Uma reflexão sobre o preconceito nas diversas classificações

Atualmente a palavra do momento é “criticar”, não importando o quê e como. Liberdade até para falar aquilo que não se tem a menor ideia. Essa é uma triste e dura constatação.

Luciana H. Mussi

 

uma-reflexao-sobre-o-preconceito-nas-diversas-classificacoesMuito se tem comentado sobre a mudança de estilo e linguagem dos jornais (O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, O Grupo Globo), mas agora a questão central das discussões gira em torno da entrada na TV aberta da mídia tradicional, especificamente ocupando um espaço na TV Cultura com temas populares e de interesse geral.

Mas, confesso, que de todas as matérias lidas, uma chama a atenção, exatamente pelo tom um tanto pejorativo de seu título. Me refiro ao texto “Piercing nos velhinhos”.

Para entender é necessário acompanhar o processo de escrita da matéria: inicialmente falou-se sobre a mudança de percurso dos principais jornais (estilo, linguagem, estética), ou seja, no seu jeito de passar a notícia, tornando-a mais popular e acessível ao grande público. Em seguida a entrada dos mesmos com seus jornalistas na disputada telinha e numa emissora reconhecidamente “cultural”.

Até aí, tudo bem, cada um pensa e fala o que quer, não é assim, principalmente com o “boom” da internet, facebook, twitter e outros? Mas, na verdade, o que não pode e que acaba se tornando altamente questionável é o tom de preconceito, utilizando-se uma intolerância e acidez insuportáveis.

Primeiro ponto: qual o problema dos grandes jornais entrarem num veículo de comunicação e ainda com um material notadamente de alcance popular? Usar uma linguagem “mais do dia a dia”, até coloquial virou uma discussão dos “grandes” que se julgam cultos demais para aceitar um tipo de cultura diferente, aquela das esquinas, das conversas nos bares e encontros do tipo “happy hour”?

A matéria diz: “é interessante analisar os movimentos que a imprensa tradicional tem feito para se adaptar aos novos hábitos de consumo de mídia, principalmente por parte do público mais jovem. Na programação apresentada pela Folha na TV Cultura podia-se notar que o esforço por imitar certo estilo MTV em alguns quadros andou beirando o ridículo, como na reportagem sobre irregularidades no uso de caçambas na capital paulista, com entrevistas, aos gritos, improvisadas nas ruas. O estilo já é usado pela Globo no jornalismo local, com a atuação histriônica do repórter Marcio Canuto”.

Bem, se o estilo Marcio Canuto agrada, não é a questão. O que soa exagerado é essa caça as bruxas do chamado “jeito popular de ser”.

É interessante que vivemos imersos nas chamadas classificações: isto é culto, aquilo é popular, aquilo ali está fora de moda então está velho, obsoleto e para o que está obsoleto, o caminho é a troca imediata e lixo para algo ou alguém que um dia teve sua utilidade.

Por outro lado, a reportagem lembra bem quando “há duas décadas, um certo jornal num processo de renovação para enfrentar o crescimento do seu maior concorrente, saiu com um anúncio no qual o referido era mostrado como um senhor idoso de cabelos azuis.

A matéria é finalizada com a constrangedora frase: “a imprensa tradicional é uma estrutura rígida, não um sistema adaptável. Não estando disposta a se deixar conduzir pela dinâmica social mais complexa, resta-lhe pouco mais do que aplicar uns piercings em seus modelos envelhecidos”.

Devo dizer, finalmente, que o título da matéria foi de extremo mau gosto e profundamente desrespeitoso. Que conceito preconceituoso de velhice é esse que se percebe nas falas soltas e fáceis totalmente sem responsabilidade? Que relação mais estranha é essa de ligar a mídia tradicional e seus entraves e burocracias com a velhice? Acaso velhice significaria intolerância, falta de flexibilidade ou algo ultrapassado?

Só se for para os tolos, porque até eles, se derem muita sorte, vão envelhecer.

Referências

COSTA, L.M. (2012). Piercing nos velhinhos. Disponível Aqui. Acesso em 16/03/2012.

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