Um (A)Deus particular de Umberto Eco

Eco: “Num certo momento, decidi escrever uma história. Eu não tinha mais filhos pequenos para os quais contar histórias”. A maturidade reserva surpresas, devo admitir algumas absurdamente agradáveis como, no caso, descobrir cenários, personagens, enredos que fazem do outro que se liga ao maestro das palavras, um escravo desse encantado contar sem fim.

Luciana Helena Mussi *

 

um-a-deus-particular-de-umberto-ecoE lá se vai mais um daqueles que tem assegurado seu posto de honra ao lado do controverso Diabo e do almejado bom Deus. Irreverente, irônico, ácido e constante questionador das coisas do mundo, o italiano Umberto Eco – filósofo, semiólogo e romancista, autor de “O nome da rosa” e “O pêndulo de Foucault” – se retirou de cena aos 84 anos no dia 19 de fevereiro de 2016, creio eu, certo de que sua morte tinha chegado, a galope e com toda majestade que sempre lhe foi característica.

Sempre quando um dos grandes se vai, são tantas as histórias e “causos” publicados, que me pergunto: o que mais poderia haver sobre o ilustre em questão para comentarmos? No caso de Eco, as célebres frases não poderiam passar despercebidas. Carregadas de crítica, ironia e uma realidade assustadora, são palavras que registram seu modo de pensar e ver a vida de antes e os tristes dias atuais, inundados de vasta tecnologia.

Então, lá vamos nós, conversar com algumas ideias de Umberto Eco, numa espécie de diálogo existencial, possível graças à dinâmica da criatividade e às forças do bem que, sabiamente, organizam e inspiram o movimento das palavras registradas pelo filósofo ao longo da vida.

Eco: “Sou um filósofo, escrevo romances nos fins de semana”.

Sim, um pensador que brinca, nas horas vagas, com as palavras. Navega pelas letrinhas, as enche de graça e as deita na fina folha de papel que, ora adquire vida própria e vira gente grande, ora termina apenas e tão somente no inútil primeiro parágrafo.

Eco: “Acho que Barbara Cartland [escritora britânica] escreve o que os leitores esperam. Acho que um escritor deveria escrever o que o leitor não espera. A questão é não perguntar o que eles precisam, mas mudá-los… produzir o tipo de leitor que você quer para cada história”.

Mas, como entrar no obscuro universo fantasioso de um alguém desconhecido? Como penetrar no admirável mundo novo de cada um que nos lê? Não, a ideia do filósofo é ir exatamente na contramão do pensamento, criar seu próprio leitor, inventá-lo pelo poder quase sexual e sensual do faz de conta ou, quem sabe, da indigesta realidade. É o reverso das coisas, de todas as coisas.

Eco: “Num certo momento, decidi escrever uma história. Eu não tinha mais filhos pequenos para os quais contar histórias”.

A maturidade reserva surpresas, devo admitir algumas absurdamente agradáveis como, no caso, descobrir cenários, personagens, enredos que fazem do outro que se liga ao maestro das palavras, um escravo desse encantado contar sem fim. E, com sucesso, o escritor cria uma legião de escravos, todos armados com olhos atentos e corações ansiosos para o The End.

Eco: “Quando a gente começa a escrever um livro, especialmente um romance, até a pessoa mais humilde do mundo espera virar um Homero [poeta épico da Grécia Antiga]”.

Homero ou não, que importa? A todos os navegantes das primeiras palavras, eu diria: montem suas equipes com letras de todas as fontes, componham palavras nunca antes imaginadas, construam frases que toquem o mais empedernido dos corações e, finalmente, com coragem e bravura, levantem o leme da história porque ela é você e você é parte dela, contando seu vasto leque de combinações e possibilidades.

Eco: “As pessoas sempre me perguntam ‘como seus romances, que são tão difíceis, fazem sucesso?’. Ofendo-me com a pergunta. É como se perguntassem a uma mulher ‘como os homens se interessam por você?’… eu mesmo gosto de livros fáceis que me colocam para dormir imediatamente”.

um-a-deus-particular-de-umberto-ecoParece que pensar dá trabalho. Leva a caminhos tortuosos em que o tropeçar vira uma constante, como diria o poeta, Carlos Drummond de Andrade:

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

Mas, apesar dos machucados adquiridos na “trilha das pedras”, a leitura de Eco, vale uma vida, um encontro com seu irônico Deus.

Eco: “Quando os homens param de acreditar em Deus, não quer dizer que não acreditem em nada. É aí que acreditam em tudo”.

E você sabe a razão disso? Pois bem, é que “Ele” se esconde no entremeio de cada palavra. Portanto, fique atento, porque ele pode estar bem ali ou quase aqui.

Que Umberto Eco e seus pensamentos sejam eternos à luz daquilo que o verdadeiro conhecimento das coisas demanda de todos nós. Então, um breve (A)Deus ao Mestre…

Referências

DO G1. Morre o escritor italiano Umberto Eco. Disponível Aqui. Acesso em: 20 fev. 2016.

CASTRO ROCHA, João Cezar de. Ironia marcou a trajetória singular do italiano Umberto Eco. Disponível Aqui. Acesso em: 20 fev. 2016.

* Luciana Helena Mussi – Engenheira, psicóloga e mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Doutoranda em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). Email: lucianahelena@terra.com.br. Currículo Lattes Aqui

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