Triângulo amoroso entre sêniores

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Enquanto caminhavam pelas ruas de Hollywood, um bairro de roteiristas, atores e cineastas, o trio amoroso assumiu a invisibilidade que todo idoso assume.


A fotógrafa documental Isadora Kosofsky trabalha com empatia e se dedica a sentar-se com as pessoas em seus momentos mais frágeis. Ela começou a fotografar aos 14 anos, documentando mulheres em cuidados paliativos em Los Angeles. Sua pegada mais social a levou a ganhar alguns prêmios. Ela criou corpos de trabalho de longo prazo considerados épicos da narrativa visual em que um indivíduo ou grupo permanece como seu foco por anos a fio, seja documentando uma mulher com demência por uma década, acompanhando jovens enquanto encarcerados e após sua libertação durante oito anos, fotografando casais com deficiência mental por quatro anos ou documentando crianças e adultos afetados por traumas relacionais.

Isadora Kosofsky frequentemente explora em suas imagens a intersecção do mais íntimo das vidas e instituições onde ela normalmente tem acesso sem precedentes, com foco nas nuances e na complexidade dos laços e afetos humanos. 

Um de seus trabalhos envolve um relacionamento entre duas mulheres e um homem, todos velhos, e por causa disso ela foi convidada a falar em um TED (Palestra TED de Isadora Kosofsky chamada Fotos íntimas de um triângulo amoroso sênior), onde conta como foi estar imersa em um romance nada convencional entre Will, Jeanie e Adina, postada em setembro de 2018.

triângulo amoroso

As fotos íntimas do trio feitas por Kosofsky levam os leitores ao mundo privado de três idosos presos em uma relação complexa que desafia as ideias tradicionais sobre idade e romance. Como ela relata, Jeanie era uma atriz de teatro do Lower East Side de Nova York; Will, um veterano da Segunda Guerra Mundial e dono de uma gráfica de Nova Jersey; e Adina, uma sobrevivente do Holocausto e linguista nascida na Suíça. 

Quando os conheceu, Will e Adina já estavam em um relacionamento, que havia começado em um residencial para idosos diferente ao de hoje, onde ali estava uma amiga que havia conhecido em um café, Bianca, quando tinha seus 14 anos. E quando Will foi forçado a se mudar para um residencial diferente – aquele onde Bianca e Jeanie moravam – ele e Jeanie se apaixonaram. Não querendo abandonar nenhum dos relacionamentos, Will começou a passar um tempo com Jeanie e Adina simultaneamente, e os três formaram um trio.

Segundo a fotógrafa, Jeanie, Will e Adina veem essa ligação como um escudo contra a solidão do envelhecimento.

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Desse registro de fotos, nasceu o livro Senior Love Triangle que acabou virando filme, em colaboração com Kelly Blatz, ator, escritor e diretor, em que Kosofsky transformou a história do trio em um longa-metragem: uma dramatização com atores que se baseia nos fatos reais, mas é ficcional e não documental.

O filme foi rodado em abril de 2018, durante um mês em Los Angeles – muito em East Hollywood, onde suas vidas aconteceram juntos. Portanto, trata-se de um filme de ficção com roteiro e com atores, não um documentário. É um meio totalmente diferente e dá à sua história uma nova vida em outra forma.

No filme, William (Tom Bower), veterano da Segunda Guerra Mundial, de 84 anos, é expulso do luxuoso residencial para aposentados onde mora com a parceira Adina (Anne Gee Byrd), uma viúva rica, que está mais do que disposta a ajudá-lo a encontrar a felicidade e dar-lhe o dinheiro de que precisa. Ele declara que voltará para salvá-la, assim como ela foi resgatada do Holocausto em 1941. Seu plano? Garantir uma mansão e um milhão de dólares do misterioso John Collins, um empresário com quem William está supostamente trabalhando em um negócio de petróleo jamaicano. Quando William encontra um outro residencial, consideravelmente menos luxuoso do que aquele que ele estava, ele se apaixona pela colega residente Jeanie (Marlyn Mason), uma bela atriz envelhecida, que também acaba gostando de William. Depois de se conhecerem e reconhecerem o afeto dividido de William, as duas mulheres exigem que ele faça uma escolha entre elas, mas…

Na palestra TED, Isadora Kosofsky conta que o trio saía em uma aventura diária para lojas de café e rosquinha, paradas de ônibus e esquinas de ruas e que logo ela descobriu que o propósito desses passeios era consolo e busca por um significado. Segundo ela, o trio procurava combater o abandono, literalmente, integrando-se em ruas públicas. Mas, segundo ela, mesmo quando estavam de braços dados, ninguém os enxergava.

Kosofsky fala que na ocasião, adolescente, identificou-se com a invisibilidade deles, a qual a afetou durante a infância, porém como se tornou documentarista imersiva, pode compreendê-los. Ela os observou durante quatro anos e muitas vezes presenciou que enquanto desciam as ruas de Hollywood, em um bairro de roteiristas, atores e cineastas, o trio assumiu a invisibilidade que todo idoso assume. E se perguntava: “Como é que ninguém mais vê esses três seres humanos? Por que eu sou a única que os vê?”. Eles eram despercebidos em público e ignorados por outros idosos. Eles queriam pertencer a algum lugar, mas pareciam pertencer apenas um ao outro. Para a fotógrafa o trio aborda a busca universal por identidade e pertencimento.

A fotógrafa comenta também que além do desafio do padrão sociocultural sobre uma população idosa, o trio evidencia o medo do afastamento. No final de cada dia eles retornavam para seus respectivos lares. Segundo ela, adolescência e velhice são incrivelmente parecidas, pois ambas são períodos de confusão da identidade. Ela, com seus 17 anos, identificou-se com as mulheres, mas também com Will, que a fez ver a divisão que havia dentro de si, sobre os desejos e a realidade. Termina sua fala dizendo que talvez seja um lembrete real que mesmo no final da vida, nunca se alcançará a fantasia que imaginamos para nós mesmos.


Neste curso o foco será as diversas velhices, as diversas sexualidades. Um olhar através das artes e da literatura. Um convite ao pensamento sobre a sexualidade na velhice através do olhar que as artes e a literatura nos fornecem. As dores, dúvidas e descobertas vividas por personagens ou imortalizadas em imagens, filtradas pela sensibilidade artística, que muitas vezes enuncia aquilo que não falamos, da voz ao que pensamos e sentimos.

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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