Uma certa confraria

Em Abril de 2007, publiquei minha oitava crônica sob o título: “Confraria de Delatores”. Nessa crônica me referia a uma associação de profissionais da área de recursos humanos que formavam uma espécie de elite entre seus pares, por atuarem em empresas multinacionais e em grandes empresas nacionais.

Waldir Bíscaro *

 

Em que se distinguia essa associação de outras da mesma área? Pelo que corria a respeito dessa associação, em tempos obscuros da ditadura, ela se distinguia por um papel de cooperação com as forças de repressão do tipo Oban – Operação Bandeirantes – como denúncia de operários considerados de esquerda, pertencentes a sindicatos mais aguerridos ou mesmo simpatizantes de partidos ilegais. Aqui, não se pode esquecer que eram empresas multinacionais e algumas nacionais que supriam a Oban com recursos financeiros.

Claro que eu sabia da fama que se atribuía àquela entidade, mas nunca tivera uma prova de tal atribuição. Ouvia-se falar em “listas negras” que eram trocadas entre os membros, com os nomes de trabalhadores apontados como subversivos, com a recomendação para não serem admitidos e de que essas mesmas listas eram encaminhadas aos órgãos de repressão.

Até aí, para mim, tudo não passava de suposições, mais por conta do posicionamento de direita da maioria dos componentes da tal associação.

A coisa deixou de ser mera suposição quando, em evento na USP – um seminário sobre “O papel do psicólogo nas organizações” – tudo ficou esclarecido. Tinha eu participado de uma fala neste seminário, onde apontei vários papeis nada exemplares de psicólogos em organizações um dos quais apelidei de “dedodurólogo”. Na sexta feira, houve uma mesa redonda com todos os palestrantes da semana. Entre os convidados, um psicólogo da velha guarda que exercia a gerência de Recursos Humanos em grande indústria nacional.

Pois bem, esse profissional destacou em sua apresentação o fato de pertencer à tal associação e conclamou os psicólogos do trabalho a se aproximarem dos membros dessa entidade onde teriam muito a aprender e apontava como grande mérito a atividade patriótica de seus membros ao denunciar operários subversivos. Faltou muito pouco para eu gritar para os participantes: Vejam aí um belo exemplo de dedurologia! Mas me contive.

Esse evento ocorreu em Novembro de 1976. Nenhuma dúvida pairava, agora, sobre a natureza delatória daquela entidade. Fiquei indignado, mas muito mais indignado teria ficado certo filósofo grego, da escola cínica, ao saber que seu nome havia sido escolhido para nominar o tal grupo. É que, se vivo estivesse, com certeza seria delatado como anarquista.

Por que estaria eu agora retomando esse tema?

A chamada Comissão da Verdade que está com a missão de passar a limpo nomes, fatos e crimes da fase ditatorial, bem que poderia focar no que acontecia no mundo corporativo. Aqui, não podemos esquecer-nos de um nome que foi marcante na época: Manoel Fiel Filho era metalúrgico na Metal Arte e foi preso, não numa greve e nem em alguma célula clandestina do partidão, e sim no pátio da fábrica em que trabalhava. Acusado de pertencer ao PCB, foi levado para o DOI-CODI, interrogado sob tortura e, em consequência, veio a falecer. Tal como acontecera com Wlado Herzog, os torturadores disseram que ele se enforcara com suas próprias meias!!!

De onde ou de quem, teria partido a delação? Pergunto-me, então, é ou não é conveniente um olhar da Comissão da Verdade sobre o que acontecia no mundo corporativo?

São Paulo – Maio 2013

PS: Até eu acabei vítima de dedos duros de organizações como essa. Denunciado como comunista, em 1979, fui demitido de uma multinacional eletroeletrônica. E novamente apontado como esquerdista, em 1981, fui impedido de ingressar em outra multinacional, após ter sido aprovado em longo processo seletivo.

* Waldir Bíscaro é filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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