Uma experiência em Penedo!

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Recém chegadas de uma experiência diferente e instigante, para os modelos acadêmicos, não podíamos deixar de registrá-la, mesmo de forma breve, como convidadas-participantes do VI Encontro de internautas: Acesse Aqui, realizado em Penedo (SP).

Patricia Cabral / Rita Amaral *

 

Vamos por etapas: o primeiro contato que tivemos com o site foi um ano após a defesa da dissertação de mestrado em Gerontologia pela PUC-SP, intitulada: “Idosos reconstruindo-se com suas histórias”, quando uma jornalista entrevistou-me por telefone e escreveu uma matéria sobre o trabalho. Nesse mesmo ano (2003), convidou a mim e a Rita para participar do encontro em Conservatória. Por questões diversas, até mesmo insegurança (encontro de internautas!), não participamos.

No início de 2005, outra jornalista do site, convidou-nos para realizar uma oficina de memória com os participantes. Desta vez, aceitamos o desafio.

O site é organizado por jornalistas cariocas e a editora é Maria da Luz. São profissionais muito jovens (20/30 anos), com idéias interessantes a respeito do envelhecimento, e as possibilidades advindas do uso da Internet.

A “mala” para essa viagem era diferente, e tivemos que nos preparar. O desafio proposto era fazer uma oficina de memória com duas horas de duração para um público que não conhecíamos, mas imaginávamos ousado, informado e exigente. Era um grupo de 50 pessoas, vindas de diferentes lugares, e queríamos propor uma dinâmica em que pudessem vivenciar a experiência de resgate de memória. Reunimos-nos algumas vezes para elaborar a atividade, visto que nossa experiência em oficinas era com grupos menores (15 pessoas), um processo com duração de nove semanas, realizadas no Pateo do Collegio, chamadas Conversas no Pateo: a memória viva de São Paulo. Na nossa bagagem levávamos diversos recursos, pois intuíamos que a dinâmica só seria “fechada” em Penedo, após conhecer o grupo.

Nossa viajem começou na Vila Guilherme, de onde saiu o ônibus com a turma paulista que iria para Penedo. Éramos 16 pessoas, 14 participantes (dois homens somente), Simone que veio do Rio para nos receber, o motorista e nós.

O encontro das pessoas foi uma alegria e nós duas observávamos e pensávamos: “o que nos espera?”. Os participantes vieram de diferentes lugares: capital, Tatuí, Presidente Prudente, Campinas, Bragança Paulista e Uberlândia (MG). A grande maioria já tinha participado de outros encontros, mas havia novatos que foram bem recebidos. Esperamos o único homem do grupo que viajava sozinho e vinha de Campinas (o trânsito paulista o atrasou), o outro senhor estava acompanhado da mulher, formando o único casal, as demais eram mulheres. Os conhecidos pareciam animados em rever-se e as novatas apreensivas diante do novo: o que iriam encontrar pela frente (como nós!). Todos eles chegaram ao encontro real/físico, depois do virtual.

Patrícia e Rita Amaral embarcando

Embarque, viagem, músicas, algumas brincadeiras, um pouco de papo e quatro horas depois estávamos em Penedo. Penedo é uma pequena vila, próxima ao Parque Nacional do Itatiaia, estado do Rio de Janeiro, reduto de uma colônia finlandesa, conhecida como Pequena Finlândia.

Na chegada, a turma que veio do Rio de Janeiro (25 mulheres) recepcionou a “caravana” de São Paulo. Algumas pessoas já se conheciam e estavam alegres de rever os amigos de encontros anteriores. O grupo Mais de 50 estava completo somando as duas pessoas que vieram em carro próprio de uma cidade mineira próxima a Penedo. No total eram 42 participantes.

O hotel escolhido, “City Park”, não foi do agrado geral. Houve reclamações, “chiadeiras” de alguns participantes, mesmo com a boa vontade da equipe de organização Mais de 50 para amenizar o descontentamento.

Depois do almoço e acomodações, José Luiz (professor de artes cênicas) coordenou a primeira atividade. Ele pediu uma breve apresentação dos profissionais convidados, da equipe e dos participantes e executou uma dinâmica para aproximação do grupo. Em seguida tivemos uma oficina de relaxamento com Jorge Corral. Os dois profissionais citados são do Rio de Janeiro e, além de nós, havia a psicanalista Elisabeth Adler.

Depois do jantar ainda tivemos energia para ir com parte do grupo a um bar da cidade chamado D.O.C., tomamos um bom vinho e iniciamos uma conversa um pouco mais aprofundada com algumas pessoas que só se conheciam virtualmente, e que tinham afinidades em linguagens de computador. O encontro virtual foi facilitador para o encontro real/físico, tanto que tinham decidido antecipadamente dividir o mesmo quarto no hotel.

No dia seguinte, pela manhã, fomos visitar o Parque Nacional do Itatiaia. Vale ressaltar que as atividades não eram obrigatórias, mas grande parte do grupo aderiu ao passeio. Almoçamos em Penedo e à tarde foi exibido e debatido o belo filme “História Real”, de David Linch. A coordenadora do debate foi Elisabeth Adler. O grupo que participou, com certeza, ficou mobilizado pelas questões trazidas pelo filme durante o debate, conduzido de forma muito interessante pela coordenadora. Após o jantar fomos ao Clube Finlandês.

Percebemos em conversas informais que a grande maioria dos participantes possui escolaridade de nível médio ou superior, pertencentes a classe média, aposentados, principalmente do funcionalismo público. Entre as mulheres algumas eram viúvas, outras separadas e até casadas.

O que motiva estas pessoas irem aos encontros dos Mais de 50?

Não podemos concluir examinando a questão por um só ângulo. As razões são variadas, mas cabe dizer que são pessoas que procuram companhia para viajar, e se conheceram em um site dirigido a um público Mais de 50. Buscam, além disso, oportunidades para discutir sobre o envelhecimento mesmo com toda a resistência que o assunto suscita.

Domingo, último dia do encontro, chegou a nossa vez. O assunto “Oficina de Memória” chamou a atenção. Tivemos uma grande participação dos de Mais 50. As pessoas esperavam que o assunto fosse a memória cognitiva, e que trabalhássemos com técnicas de memorização. A novidade foi o trabalho com a memória autobiográfica, que utiliza o conceito de memória sócio-afetiva positiva e possibilita, através da reflexão sobre a trajetória de vida, ressignificá-la. Essa metodologia, utilizada por nós, foi desenvolvida pela Profª Drª Vera Brandão.

Fizemos um exercício com os participantes relatando a história de seus nomes. Foi surpreendente o que ele despertou em cada um, já que algumas pessoas nunca tinham pensado sobre o próprio nome, ou como ele está recheado de histórias. Ouvimos relatos tristes, engraçados e emocionantes, assim como a memória que nos leva a diferentes lugares. Abrimos para um debate onde foi propiciado um espaço de troca, em que falar era tão importante como escutar. Percebemos que essa atividade proporcionou um momento de descoberta e satisfação. Nada melhor, para encerrar este relato de experiência, do que dar a palavra aos participantes em frases escritas também como parte dessa atividade:

“Nós que estamos na segunda metade da vida, podemos dizer que da nossa memória extraímos sabedoria, equilíbrio, tranqüilidade e a certeza de saber exatamente quem somos. O tempo por si é nau, e o ancoramos no cais da nossa maturidade, com a âncora da sabedoria dos que nos antecederam nesta nossa jornada. Este relembrar que fizemos rapidamente hoje, faz parte do tempo que é nau e faz parte do mar, da memória que carrega nossas origens”

“Nestes dois dias em Penedo além de rever e conhecer novos amigos pude resgatar minha vinda aqui há 36 anos com meu falecido marido. Vivi grandes emoções ao lembrar de como chegamos aqui e também porque na época minhas filhas eram pequenas, 2, 3 e 4 anos. Com a conversa de hoje pude resgatar mais memórias da família. Saí daqui mais feliz do que cheguei.”

“À frase que me foi dada veio cair em cima de tudo o que aconteceu neste resgate da memória dos nomes. Eu voltei às minhas origens fiz uma grande reflexão. Falando do nosso encontro sendo eu debutante tem sido maravilhoso e compensador, pois uma das coisas mais importantes é se conhecer e conhecer outras pessoas e como recordar é viver sinto-me daqui para frente mais viva e vou com certeza que poderei contar a minha vida para minhas netas. Grande experiência”.

“Estou numa reunião com pessoas de mais de 50 anos e tenho 28 anos… Descobri afinidades e principalmente que minhas necessidades, problemas, sofrimentos, desejos e sonhos como mulher não são diferentes e nem estão distantes dessas mulheres com mais de 50 anos. Muitas experiências, muitos medos…e ainda muitos sonhos. Não estamos tão distantes como pode parecer…”

Rita Amaral
Patricia Cabral
Março de 2005

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*Rita Amaral – Pedagoga, especialista em Gerontologia, voluntária no Lar Madre Regina, Pesquisadora do GEM (Grupo de Estudos da Memória) do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE) – PUC/SP e atuação no projeto de oficinas de memória autobiográfica Conversas no Pateo: a memória viva de São Paulo. E-mail: silveiramaral@uol.com.br

Patricia Cabral – Psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC/SP com dissertação intitulada “Idosos reconstruindo-se com suas histórias”, pesquisadora do GEM (Grupo de Estudos da Memória) do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE) – PUC/SP. Atuação em atendimento domiciliar ao idoso com o projeto de resgate da memória autobiográfica na construção de um livro e no projeto de oficinas de memória autobiográfica Conversas no Pateo: a memória viva de São Paulo.E-mail: patricia@ferreiracabral.com.br

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