Um cinema que ficou mudo

No endereço de número 54 da Rua Padre Graça, Parque Araxá, em Fortaleza, ainda moram importantes personagens do cinema mundial. Os cowboys Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford), amigos inseparáveis, e Etta (Katharine Ross), namorada de Sundance que, depois de incansáveis fugas pararam neste endereço. Rick (Humphrey Bogart) e Isla Lund (Ingrid Bergman), também. E, desde 2010, ouvem em silêncio absoluto, no mesmo endereço, o piano de Elliot Carpenter, interpretado por Dooley Wilson, “As Time Goes By”, no Rick’s Café Américain, em Casablanca. Seu Vavá, também. Personagem desde que nasceu, quando a pedido do pai, foi batizado com o nome de Getúlio Vargas. E hoje, aos 81 anos é Seu Vavá, proprietário do Cine Nazaré, na Rua Padre Graça, 54.

Alcides Freire Melo, texto e fotos

 

um-cinema-que-ficou-mudoAtores, atrizes, beijos, crimes misteriosos, tiros e histórias de um grande amor ou paixões vistas a partir de uma “janela indiscreta”, ainda estão fechados em latões redondos e enferrujados a espera de um grande milagre. O milagre da luz, para ascender o velho projetor do Cine Nazaré que, há anos, não cobra ingresso. Cobra esperanças, projeta sonhos ao revelar as infinitas marcas deixadas pelos pés do Seu Vavá, gravadas no carpete empoeirado da fama. Embora rebatizado de Expedito, agora por escolha própria, para acabar com o

primeiro personagem que interpretou na vida, continua Seu Vavá, que chora e faz chorar, quando fala da atriz mais importante de sua vida, sua mulher, Maria Carneiro de Araújo.

um-cinema-que-ficou-mudoE assim, uma a uma, com as histórias do Seu Vavá, as lágrimas caem e abrem furos na poeira das poltronas vermelhas – cem ao todo -, que um dia pertenceram ao famoso Cine São Luiz.

Agora refletem o brilho da lâmpada fluorescente que faz de conta ser abajur e, viram estrelas brilhantes projetando dor e saudades da esposa, nos tempos em que Maria ficava na bilheteria. É a magia do homem, do cinema, que usava a moviola para cortar as imagens, durante os anos da ditadura militar, como cenas de sexo ou de argumentos políticos esquerdistas e

subversivos. Hoje, Seu Vavá usa a velha moviola para cortar o tempo, aproximar o passado do presente e fazer recortes nas histórias doídas e voltar a sorrir.

Na oficina que fica ao lado do cinema, Seu Vavá, de mãos ainda habilidosas, conserta ventiladores, aparelhos de som e ferros elétricos. Também já foi “ator” no filme “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Na verdade, foi só a mão para rodar a manivela do projetor de filmes mudos.

O portão de ferro, com o cartaz escrito a mão, anunciando Branca de Neve para as 17 horas, um dia do número 54, da Rua Padre Graça, se fecha e Seu Expedito, aos 81 anos, vira o solitário ator Vavá, diretor de sonhos e inventor de uma porção mágica, para fazer voltar a ter vida o Cine Nazaré.

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