Trabalhadores dos correios franceses ajudam pessoas solitárias mais velhas

Novo serviço dos correios permite que os clientes paguem para que os funcionários verifiquem seus parentes, pessoas solitárias mais velhas.

 

Nicolas Dezeure dirigiu sua van amarela do correio até a sinuosa estrada de pista única, passando por campos e olivais, até uma casa de pedra isolada no topo de uma colina. Do lado de fora da porta da frente, uma idosa que varria as folhas caídas recebia-o como um amigo de longa data.

“É adorável ver o carteiro porque normalmente não vejo mais ninguém durante toda a semana”, disse Janine, 81 anos, enquanto Dezeure lhe entregava uma conta de impostos e um envelope endereçado ao marido que morreu há vários anos. Ela então o conduziu à cozinha para uma conversa.

Um carteiro rural visitando uma pessoa idosa solitária pode parecer uma parte natural da vida rural francesa. Mas as visitas cuidadosamente planejadas de Dezeure a Janine todas as manhãs de segunda-feira fazem parte de uma nova estratégia para os correios franceses, na tentativa de encontrar uma solução conjunta para dois desafios muito diferentes: o crescente número de idosos que vivem sozinhos e um declínio na escrita de cartas na era digital. Isto significa que a França está procurando novas maneiras de ganhar com seus 73 mil funcionários que trabalham nos correios. Em 1990, a entrega de cartas representava 70% do volume de negócios do serviço postal do Estado; em 2020, será menos de 20%.

O novo serviço em que os clientes pagam aos funcionários dos correios para visitar seus parentes idosos durante as rondas matinais foi aclamado como uma solução inteligente para a moderna epidemia de solidão. Mas alguns sindicalistas advertiram que as pessoas não deveriam ter que pagar por algo que costumava acontecer informalmente de graça. O serviço público postal da França, La Poste, faz uma crítica: “O governo está usando sua ampla presença em todos os cantos da França para trazer novos serviços para pessoas idosas em áreas isoladas”.

O serviço, Visite meus pais (Veiller sur mes parents), foi lançado no ano passado. Os clientes – muitas vezes na faixa dos 50 anos e morando nas principais cidades – pagam a partir de 20 euros por mês para que os funcionários dos correios visitem seus pais que moram sozinhos, longe deles. As visitas podem ser semanais ou mais regulares, com um relatório entregue à família e uma opção de uma linha aberta (de ajuda) de 24 horas por dia e um sistema de alerta.

Cerca de 6.000 idosos estão atualmente fazendo uso do serviço – a média de idade é 82 anos, a pessoa mais velha tem 98.

Na cozinha de Janine, com sua bela exposição de panelas de cobre e bules de porcelana, Dezeure, 37, que trabalha no correio há 16 anos, trazia uma lista oficial de perguntas para conversas de elevador, incluindo: “O que você assistiu na TV na noite passada? Mas como ele já conhece Janine muito bem com suas conversas de 15 minutos toda segunda-feira, ele costuma improvisar. “De qualquer forma, eu não assisto TV”, disse ela. “Mas eu assisti Out of Africa em DVD na noite passada.”

Dezeure disse: “Ela sabe muito sobre mim. Falamos sobre a época que eu jogava rugby, meus ombros doloridos, joelhos … ”. Após o bate-papo, ele enviou uma mensagem diretamente para as duas filhas de Janine, na faixa dos 50 anos, que moram a mais de 600 quilômetros de distância na área de Paris, dizendo-lhes que ela estava bem.

“Eu concordei em fazer isso pelas minhas filhas”, disse Janine. “Eles se preocupam que eu esteja sozinha no meio do nada”. Seu pacote inclui uma linha de apoio 24 horas e um sistema de alerta caso ela tenha algum problema. “Eu costumava me gabar de nunca ter ido ao médico, mas tive uma queda recentemente. Eu me sinto mais segura assim.”

Ela vive há 40 anos na mesma casa, construída pelo marido, e não quer se afastar do local que é isolado, mas que tem um valor inestimável para ela. “O rádio é um companheiro maravilhoso”, disse ela. “Meu lema é: ‘Ligue o rádio, e encha a casa com som’”.

Conexão humana

Dezeure vê a ligação humana com os clientes como uma das melhores partes de seu trabalho. Ele cresceu em Vaucluse, no sul da França, e seus avós, na faixa dos 80 anos, vivem em sua rota de entrega. “O carteiro é uma figura chave. As pessoas vêm até você na rua. Estamos sempre lá na mesma hora do dia. As pessoas praticamente nos usam como relógio, dizem: “Ah, esse é o carteiro, deve ser a hora do almoço”.

Eric Baudrillard, encarregado de desenvolver uma nova estratégia no serviço postal francês, disse: “Nenhum outro serviço postal no mundo fez o que estamos fazendo para as pessoas idosas. Somos pioneiros nisso. As pessoas estão vivendo mais, e mais delas querem ficar em seus lares o máximo que puderem. Sabemos que haverá mais necessidade de vínculos sociais como este, à medida que a mobilidade cresce e os filhos adultos se afastam de seus pais idosos. Apesar de todas as ferramentas digitais que temos, ainda há uma necessidade de conexão humana”.

Ele negou que os correios franceses estivessem lucrando com gestos amigáveis ​​que os funcionários dos correios vinham fazendo há anos de graça. “Os trabalhadores dos correios sempre se conectaram de maneira espontânea e informal com os clientes e cuidaram deles, e isso continuará. Mas o que estamos fazendo é adicionar novos serviços e trazer mais valor”.

Outros esquemas já foram implementados – os funcionários dos correios na França podem fornecer a clientes idosos produtos de lojas, receitas médicas básicas, livros de bibliotecas e refeições quentes. Esta semana, La Poste começou a oferecer um serviço que oferece aos idosos uma impressão regular de fotos e mensagens de parentes, que descreveu como “um tipo de Facebook no papel”.

Pascal Frémont, do sindicato Sud, que trabalhou em correios em Loire-Atlantique por 15 anos, disse que tinha reservas sobre os correios capitalizando na economia “prata”. “Para nós, não é um problema para os funcionários dos correios ficarem de olho nos idosos, porque muitos de nós já fazemos isso. Mas se é um serviço pago, isso exclui algumas pessoas que não podem pagar e afeta a noção de serviço público. Nós preferimos parcerias, como por exemplo com o ministério da saúde. E preferimos que qualquer apoio aos idosos seja financiado pelo preço dos selos. Além disso, os funcionários dos correios não são profissionais de saúde, por isso devemos ser cautelosos sobre isso”.

Yves Lecouturier, um ex-funcionário dos correios que administrava um museu postal em Caen, na Normandia, disse: “O vínculo social entre carteiros e carteiras e a população sempre existiu na França. No final da década de 1970, fizemos entregas de segunda a sábado e lembro de algumas pessoas mais idosas em áreas rurais remotas que assinavam um jornal diário apenas para que o carteiro se aproximasse para entregá-lo, pois essa seria a única pessoa que elas veriam”.

Quando Dezeure saiu para continuar sua rodada matinal, Janine disse: “Quero ficar morando em casa e agradeço que meus filhos adultos queiram saber que estou bem. É agradável ver o carteiro e ter um bate-papo regular, mas que escolha eu tenho? É isso ou deixar minha casa”.

Fonte: https://www.theguardian.com/world/2018/nov/23/care-package-french-postal-workers-helping-lonely-older-people

Carolina Lucena

Carolina Lucena

Graduada em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Colabora com artigos sobre o envelhecimento populacional mundial e traduções.

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