Tony Ramos o Antenor da Paraíso Tropical

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O nome de Tony Ramos virou sinônimo de simplicidade, humildade e jeito despretensioso de encarar a vida. São pouquíssimos os atores que, ao ingressarem na carreira artística, não o tem como ídolo.

 

 

Aos 58 anos, o paranaense, casado há 38 anos com Lidiane, 55, com quem tem dois filhos – Rodrigo, 37, e Andréa, 36- garante que esse temperamento é de nascença e fruto de uma educação primorosa da mãe Maria Antonieta, 77.

Quando o filho tinha três anos de vida, a então professora primária resolveu se separar do marido numa época que só o fato de pronunciar essa palavra já gerava preconceito. Educado com simplicidade e franqueza, o ator, que encanta o público na pele de Antenor em “Paraíso Tropical”, garante que não conhece a palavra empáfia e que o glamour da fama não o seduz.

“Não acredito em tapinha nas costas, em capa de revista, de jornal. Sou feliz com a repercussão. Dou uma entrevista grato aos jornalistas pelo reconhecimento de anos de trabalho. O trabalho só é movido a dedicação a ele, isso é a única coisa que te alimenta.”

Nessa entrevista concedida na sala de imprensa do Projac depois de desembarcar no Rio vindo de São Paulo, Tony falou sobre a importância do sexo no casamento com Lidiane, o sucesso de Antenor, a parceria com a colega Glória Pires e o que espera da velhice.

Como você encara o Antenor?

É um surpreende e belo personagem. Eu já o conhecia da época de “Belíssima”, quando o Gilberto me mandou a sinopse. É incrível, mas tudo o que o Gilberto Braga escreveu na sinopse está acontecendo com meu personagem. É fascinante: um personagem pragmático, duro, que exige muito no trabalho. Ele é um homem mal resolvido na sua infância com o pai, o culpa pela morte prematura da mãe. É um homem machista que trai a confiança de sua grande companheira, Ana Luiza (Renée de Vielmond), e até a própria amante, Fabiana (Maria Fernanda Cândido). A partir do momento que ele tem o infarto, dá uma pausa e faz um balanço. Frente ao imponderável da morte, cai frente ao medo e começa a fazer uma reflexão sobre a vida. O bonito é que quer conquistar Lucia, quer até ter um filho com ela, mas não fala de amor. Esse é um dado do personagem riquíssimo.

Mas Lucia pode dobrá-lo…

Acho que sim, acho até que ele pode se apaixonar por ela. Mas Antenor já disse para a Lucia que só teve um amor na vida, a Ana Luiza. Ele é de uma loucura pragmática, de uma sinceridade que choca as pessoas. E ao mesmo tempo as pessoas falam desse machismo, do homem mulherengo. Ele diz que já foi assim e se questiona diante da possibilidade de voltar a ser. Antenor me encantou desde que li a sinopse.

E essa parceria com a Glória (eles foram os casais Helena e Claudio no longa “Seu Eu Fosse Você”, de Daniel Filho, e Júlia e Nikos em “Belíssima

Há muitos anos que a TV Globo queria que trabalhássemos juntos, mas nossas agendas não coincidiam. Glória é uma excelente colega de trabalho, uma menina de ouro. Tem uma família maravilhosa. É bom a gente ter essa relação de trabalho tão franca e objetiva. Às vezes a gente sai junto: eu, Glorinha, Orlando e Lidiane. Jantamos fora, batemos papos. As festinhas que os filhos menores dela vão, os meus netos também vão. Isso facilita muito o trabalho.

Qual é a técnica para decorar 28 cenas depois de chegar de uma viagem a São Paulo?

(risos) Já tenho muitos anos de experiência. Tenho minha maneira de estudar meu texto que já começa na semana anterior. Sempre gravamos uma média de seis capítulos por semana. Recebemos semanalmente um bloco de seis a oito capítulos. Gilberto Braga escreve com muita antecedência. Já estou gravando capítulos para o final de julho. Isso me permite uma sistemática. Assim que recebo os capítulos vou decupando. Os leio inteiros para me inteirar do espetáculo e me inserir naquilo. Depois é a decupagem individual. Marco as minhas cenas e passo a decorar por ordem cronológica, não me interessa o cenário. Domingo depois do almoço passo a decorar por ordem cronológica.

Você é uma pessoa bem disciplinada né?

Minha mãe Maria Antonia, 77 anos, é professora aposentada e depois foi diretora de escola pública em São Paulo. Ela sempre dizia quando eu estudava: estuda o que vc aprendeu hoje. Conseqüentemente ia armazenando aquelas lições muito mais rapidamente. Nas provas do mês ia só repassando o que já havia aprendido.

Dizem os especialistas que decorar é um ótimo exercício para a memória.

Ocupar a mente é o maior exercício. Sempre disse para os meus filhos, que também repetem para os meus netos: quando você exercita o cérebro até a sua maior idade, fica confortável ficar diante de terceiros, que passam a te ver com uma pessoa ativa. Existem jovens de 30 anos ociosos. Eles julgam que estar ativo é viver na balada. Mas o tempo passa. Acho fundamental aproveitar a vida com parcimônia, sabedoria.

Como você se prepara para a velhice?

Me preocupo de forma equilibrada. Nunca tive obsessão quanto a isso. No meio dos colegas sou conhecido como o cara que não esquenta a cabeça com o amanhã. Vivo o hoje e nunca olho para o passado. Ele já foi, passou. Apenas consulto o meu passado para ver a minha história. Onde progredi, onde errei, só para isso. Eu acho que a velhice, ou ganhar anos – pois o velho pode estar instalado num jovem pretensioso de 18 anos- é um prêmio, uma dádiva divina, uma permissão de Deus. Quanto mais trabalho, mais premiado sou. Nunca tive crise dos 30, 40, 50. Isso para mim é balela, papo. Tem gente que tem problema de afirmação e que, com a chegada da idade, o mundo caí. Para mim, não.

A maioria dos atores o tem como ídolo. Essa sua visão humilde da vida diante da fama nasceu em você ou já se deparou com momentos de empáfia?

De empáfia nunca! Tive uma educação muito boa. Minha mãe era professora primária e tinha três empregos. Ela trabalhava de noite, de manhã, de tarde. Ela se separou do meu pai quando eu ainda era muito pequeno. Eu tinha três anos. A partir desse momento nasce um outro comportamento naquela casa. Minha mãe só volta a namorar e casar novamente quando eu tinha 14 anos. Fui criado de forma libertária, sem preconceitos. Ela se separou no início dos anos 50 e foi a primeira atitude de coragem com a qual me deparei na vida. Minha avó, Dodô – mãe dela – e meus tios ajudaram minha mãe a me criar. Foi importante essa formação que tive. Nunca tive empáfia. Quando fui trabalhar, entendia que era um processo de sobrevivência e, felizmente, eu estava conseguindo emprego naquilo que gostava. Não acredito em tapinha nas costas, em capa de revista, de jornal. Sou feliz com a repercussão. Dou uma entrevista grato aos jornalistas pelo reconhecimento de anos de trabalho. O trabalho só é movido a dedicação a ele, isso é a única coisa que te alimenta.

Você foi um pai severo?

Fui um homem de impor limites. Jamais encostei a mão ou puxei orelha de um filho. Soube berrar com um filho na hora certa. Soube gritar e dizer: ‘quem está falando agora sou eu e agora ouça! Eu sei mais do que você, não tenta me dar a volta.’ E eles entenderam. Sempre usei a força do verbo. E quando errei com eles também soube pedir desculpas.

E como é o Tony Ramos vovô (seu filho Rodrigo é pai de Henrique, 7 anos, e Gabriela, 3)?

Sou um cara normal. Não fico elegendo os netos como a meta da vida. Fico feliz. É um novo ciclo que se abre. Entendo os limites que tenho que ter. Não censuro meu filho quando o vejo dando uns esbregues neles. O garoto pisou na bola e meu filho tem que chamar a atenção e eu quando tiver que fazer o mesmo, farei. Quando tenho que ser meloso, morder e beijar o neto, farei também.

Lidiane e Tony Ramos: como você vê essa união de 38 anos?

Só vejo pelo amor. Amor às vezes é uma palavra muito usada. Amor é algo que transcende a paixão. É algo que transcende a cama, que transcende qualquer tipo de manifestação. É respeito antes de qualquer coisa. Amor é entender o silêncio do parceiro, entender principalmente os momentos de dor, de tristeza, de introspecção que o parceiro tem. É entender que aquela sua parceira é co-participante da sua vida e ela esteve com você nos momentos mais felizes, mais alegres e quando você está desfrutando desses mais alegres, a primeira pessoa que tem que estar ao seu lado é ela. Amor é quando você entende isso. Aí está embutido o bom sexo, a boa paixão, a boa convivência e passa por esse molho todo o humor. Humor não é deboche. É não se levar a sério.

Existiu crise alguma vez nessa relação?

O casamento é recheado disso tudo. Ela é grave, média, moderada? Eu nunca tive crise grave. Mas elas são naturais, existenciais. Felizmente nunca tive essa tal crise do casamento. Mas o que é bom para mim, pode não ser bom para terceiros. O único exemplo que posso dar é o meu depoimento de vida. O amor e o casamento para mim não se brinca. Ainda mais com sua parceira, sua fiel companheira.

Com tanto tempo junto, que lugar o sexo ocupa no casamento de vocês?

É fundamental. Mas ele não pode ser a meta base. Quando duas pessoas estão muito tempo juntas, elas têm que conversar sobre isso e se surpreender com o próprio sexo. Para isso, é preciso estimular a cada hora, minuto. Basta gestos de afeto, surpresa no abraço, aperto de mão. Mas tem que entender que às vezes o cara está cansado, a esposa está cansada. Você tem que ter maturidade. Sexo é bom e gostoso. Mas o gostoso não pode ser obrigação. Não é competição. Sexo é qualidade. Quando se descobre a qualidade é bem melhor que fazer sexo 60 vezes por mês.

Você é feliz consigo mesmo?

Sou feliz com meu corpo, com meu jeito de ser, com meus pneuzinhos aqui (aponta para a cintura). Não faço lipoaspiração, não faço é nada. Meu negócio é esse aqui, curtir minha vida como Deus me permite, cuidar da minha saúde. Tenho minhas aulas de ginástica com meu professor Pedro Rodrigues. Me recuso a falar ‘personal trainer’- acho isso um pé no saco. Não me exercito para ficar meninão. Tô fora de ser um homem de meia idade metido a garotão. Isso é um roteiro que jamais escreveria para a minha vida. Quero ficar bem para a minha saúde. Manter o colesterol equilibrado, fazer os exames de próstata, cuidar da saúde, ser um cara do meu tempo, ativo, atento, mas curtindo minha vida.

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Fonte: Badauê Online, 12/07/2007. Acesse Aqui

 

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