Uma festa para “Os Grandes da Literatura”

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Será que alguém poderia me dizer o que está acontecendo? Será uma festa no Céu, um Congresso dos Grandes da Literatura, apenas um Encontro dos Iluminados ou seria, talvez, um Simpósio daqueles que cumpriram suas justas e devidas caminhadas?

Luciana Helena Mussi 

uma-festa-para-os-grandes-da-literaturaNão sei, suspeito que aquele que se diz o Rei “Master” de todos nós, resolveu descer aqui na humilde residência dos pobres pecadores e roubar o melhor que nos restava: as nossas mais saborosas frutas em meio a flores raras e um verde de encantar os olhos mais ressequidos pela vida.

Nunca me cansarei de perguntar: por que as pessoas morrem? Ah, quanta saudade já sinto daqueles que mais amo, desejo e admiro. Acho que sofro por antecedência, um mal da alma, registrada desde que me entendo por eu mesma.

E quando penso no “iminente”, no incontrolável, nas surpresas que espreitam silenciosamente, sinto que é hora de começar a escrever ou sonhar ou amar freneticamente ou sabe-se lá o quê mais.
Sim, eles se foram.

uma-festa-para-os-grandes-da-literaturaJoão Ubaldo Ribeiro 

O primeiro a ser chamado foi o escritor, jornalista, roteirista e professor brasileiro, formado em direito e membro da Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo Ribeiro (Itaparica, 23 de janeiro de 1941 — Rio de Janeiro, 18 de julho de 2014).

Autor de romances como Sargento Getúlio, O Sorriso do Lagarto e A Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo tem em seu estilo literário a marca da ironia, o conhecimento do contexto social brasileiro, abrangendo também a cultura portuguesa e africana.

Antônio Olinto, escritor, crítico literário, diplomata e também membro da Academia Brasileira de Letras, diz que Ubaldo constrói sua estrutura muitas vezes começando a história pelo meio, como se ela já houvesse existido antes: “Mas como falar deste país sem o lanho do humor? Em tudo insere João Ubaldo a visão do humorista, que vê o que não aparece, identifica a nudez das gentes, entende os pensamentos ocultos”, diz Olinto. (1)

De João Ubaldo, selecionei três frases (2), claro, entre tantas pérolas de seu mundo literário:
“Duvido muito que um sujeito leia um livro cheio de hiperlinks. Não acredito na praticidade dessa mecânica do computador.”

“Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo.”
“Em tese, somos capazes de nos apaixonar por tantas pessoas quantas sejamos capazes de lembrar, o limite é este, não um ou dois, ou três, ou quatro, ou cinco, ou dezessete, todos esses números são arbitrários, tirânicos e opressores.”

uma-festa-para-os-grandes-da-literaturaRubem Alves 

Apenas um dia depois, foi a vez do psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, Rubem Alves (Boa Esperança, 15 de setembro de 1933 — Campinas, 19 de julho de 2014). Autor de livros e artigos abordando temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis, Alves, respirava emoção e sensibilidade com maestria.

Sobre a paixão pela educação, Rubem Alves escreveu:
“Educar não é ensinar matemática, física, química, geografia, português. Essas coisas podem ser aprendidas nos livros e nos computadores. Dispensam a presença do educador. Educar é outra coisa. […] A primeira tarefa da educação é ensinar a ver. […] Quem vê bem nunca fica entediado com a vida. O educador aponta e sorri – e contempla os olhos do discípulo. Quando seus olhos sorriem, ele se sente feliz. Estão vendo a mesma coisa. Quando digo que minha paixão é a educação estou dizendo que desejo ter a alegria de ver os olhos dos meus discípulos, especialmente os olhos das crianças”. (3)
Essa mesma alegria deve ter contagiado o Ser Maior e, quem sabe, isso o fez roubá-lo de todos nós.

Bem, esses são os mistérios do fim, esse amargo inexplicável que não se anuncia, chega num certo dia e pronto, está feito. Rubem Alves tinha suas próprias questões sobre a tal Morte e a incompreensível religião. Ele dizia: “Eu achava que religião não era para garantir o céu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto estamos vivos”.
Assim, mais um dos bons se foi e à vida, só restou um enorme ponto de interrogação.

uma-festa-para-os-grandes-da-literaturaAriano Vilar Suassuna

Como as perdas parecem não ter fim, quatro dias se passaram e lá estava ela, “a Maldita” – sempre forte, feliz e perversa – em plena atuação: Morre Ariano Vilar Suassuna (João Pessoa, 16 de junho de 1927 — Recife, 23 de julho de 2014), dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta brasileiro.

Idealizador do Movimento Armorial e autor de obras como Auto da Compadecida e O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, foi um importante defensor da cultura do nordeste brasileiro.
Ariano Suassuna foi responsável por um dos maiores legados da literatura brasileira, tendo se eternizado em frases escritas em seus livros (4), ou ditas espontaneamente em entrevistas e palestras:
“Há duas raças de gente com quais simpatizo: mentiroso e doido, porque eles são primos dos escritores.” (no livro “Ariano Suassuna, um Perfil Biográfico”, Editora Zahar)

“Nunca olhei a internet. A velocidade da comunicação não é coisa boa. Arte exige vagar e dedicação exclusiva. Infelizmente, no território da arte, não existe democracia. Nem pode existir. Cervantes só existe um. Ninguém chega a ele através do computador.” (em entrevista à Folha em 2012)
“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”.

Agora eu sei, o Céu, se é que ele existe (prefiro acreditar que sim) está realmente em festa, num delírio de prazer, poesia e muito humor, ácido e elegante, como deve ser.
Mas, apesar do respeito, à Deus, eu esbravejo: “Agora chega, né! O Senhor já tem um trio respeitável para uma festa e tanto, regada a letras preciosas, palavras inundadas de magia e frases repletas de adjetivos gostosos de se ler, ouvir e falar. Um momento de transcendência e tudo para o Senhor e seus supostos assessores. Não é justo!”

E que assim seja!

Notas 

(1) Disponível Aqui
(2) Disponível Aqui 
(3) Disponível Aqui 
(4) Disponível Aqui

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