográfica nunca esteve tão baixa. As taxas de crescimento entre crianças estão reduzindo – para alguns grupos de idade já são negativas. Isso facilita o investimento em capital humano. Por outro lado, as taxas de crescimento entre idosos estão se elevando, mas ainda temos, proporcionalmente, poucas pessoas mais velhas que precisam ser sustentadas. Ou seja: a pressão por gastos de saúde e previdência social com idosos está longe de seu ponto máximo. A previdência social, é claro, está deficitária, mas pelo menos por enquanto isso tem muito mais a ver com os problemas do sistema do que com a questão demográfica.

EXAME – Existe algo que possa reduzir os efeitos do bônus no Brasil?
TURRA – A crise econômica dos anos 80, por exemplo, anulou completamente o efeito positivo do primeiro dividendo demográfico. Como eu havia dito, são necessários investimentos em capital humano na infância e na juventude, além, é claro, de uma demanda por mão-de-obra que absorva o crescimento da força de trabalho. No que se refere ao segundo dividendo demográfico, quaisquer mecanismos que favoreçam o consumo em detrimento da poupança podem reduzir o efeito do mesmo.

EXAME – O senhor acha que o Brasil aproveitou bem os primeiros 10 anos de bônus?
TURRA – Os dividendos demográficos já têm trazido efeitos positivos potenciais para economia desde os anos 70. Esses efeitos foram bem aproveitados nos anos 70, sub-aproveitados nos anos 80 e na segunda metade dos anos 90 e, finalmente, bem aproveitados nos anos 2000.

Fonte: Acesse Aqui 11/11/11.2010.

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Redação Portal do Envelhecimento

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