Um idoso e quatro olhares

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Ao mesmo tempo em que a família mantém a distribuição de recursos, proteção, cuidados e educação, também, inconscientemente, negligencia o idoso, atribuindo-lhe um status de inútil, ou seja, sem capacidade de escolhas para si próprio.

Andréa de Souza Bispo (*)


O que significa chegar à velhice? Será que depende do ponto de vista de cada pessoa? Ou depende de cada época ou cultura em que se vive? Qual é a imagem que temos dela? O que ainda temos em nosso imaginário, de forma geral, é a imagem de uma pessoa idosa sentada na sala fazendo crochê, ou lendo um jornal na varanda, ou alguém que já não sabe muito o que faz nem o que quer…. São muitas as representações sobre ser velho que não tem correspondência com as velhices que estão ao nosso redor, sem falar nas determinações sobre o que a velhice permite ou não fazer, ou melhor, o que fica bem para uma pessoa velha fazer e não fazer… O envelhecimento, e em particular a velhice, podem ser considerados momentos de conflito no ciclo vital, uma vez que representam situações de mudanças (biopsicossociais) requerendo do ser que envelhece e daqueles que com ele convivem adaptações a esta etapa da vida.

Em termos gerais, passamos por quatro grandes fases durante nossa vida. Na primeira, iniciada a partir do nosso nascimento e chamada fase da infância, começamos a aprender muitas coisas, tudo é novo e nesse momento começamos a descobrir o mundo e interagir com as pessoas. É nela que aprendemos a falar, andar. Começamos a estudar, aprendemos como nos comportar e muitas outras coisas. Na infância ainda somos muito dependentes dos nossos pais ou responsáveis para muita coisa.

Já na fase da adolescência, definida há cerca de 70 anos, percebemos as mudanças físicas e biológicas de nossos corpos e nos deparamos com nossos hormônios e altos e baixos. Entramos na vida adulta e com ela as responsabilidades, a busca pela estabilidade e a independência financeira, pois muitas vezes já temos um emprego. Na fase adulta as pessoas tendem a traçar suas metas e objetivos, se casam, constroem uma família e tentam organizar o futuro de acordo com o que desejam.

Depois de passarmos pela fase adulta, chegamos na velhice em que o indivíduo tem mais experiência de vida e pode ensinar muito às pessoas mais novas. Esta fase, também conhecida como terceira idade ou 60+ é a mais avançada da vida do homem. É nela que o corpo e a mente passam a ter algumas variações, os cabelos começam a embranquecer, a pele vai ficando mais enrugada, os músculos começam a ficar fracos e quando a idade vai ficando mais avançada, alguns problemas de saúde começam a surgir para alguns, mas a vida continua para a grande maioria.

Podemos dizer então que as pessoas não começam a envelhecer quando estão chegando aos 60 anos como muitos ainda acreditam, e sim que o envelhecimento é um processo que passamos a trilhar a partir do dia do nosso nascimento, não por acaso que quando cantamos a cantiga do “Parabéns pra você”, dizemos que ‘cada ano que passa a pessoa fica mais velha’ é porque de fato em cada aniversário ficamos mais velhos, nosso relógio cronológico não para, e o biológico também e isso se reflete em nosso físico.

Mas o que quero ressaltar aqui é que todas as fases da vida nos levam a um tipo de vivência da velhice. Aprendi no curso de extensão Fragilidade da velhice: Gerontologia Social e Atendimento que envelhecer bem é uma escolha da sociedade como um todo, uma vez que parte desse processo (apenas 25%) depende da genética de cada um e a outra parte do meio ambiente (75%). Ou seja, do estilo de vida social envolvido nessa questão. Depende dos acessos à educação, a saneamento, saúde, mobilidade…

A ‘destituição’ do ser

O diálogo a seguir é parte de um atendimento realizado entre uma Assistente Social, familiares e idosa, em uma instituição de convivência e fortalecimento de vínculos para a pessoa idosa. Nele, uma família vai em busca de atividades para a idosa Ana, de 74 anos, com o cognitivo preservado e sem graves problemas de saúde.

– Boa tarde, é um prazer recebê-los, principalmente você Dona Ana!

– Obrigada por nos receber, nós gostaríamos que a minha mãe realizasse alguma atividade porque ela já está com 74 anos e fica em casa só assistindo televisão e não faz mais nada.

– Vocês já conhecem a instituição?

– Sim, um pouco.

– Entendi! Mas, e a dona Ana quer fazer atividades? Vocês conversaram com ela?

– Não, não precisa, a gente que convive e sabemos o que é melhor pra ela, e ficar sem fazer nada não é bom.

– Entendo a preocupação de vocês familiares, mas é de extrema importância ouvir o que a dona Ana deseja!

– Dona Ana, o que a senhora gostaria de fazer? Aqui temos atividades de dança, de computação, de exercícios físicos….

– Ah gostei da dança, gostaria muito de aprender, e da computação, em casa tem o computador da minha neta e eu sempre tive vontade de aprender.

– Não mãe, a senhora não vai se adaptar à essas atividades.

– Por que acham que ela não vai se adaptar?

– Ah, primeiro porque ela nunca dançou na vida, ela já não tem o corpo físico com a mesma resistência de antes, afinal ela já tem 74 anos, é muito frágil, até queríamos que ela usasse uma bengala para prevenir que ela caísse em caso de desiquilíbrio… e a computação não é para a idade dela, para que ela quer aprender? O que vai fazer no computador?

– Eu sempre tive o sonho de dançar, quando eu era pequena meu pai não deixava por causa da igreja, e depois de adulta o pai de vocês falava que mulher casada não dançava por aí! Agora que estou velha e viúva quero realizar o sonho de dançar. E o computador quero aprender a mexer.

– Mãe, a senhora deveria fazer atividades mais de acordo com sua idade, crochê, pintura em pano de prato…. essas atividades próprias para a sua idade. 

Vimos, nesse breve diálogo, a forma com que essa família enxerga a idosa, mesmo ela não tendo nenhum problema cognitivo ou de saúde física, ainda assim é vista como uma mulher que por conta da idade já não tem mais a capacidade de realizar algumas atividades por ser muito idosa e na visão deles frágil. Ela não é mais dona de si.

Ao mesmo tempo em que a família mantém a distribuição de recursos, proteção, cuidados e educação, também inconscientemente negligencia o idoso, atribuindo-lhe um status de inútil, ou seja, sem capacidade de escolhas para si próprio, muitas até tratam o idoso como uma criança como se ele tivesse revivendo a fase da infância onde precisa que outras pessoas decidam por ele, e se esquecem que por um longo tempo a pessoa idosa foi responsável pelo gerenciamento da instituição familiar, tendo que tomar decisões, além de manter todas as necessidades dos seus membros.

Mas quando a velhice chega, o idoso passa a ser visto como frágil, uma pessoa incapaz de dar juízo de valor frente alguma situação ou tomada de  decisões. Vale ressaltar que as limitações, incapacidades e dificuldades não são problemas apenas dos idosos. Há muitas crianças, adolescentes, jovens e adultos que têm dificuldades, devido a diversas causas patológicas. Assim, torna-se ingênuo considerar a velhice como uma limitação ou deficiência, velhice não é sinônimo de doença. O idoso, por questões biológicas, pode apresentar algumas limitações ou pequenas dificuldades, mas isso não significa incapacidade de realizar tarefas. Para que os fatores negativos da velhice sejam ultrapassados ou ao menos amenizados, torna-se fundamental reconhecer qual é a representação do idoso na sociedade, tal como seu papel social, exercido ao longo de sua existência, como também nesta etapa da vida.

Cabe à família, Estado e sociedade como um todo desenvolver a consciência de que o velho de hoje já não é mais o mesmo de antigamente, é preciso respeitar e reconhecer os valores e a independência da pessoa idosa, pois têm identidade e autonomia que é garantido em nossa Constituição, e devemos zelar pelo seu protagonismo na sociedade. É necessário ainda muito investimento em políticas públicas voltadas para a pessoa idosa e para estudos sobre o processo do envelhecimento. Tivemos vários avanços ao longo do tempo, porém ainda é pouco diante do crescimento populacional que teremos nos próximos anos.

(*) Andréa de Souza Bispo – Graduada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pós-graduação em Saúde da Família pela Faculdade Santa Marcelina. Assistente Social no Grupo Vida Brasil integrando a equipe multidisciplinar do programa de convivência e fortalecimento de vínculos para idosos, Programa Viver Bem. Texto escrito para o curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia social e atendimento, promovido pela PUC-SP no segundo semestre de 2019. E-mail: as.bispo@yahoo.com.br

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