Top Gun Maverick – asas à intergeracionalidade

Tempo de Leitura: 5 minutos

O envelhecimento é uma verdade incontestável, e Top Gun Maverick nos deu asas à intergeracionalidade, mostrando a sua relevância em nossas existências


Tom Cruise fez 60 anos no dia 03 de julho de 2022. Nesse dia, lá estava eu, no cinema, assistindo encantada, mais uma vez, o ator de Hollywood de quem eu colecionava pôsteres na adolescência, dessa vez brilhando no filme Top Gun Maverick. Quando mais jovem Tom Cruise fez meu coração vibrar (e sei lá de quantas pessoas mais) quando participou de Top Gun – Ases Indomáveis (dentre outros), o que antecedeu ao novo filme, há mais de 30 anos.

O tempo passou, o Tom chegou aos 60 anos, eu também não sou mais aquela menina que colecionava pôsteres (mas sim, meu coração continua vibrando por ele!) e então, ao assistir ao filme lançado no ano de 2022, minha cabeça ficava o tempo todo pensando na mensagem gerontológica que a história traz, assim como a que o ator evidencia.

A história de Top Gun Maverick começa com deboches àquele que é considerado o “tiozinho” da situação (ainda que, fisicamente, Tom Cruise continue bem parecido com aquele ator de quem eu colecionava pôsteres da adolescência!).

Quantas vezes já presenciamos isso em nossas rotinas? Em quantas situações os mais velhos são desconsiderados, assim como o são o que eles têm a dizer e a ensinar?

O envelhecimento é um fato mundialmente comprovado e a importância do assunto tem se destacado em alguns setores, bem como as suas consequências (ainda que de forma bastante comedida, muitas vezes).

Hollywood, ao que parece, está atenta a esse cenário. O enredo e o papel de Tom Cruise no filme me trouxeram essa reflexão.

No filme, o lendário piloto Maverick, objeto de piadas em algumas cenas iniciais por conta da idade, tem uma importante tarefa na história: liderar uma nova equipe de aspirantes a aviadores, trabalho que ele tentou, ativamente, evitar durante toda a sua carreira na Marinha.

Ao desenvolver o papel de professor aos aspirantes, Tom Cruise brilha e dá lições de intergeracionalidade com extrema excepcionalidade, passando mensagens que precisam ser discutidas socialmente.

A experiência dos mais velhos não pode jamais ser desconsiderada. Vidas biológicas mais longevas podem contribuir (e muito!) com seus ensinamentos àqueles que são próximos e que com elas se depararem. Ouso afirmar que suprimir a esse respeito implica em desconsiderar as próprias vidas dos que nos antecederam e, igualmente, todas as suas biografias.

A intergeracionalidade é um processo que, quando efetivado, assegura minimamente respeito, conduzindo à minimização de práticas de etarismo.

Para efetivá-la, é fundamental observar as próprias condutas, atendo-se, por exemplo, que há a possibilidade de uma grande troca quando são garantidos os direitos a dizer e a ouvir, em condições de igualdade, independentemente da idade que se tenha.

Anos de vida tão diferentes entre as partes de uma relação, em um determinado contexto, podem levar a uma grande dificuldade de comunicação entre elas, e o que poderia ser uma grande oportunidade de aprendizado a todos os envolvidos, pode acabar em uma experiência bastante frustrante.

Dessa forma, a intergeracionalidade precisa ser compreendida também como uma via de mão dupla, onde as partes precisam se fazer entender, partindo-se da premissa que todos só têm a ganhar.

Se a expressão verbal não for possível, que possamos buscar pela intergeracionalidade fazendo uso de gestos visuais/corporais e/ou da tecnologia disponível, por exemplo, de maneira a se conduzir ao respeito à biografia daquele que encontra dificuldades em expressar-se de outra maneira.

Essa colocação também se vê no filme, quando Maverick encontra Iceman, personagem de Val Kilmer (que hoje tem 62 anos, sendo mais velho que Tom, que tem 60), ator que, em decorrência de um câncer na garganta, não consegue se expressar verbalmente com a mesma desenvoltura de quando atuou no papel do mesmo personagem, em um filme que antecedeu ao atual há mais de 30 anos.

Na cena, o personagem (e o ator) é considerado e respeitado em suas particularidades atuais com o uso de tecnologias disponíveis também na vida real e também pelo silêncio de olhares que se conversam.

Assim, as trocas de experiências entre pessoas ou grupos de pessoas com idades diferentes, como a concretização da definição do que boa parte dos dicionários traz sobre o que é a intergeracionalidade, saltam aos olhos como uma das grandes lições de Top Gun Maverick, as quais precisam ser conhecidas e refletidas.

Tom Cruise, por sua vez, segue brilhando e nos ensinando que envelhecer com qualidade, fazendo o que se gosta e sendo quem se é, é possível.

Porém, como não vivemos nas histórias dos cinemas e como nem todos somos atores de destaques em grandes produções cinematográficas, precisamos analisar sobre como percorrer esse caminho em situação de mínima similaridade na nossa vida “real” e sem “holofotes hollywoodianos”.

Somos sabedores de que o envelhecimento é uma verdade incontestável, de que a intergeracionalidade tem uma imensa relevância em nossas existências e de que sim, como nos ensina Tom Cruise, é possível efetivar essa mescla e fazer disso tudo um grande sucesso.

Todavia, precisamos ser reconhecedores de que somos desatentos para com esse cenário, tantas e tantas vezes, e de que somos desassistidos por políticas públicas para que nos seja propiciada a mesma realidade que as telas dos cinemas já nos mostram.

Precisamos que mais “Tons” brilhem nos papéis a que se propõem, ao longo de todo e de qualquer envelhecimento, bem como de uma consciência social sobre tudo que se faz primordial para que seja essa uma possibilidade verdadeira e concreta.

Que possamos nos valer da arte para que reflexões nesse sentido norteiem nossos atos e nos ensinam a construir nosso futuro, buscando pelo que nos é tão urgentemente necessário (como ir ao cinema depois de mais de 02 anos – esse era meu caso).

Gratidão, Top Gun Maverick! Você nos deu asas à intergeracionalidade! Gratidão, Tom Cruise. Você nos ajudou e muito e ter a certeza de que sim, é possível! (E, Tom, eu sigo com o coração também envelhecendo, mas ainda assim, sempre vibrando por você!).

Fotos: divulgação


Natalia Carolina Verdi

Advogada, Mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, Especialista em Direito Médico, Odontológico e Hospitalar pela Escola Paulista de Direito, Especialista em Direito da Medicina pelo Centro de Direito Biomédico da Universidade de Coimbra, Professora, Palestrante, Autora, Presidente da Comissão de Direito do Idoso para o ano de 2022, junto à OAB/SP – Subseção Penha de França. E-mail: [email protected]

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